Queijo de cabra brasileiro é eleito o melhor do mundo; saiba como é feito

Produzido no interior do Rio de Janeiro, o premiado queijo de cabra brasileiro passa por uma maturação exclusiva dentro do fruto da árvore sapucaia e conquista um reconhecimento internacional inédito

O queijo de cabra brasileiro alcançou o topo da gastronomia internacional ao conquistar um reconhecimento inédito para o país. O Sabucaia do Lago, produzido pelo Capril do Lago em Valença (RJ), garantiu a prestigiada medalha Super Ouro no Mundial do Queijo do Brasil.

O evento, realizado em São Paulo, reuniu cerca de 3 mil marcas artesanais e consolidou a força da caprinocultura nacional frente aos principais concorrentes globais.

Tradição familiar e a consagração no Mundial do Queijo

A conquista internacional é o reflexo de uma história que entrelaça duas grandes paixões na família Le Draper Vieira. Conhecidos na região por terem formado 38 dentistas ao longo das gerações, eles também mantêm viva a tradição queijeira há quatro décadas.

Em entrevista à Globo Rural, o proprietário da queijaria, Fabrício Le Draper Vieira, revelou que o sucesso nos palcos internacionais é fruto de uma dedicação sistêmica. De acordo com o produtor, a receita para criar o melhor produto do mundo exige um alinhamento rigoroso entre manejo sustentável, bem-estar animal e a valorização do terroir fluminense.

“A gente se preocupa muito com o ambiente onde o animal está e com o meio ambiente ao redor. Isso faz toda a diferença”, destacou Fabrício à Globo Rural. “É o que o animal vai comer, a qualidade da água, onde vai deitar… Não se faz queijo bom com leite ruim.”

Como é feito o premiado queijo de cabra brasileiro?

O processo de fabricação do queijo de cabra brasileiro começa com uma seleção genética criteriosa no campo. O leite utilizado na receita provém de cabras das raças Saanen e Murciana-Granadina criadas na própria fazenda. Essa combinação é amplamente reconhecida no setor agropecuário pela alta produtividade e pela excelente qualidade físico-química do leite, o que impacta diretamente a cremosidade do produto final.

Após a ordenha, o leite passa por um processo de fermentação com iogurte. O grande diferencial técnico, contudo, ocorre na etapa de maturação, que dura três semanas. O queijo é maturado no interior da caçapa (o fruto seco) da árvore sapucaia. Durante esse período, a massa recebe a inoculação dos fungos Geotrichum candidum e Penicillium camemberti, os mesmos microrganismos responsáveis pelo desenvolvimento do mofo branco característico do tradicional queijo brie.

A casca fina esconde uma textura interna extremamente delicada e untuosa. No perfil sensorial, destacam-se notas amanteigadas e uma acidez equilibrada, acompanhadas por nuances aromáticas que remetem a nozes, castanhas e madeira. Segundo o produtor, o uso da caçapa da sapucaia é estratégico, pois potencializa o controle térmico e de umidade, conferindo uma assinatura sensorial exclusiva e difícil de replicar.

Identidade cultural e as lendas de Valença

O nome “Sapucaia do Lago”, criado há três anos, foi escolhido para criar um elo profundo com a história e o folclore do município de Valença. A árvore sapucaia carregava um forte simbolismo místico para as comunidades indígenas originais da região, que a viam como um portal de conexão com o paraíso, sepultando seus entes queridos sob suas copas.

Além da herança indígena, a árvore conecta-se à história religiosa local. Relatos da comunidade apontam que os nativos utilizavam a silhueta das sapucaias, vistas do alto da Serra dos Mascates, para prever as condições climáticas de plantio e colheita. Durante o período de catequização, a promessa de um pai pela cura de seu filho — que afirmou ter visto a imagem de Nossa Senhora refletida nos galhos da árvore — culminou na construção da capela que, anos mais tarde, se tornaria a atual Catedral de Nossa Senhora da Glória de Valença.

Harmonização e a trajetória do queijo de cabra brasileiro

Devido à sua versatilidade e ao equilíbrio de sabores, o premiado queijo de cabra brasileiro performa com excelência em diferentes propostas gastronômicas. Quando jovem e cremoso, harmoniza perfeitamente com vinhos tintos leves, rosés e geleias artesanais de frutas. Já em estágios de maturação onde apresenta consistência mais firme e quebradiça, torna-se um excelente ingrediente para compor saladas finas e tábuas de antepastos ao lado de frutas secas.

Embora jovem no mercado, o Sapucaia do Lago ostenta uma prateleira de troféus expressiva. Antes de garantir o Super Ouro no Mundial, a iguaria fluminense já havia sido eleita o Melhor Queijo do Rio de Janeiro no 1º Prêmio Sudeste de Queijos Artesanais, além de ter conquistado a medalha de bronze na prestigiada feira internacional ExpoQueijo Brasil, em Araxá (MG). A chancela global consolida, em definitivo, o potencial do agronegócio artesanal brasileiro no mercado de alta gastronomia.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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