Após anos de produção recorde e forte expansão das exportações, a pecuária brasileira entra em uma nova fase do ciclo, marcada pela menor oferta de animais para abate, retenção de fêmeas e expectativa de preços mais firmes no mercado interno e internacional. O movimento já começa a impactar o equilíbrio global da carne bovina.
Depois de exercer papel central na contenção dos preços globais da carne bovina nos últimos anos, o Brasil começa a sinalizar uma virada relevante no ciclo pecuário. A redução da oferta de gado para abate, impulsionada principalmente pela alta no preço dos bezerros e pela retenção de fêmeas para recomposição de rebanhos, indica que o país caminha para um período de menor disponibilidade de carne, com efeitos diretos sobre os preços no mercado internacional.
Esse movimento representa uma inflexão importante após dois anos de forte produção. Entre 2023 e 2025, a abundância de animais no Brasil levou os preços do gado a patamares mais baixos em comparação com outros grandes produtores, favorecendo o aumento dos abates e impulsionando as exportações. Ao mesmo tempo, países como Estados Unidos e Austrália enfrentaram restrições severas de oferta, em razão de secas prolongadas e custos elevados de alimentação, o que ampliou a dependência da carne brasileira no comércio global.
Virada de ciclo na pecuária: menos abate, mais retenção
O cenário começa a mudar à medida que os pecuaristas brasileiros passam a reter matrizes, estratégia típica de início de um novo ciclo de alta. Com menos fêmeas sendo destinadas ao frigorífico, o volume total de abates tende a recuar. Analistas do mercado avaliam que o país está deixando para trás a fase de excesso de oferta, enquanto a etapa de escassez ainda está em formação — um processo que pode se estender por vários anos .
Mesmo com ganhos em eficiência produtiva, que ajudam a suavizar os efeitos em relação a ciclos anteriores, as projeções apontam para queda relevante no abate. Consultorias estimam que o número de bovinos abatidos no Brasil pode recuar cerca de 5% a 6% no ano de 2026, após dois anos consecutivos de crescimento. Essa redução ocorre justamente em um contexto de demanda global ainda aquecida por proteínas, o que tende a sustentar preços mais elevados .
Impacto global e papel estratégico do Brasil
A mudança no Brasil ocorre em paralelo a um quadro de restrição de oferta em outros grandes polos produtores. Nos Estados Unidos, o rebanho bovino está no menor nível em décadas, enquanto a Austrália também deve iniciar um processo de retenção de fêmeas. Esse alinhamento de ciclos entre os principais exportadores cria um ambiente de maior pressão sobre os preços internacionais da carne bovina, independentemente das diferenças de hábitos de consumo entre os países .
Mesmo com menor produção prevista, o Brasil deve manter a liderança global nas exportações. Projeções indicam que o país pode embarcar volumes recordes, superando 4,4 milhões de toneladas, beneficiado pela competitividade estrutural da pecuária nacional e pela abertura — ainda que pontual — de mercados como os Estados Unidos, após períodos de flexibilização tarifária.
Recordes recentes e sinais positivos para o setor
O novo ciclo se inicia após um ano histórico para a pecuária de corte brasileira. Em 2025, o Brasil se consolidou como maior produtor de carne bovina do mundo, com cerca de 12,3 milhões de toneladas, superando os Estados Unidos pela primeira vez, segundo dados do USDA. Esse desempenho foi sustentado por forte ritmo de abates e por exportações em alta, que cresceram mais de 30% em valor, puxadas principalmente por China e EUA .
Apesar do cenário de menor oferta à frente, especialistas avaliam que o setor entra em 2026 com fundamentos sólidos. A expectativa é de valorização da arroba do boi, especialmente a partir do segundo semestre, quando a disponibilidade de fêmeas tende a ser ainda menor. Projeções de mercado indicam que os preços podem voltar a patamares superiores aos registrados em 2024, refletindo o novo equilíbrio entre oferta restrita e demanda firme .
Atenção aos riscos no comércio internacional de carne
Embora o panorama seja majoritariamente positivo, o setor acompanha com cautela possíveis riscos externos. A forte concentração das exportações brasileiras em poucos mercados — especialmente China e Estados Unidos — mantém o país exposto a mudanças regulatórias, investigações comerciais e eventuais tarifas. Ainda assim, a avaliação predominante é de que, no curto e médio prazo, a menor oferta global de carne bovina tende a sustentar preços elevados, reforçando o protagonismo do Brasil no abastecimento mundial.
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