Após dois anos consecutivos de perdas climáticas, produtores entram na safra 2026 pressionados por dívidas, queda no preço do açúcar, recuo do ATR e aumento dos custos de produção. Sem medidas efetivas de apoio, cresce o temor de uma quebra em cadeia que pode atingir toda a economia regional
O interior de São Paulo, principal polo sucroenergético do Brasil, vive uma das fases mais delicadas das últimas décadas. Enquanto o setor continua sendo tratado como uma das locomotivas do agronegócio nacional, produtores rurais afirmam que a realidade dentro das fazendas é bem diferente: margens negativas, endividamento crescente e falta de políticas públicas capazes de oferecer segurança diante de um cenário que combina crise climática, queda das commodities e aumento dos custos de produção.
A situação é ainda mais preocupante porque a crise não surge de um único fator. Ela é resultado da soma de dois anos consecutivos de quebra de produtividade provocada pelo clima, da forte desvalorização do açúcar no mercado internacional, da queda do ATR — indicador que determina a remuneração da cana — e da disparada dos insumos agrícolas, especialmente fertilizantes e combustíveis.
Para muitos produtores, a pergunta já não é mais quanto irão ganhar nesta safra, mas quanto conseguirão perder sem comprometer a continuidade da atividade.

Dois anos de quebra deixaram produtores sem fôlego
Na região de Araraquara, uma das mais tradicionais áreas produtoras de cana-de-açúcar do país, o sentimento predominante é de preocupação.
À frente da Fazenda Jangada Brava, propriedade de 1.030 alqueires, a produtora rural Anna Paula Nunes afirma que a safra atual chega após um período extremamente desgastante para quem produz.
Segundo ela, os prejuízos acumulados em 2024 e 2025 deixaram grande parte dos produtores descapitalizada. “Vou ser bem direta porque a situação é séria. Nossa região vem de dois anos seguidos de quebra por clima na cana. 2024 e 2025 tiraram o fôlego do produtor. A gente entrou em 2026 devendo“, relata.
Embora a expectativa seja de uma recuperação parcial da produtividade neste ano, Anna Paula afirma que isso está longe de representar uma solução. “O problema é que a produção melhora, mas o preço caiu e os custos explodiram. Hoje a conta simplesmente não fecha.” 
Açúcar em baixa corrói rentabilidade
Um dos principais fatores que pressionam a renda dos canavicultores é a forte desvalorização do açúcar.
Após anos de preços elevados impulsionando a rentabilidade do setor, o mercado entrou em um ciclo de baixa. Com maior oferta global e ajustes no consumo, as cotações perderam força, reduzindo diretamente a receita dos produtores.
A queda do preço do açúcar atinge em cheio a formação do ATR (Açúcar Total Recuperável), principal referência para o pagamento da cana.
Segundo Anna Paula, a perda acumulada já é significativa. “A ATR perdeu quase 14% em comparação à safra passada, que já tinha sido ruim.”
O resultado é uma deterioração rápida das margens financeiras justamente em um momento em que muitos produtores ainda tentam se recuperar dos prejuízos recentes.

Fertilizantes e diesel anulam qualquer ganho de produtividade
Se o preço caiu, os custos seguiram caminho oposto.
O setor esperava alguma redução nos gastos com insumos em função da desaceleração econômica global e da valorização do real em determinados momentos do ano. Porém, o agravamento dos conflitos geopolíticos internacionais alterou completamente o cenário.
Diesel e fertilizantes, dois dos principais componentes do custo de produção da cana, voltaram a subir.
Segundo Anna Paula, esses itens representam cerca de 60% do custo operacional da atividade.
“A guerra mudou tudo. Diesel e fertilizantes dispararam. Hoje a margem está negativa.”
O problema é que, diante da falta de rentabilidade, muitos produtores acabam reduzindo investimentos em tecnologia, correção de solo e manejo agronômico, o que compromete a produtividade futura e cria um círculo vicioso de perda de competitividade.

ATR abaixo de R$ 1 acende alerta vermelho
As preocupações dos produtores ganharam força após a divulgação dos números mais recentes do ATR.
No fim de maio, o engenheiro agrônomo e produtor rural Felipe Stelutti analisou a nova queda do indicador e classificou o momento como um dos mais difíceis para os fornecedores de cana.
Segundo ele, o cenário previsto pelos estudos de mercado está se confirmando.
“O que era difícil ficou ainda mais complicado. Quem ainda tinha alguma rentabilidade vai ganhar menos. Quem já estava no prejuízo terá perdas ainda maiores.”
De acordo com Stelutti, as projeções indicam que o ATR deverá permanecer abaixo de R$ 1 durante boa parte da safra. “O acumulado já está entre R$ 0,85 e R$ 0,89. Infelizmente estamos vivendo um ciclo de baixa das commodities.”
O especialista alerta que a pior decisão neste momento pode ser abandonar completamente os investimentos no canavial.
Segundo ele, cortes excessivos em fertilização, controle de pragas e manejo de plantas daninhas podem gerar prejuízos ainda maiores nos próximos anos.
A preocupação é que muitos produtores, pressionados pela falta de caixa, sejam obrigados a sacrificar justamente os investimentos que sustentam a produtividade futura. 
Risco vai muito além das porteiras
A crise da cana não afeta apenas quem planta. Em cidades do interior paulista, onde a atividade sucroenergética movimenta grande parte da economia local, uma retração prolongada pode gerar impactos em toda a cadeia produtiva.
Com menor renda nas propriedades rurais, há redução da demanda por máquinas, implementos, transporte, oficinas, comércio e serviços.
Anna Paula faz um alerta contundente. “Nossa região é canavieira. Se a cana quebra, o comércio, o serviço e o emprego quebram juntos.”
Ela reforça que o problema já ultrapassou a discussão sobre rentabilidade.
“Não estamos falando de margem apertada. Estamos falando de risco real de quebra sistêmica.”
O avanço do milho cria um novo desafio para a cana
Como se não bastassem os problemas atuais, a cadeia sucroenergética ainda enfrenta uma transformação estrutural no mercado de etanol. Nos últimos anos, o etanol de milho deixou de ser uma alternativa complementar e passou a ocupar posição estratégica na matriz de biocombustíveis brasileira.
Diferentemente da cana, cuja colheita é concentrada em determinados períodos do ano, o milho permite produção contínua nas usinas ao longo dos doze meses. Além disso, aproveita uma matéria-prima abundante, especialmente no Centro-Oeste, onde a segunda safra cresce em ritmo acelerado.
Outro fator relevante é o aproveitamento integral do grão, gerando coprodutos de alto valor agregado, como DDG e óleo de milho, que ajudam a compor a rentabilidade industrial.
Enquanto os produtores de cana enfrentam custos crescentes, problemas climáticos recorrentes e queda na remuneração do ATR, o etanol de milho avança apoiado em ganhos de eficiência, escala e previsibilidade operacional.
Isso não significa que a cana perderá sua relevância. O setor sucroenergético paulista continua sendo um dos mais importantes do mundo. Porém, a concorrência já não vem apenas de outras regiões produtoras ou de oscilações de mercado. Ela agora surge também dentro do próprio segmento de biocombustíveis.
Um setor que pede socorro
O atual cenário expõe uma fragilidade que há anos vem sendo ignorada: a ausência de mecanismos eficazes de proteção para produtores diante de crises climáticas e ciclos prolongados de baixa das commodities.
Enquanto os discursos oficiais continuam destacando recordes do agronegócio brasileiro, milhares de produtores convivem com uma realidade marcada por endividamento, margens negativas e incertezas sobre o futuro.
A cana-de-açúcar ajudou a transformar o interior paulista em uma potência econômica. Mas a combinação de clima adverso, ATR em queda, açúcar desvalorizado, fertilizantes caros e concorrência crescente do milho coloca o setor diante de um dos momentos mais desafiadores de sua história recente.
A questão que começa a ecoar entre produtores, cooperativas, usinas e municípios é inevitável: qual será o futuro da cana-de-açúcar no interior de São Paulo se nada for feito para evitar o aprofundamento dessa crise?
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