Quer entender por que o campo está quebrando? Com margens esmagadas, juros sufocantes e crédito desvirtuado, o produtor rural brasileiro enfrenta uma crise estrutural que transforma investimento em armadilha
Ele acorda antes do sol. Trabalha enquanto o país dorme. Enfrenta seca, enchente, praga, geada. Planta sem saber se vai colher. Colhe sem saber se vai lucrar. E mesmo assim, insiste. Porque é isso que o produtor rural brasileiro faz há gerações: insiste.
Há cinco meses escrevi um artigo defendendo que esse produtor era vítima de uma conjuntura devastadora. Alertei que a crise não era passageira. Que tratar o agricultor como mau pagador era um erro crasso.
Ninguém ouviu.
Para entender o que está acontecendo agora, é preciso voltar alguns anos.
Entre 2020 e 2022, a soja viveu um ciclo de alta histórica. As margens eram positivas como há muito tempo não se via. E o produtor fez o que qualquer empresário racional faria: investiu. Comprou terras. Ampliou a operação. Tomou crédito para crescer. Era o momento certo. Os números diziam isso.
Então o mercado virou.
O preço da commodity despencou. Os custos de produção, cotados em dólar, continuaram subindo. A margem que era de dois dígitos virou pó. E o produtor que havia se alavancado na alta se viu preso numa equação impossível na baixa.
Em 2023 e 2024, muitos tentaram sobreviver rolando dívidas. Apostaram que a próxima safra traria alívio. Não trouxe. Os dados confirmam: em 2024, os pedidos de recuperação judicial de produtores rurais somaram 2.273 solicitações, segundo a CNN Brasil, alta de 61,8% em relação ao ano anterior.
Em 2025, o cenário se agravou. A Selic ultrapassou 15%. As taxas de crédito rural chegaram a 30% e 40% ao ano em muitas operações. O produtor que rolou dívida em 2023 descobriu que o remédio virou veneno.
Agora, em janeiro de 2026, os números gritam ainda mais alto. Dados da Serasa Experian mostram quase mil novos pedidos de recuperação judicial só no primeiro semestre de 2025. No terceiro trimestre, crescimento de 150%. Em Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, produtores ingressam em massa com pedidos neste início de ano.
Quer entender por que o campo está quebrando? Vamos fazer uma conta simples.
Na safra de soja 2025/26 no Mato Grosso do Sul, segundo a Aprosoja/MS, a receita média por hectare ficou em R$ 6.360. O custo total chegou a R$ 6.116. Sobraram R$ 244 por hectare. Margem líquida de 2%.
A CNA e a Conab alertam: margens abaixo de 5% colocam o produtor em zona de risco financeiro.
Com juros de crédito rural entre 12% e 15% ao ano nas melhores condições, e chegando a 40% nas renegociações, esse lucro de 2% não cobre nem o custo do dinheiro. Quando soma arrendamento e encargos, o que era margem vira prejuízo.
Não é exagero. É conta real. Em muitos casos, o banco lucra mais que o produtor.
Levantamento da Farsul, com base em dados do Banco Central, mostra que a carteira de crédito rural atingiu R$ 812,7 bilhões em novembro de 2025. Desse total, R$ 123,6 bilhões são operações em situação crítica. Entre julho de 2024 e novembro de 2025, o montante sob estresse saltou 71%.
Segundo Antônio da Luz, economista-chefe da Farsul: para cada R$ 1 de lucro, o produtor está pagando R$ 3 em juros.
Isso não é agricultura. Isso é asfixia programada.
O produtor que investiu na alta agora paga a conta na baixa. Com um sistema financeiro que não foi desenhado para absorver esse choque. Com renegociações que agravam o problema em vez de resolvê-lo.
Historicamente, o crédito rural operava com juros subsidiados, entre 4% e 12% ao ano,conforme o Manual de Crédito Rural do Banco Central. Era assim que o país construiu o agronegócio que alimenta 1 bilhão de pessoas no mundo. Hoje, produtores relatam contratos com taxas de 30% a 40% ao ano.
O crédito rural deveria ser instrumento de fomento. Deveria ser a mão que levanta, não a corda que enforca. Mas se transformou em ferramenta de estrangulamento.
A margem apertada não é falha de gestão. É sinal de que o sistema está desequilibrado. E quando os números mostram isso, a renegociação de dívida deixa de ser um favor e passa a ser uma ferramenta técnica de defesa.
Mas a recuperação judicial não é a única saída. E em muitos casos, nem deveria ser a primeira.
Existe um caminho que poucos produtores conhecem: a revisão dos contratos de crédito rural. Muitas instituições financeiras desvirtuaram essas operações. Cobram taxas acima do permitido. Inserem cláusulas abusivas. Capitalizam juros de forma irregular. Quando esses contratos são analisados com profundidade técnica, é comum encontrar irregularidades que reduzem substancialmente o saldo devedor.
Além da revisão contratual, existe a reestruturação da dívida e do negócio. Olhar para a operação como um todo. Entender gargalos. Reorganizar custos. Redefinir a estratégia para os próximos ciclos.
O diagnóstico correto define o caminho correto.
Para quem está no campo e sente a água subir, minha orientação é direta: antes de qualquer decisão, faça um diagnóstico formal. Mapeie o tamanho real da dívida. Analise seus contratos. Avalie a capacidade de geração de caixa. Identifique onde estão as garantias que representam risco imediato.
Esse diagnóstico vai mostrar o caminho. Revisão contratual. Reestruturação. Renegociação bilateral. Ou, em último caso, recuperação judicial.
Cada situação exige uma resposta diferente. E a resposta errada pode custar a fazenda que sua família construiu ao longo de décadas.
Há cinco meses perguntei se o produtor rural era vítima ou vilão. A resposta continua a mesma. Ele é vítima de uma conjuntura devastadora. De um sistema que prometeu fomento e entregou estrangulamento.
Mas agora a pergunta é outra.
Quantas famílias mais precisam perder suas terras para que o sistema faça alguma coisa?
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*Leandro Amaral é advogado com atuação especializada no Agronegócio desde 2004; com atuação destacada em crédito rural, recuperação judicial de produtores e reestruturação de dívidas agrícolas Master of Laws em Direito Empresarial pela FGV, MBA em Direito do Agronegócio pelo Ibmec; Especialista em Recuperação de Empresas e Gestão Patrimonial pelo Insper; Especialista em Contratos do Agronegócio pelo IBDA; Certificação Febraban em Crédito Rural; Administrador Judicial pela Esmeg; membro da U.B.A.U. – União Brasileira dos Agraristas Universitários e da Academia Brasileira de Crédito do Agro; Sócio fundador do escritório Amaral e Melo Advogados e da Empresa de Consultoria AgriCompany.
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