Sem floresta não há previsibilidade: o ativo invisível que sustenta o agro brasileiro

Com 65,6% do território coberto por vegetação nativa, o país transforma conservação em vantagem econômica ao reduzir volatilidade climática e risco produtivo

Por Cícero Ramos – A agricultura moderna costuma ser descrita a partir de sua base tecnológica: máquinas mais eficientes, sementes melhoradas, uso de insumos e práticas agrícolas avançadas que elevaram a produção nas últimas décadas. Essa dimensão é visível, mensurável e amplamente reconhecida — e foi decisiva para a transformação produtiva brasileira.

Menos visível, porém igualmente determinante, é a base biofísica que sustenta esse desempenho. Trata-se do conjunto de condições naturais que permitem que a tecnologia funcione: regimes de chuva compatíveis com o ciclo das culturas, temperaturas dentro de faixas fisiologicamente toleráveis, disponibilidade hídrica adequada e solos estruturalmente estáveis. Quando esses elementos se tornam mais instáveis, a tecnologia não desaparece — mas passa a operar com maior custo, menor previsibilidade e risco produtivo crescente.

Essas condições decorrem de processos ecológicos que a técnica não controla plenamente. Florestas e outras formações vegetais influenciam fluxos de água, energia e umidade, protegem o solo contra erosão e contribuem para a modulação do micro e do mesoclima. À medida que os sistemas agrícolas se tornam mais intensivos em capital e tecnologia, cresce sua sensibilidade econômica às instabilidades ambientais. Ondas de calor, irregularidade das chuvas e degradação do solo afetam custos, produtividade e decisões de investimento. O clima sempre foi variável; o que se discute é o grau de amortecimento territorial desses riscos. Paisagens com cobertura vegetal mantêm ativos processos que regulam fluxos de água e energia em escala regional. Quando esses mecanismos são reduzidos, o risco climático tende a se propagar com maior impacto econômico. O paradoxo é evidente: sistemas tecnologicamente sofisticados tornam-se mais sensíveis à instabilidade ambiental.

Nesse contexto, a evidência científica recoloca no centro do debate o papel de florestas e árvores como componentes que influenciam a estrutura de risco da atividade agrícola. Ao atuar sobre temperatura, disponibilidade hídrica, estabilidade do solo e processos ecológicos, esses elementos afetam as condições sob as quais a produção opera — da propriedade à paisagem regional. A literatura não sugere efeitos automáticos nem lineares, mas associa determinadas configurações de cobertura vegetal à redução de risco produtivo em contextos específicos.

Publicação lançada em 2025 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em parceria com o Stockholm Environment Institute (SEI), a Conservation International (CI) e a The Nature Conservancy (TNC), sistematiza essas evidências. O relatório “Climate and ecosystem service benefits of forests and trees for agriculture” não trata de competitividade macroeconômica, nem estabelece padrões normativos; identifica, com base empírica, condições biofísicas associadas à regulação climática, estabilidade hídrica e proteção do solo — fatores que influenciam a exposição ao risco produtivo.

À luz desse referencial, o caso brasileiro apresenta características relevantes. Dados da Embrapa Territorial indicam que 65,6% do território nacional permanece coberto por vegetação nativa, parcela expressiva mantida dentro de imóveis rurais por meio de reservas legais e áreas de preservação permanente. Essa configuração territorial — embora heterogênea — mantém, em escala de paisagem, processos ecológicos compatíveis com as condições biofísicas descritas no relatório da FAO.

O mesmo levantamento mostra que 31,3% das terras brasileiras são utilizadas pela agropecuária: 10,8% por lavouras, 19,4% por pastagens e 1,1% por silvicultura. A trajetória recente de aumento de produtividade e incorporação tecnológica ocorreu em paralelo à manutenção de ampla cobertura vegetal em escala nacional e regional. Não se trata de negar a expansão histórica da fronteira agrícola, mas de observar que, na configuração territorial atual, a produção intensiva convive com percentuais expressivos de vegetação nativa.

A análise por biomas reforça essa leitura. No Cerrado, 52,2% da área permanece protegida; na Amazônia, 83,7% mantém cobertura nativa. Esses percentuais indicam a presença de cobertura vegetal capaz de sustentar processos ecológicos que operam em escala regional, influenciando o ambiente físico dentro do qual a agricultura se organiza.

O estado de Mato Grosso ilustra essa dinâmica. Consolidado como um dos maiores produtores de grãos do mundo, combina porções dos biomas Amazônia e Cerrado em um mosaico territorial onde produção intensiva e vegetação nativa coexistem. A competitividade estadual resulta de tecnologia, gestão e inovação — mas opera dentro de um ambiente biofísico moldado por essa configuração territorial.

Reconhecer o papel econômico dessas funções não significa tratar florestas como áreas intocáveis. Experiências de manejo sustentável demonstram que é possível conciliar uso econômico, geração de renda e manutenção de funções ecológicas essenciais.

O Brasil não é competitivo apesar de conservar. É competitivo, em grande medida, porque conserva. Ao manter vegetação nativa em escala territorial, reduz riscos sistêmicos, protege a base biofísica da produção e transforma estabilidade ecológica em vantagem econômica duradoura.

Cícero Ramos — engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).

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