Em Cheongdo, 96 touros da raça Hanwoo se enfrentam em disputas de força que duram poucos minutos, movimentam milhões em apostas e turismo e preservam uma tradição rural coreana com mais de mil anos — sem morte do animal e sem participação de toureiros.
Em um país conhecido por sua alta tecnologia, indústrias globais e metrópoles futuristas, uma tradição rural segue mobilizando multidões nas montanhas do interior. A cerca de duas horas de Seul, na cidade de Cheongdo, a tourada tem um formato completamente diferente do que o mundo costuma imaginar: não há toureiro, não há capa vermelha e não há morte do animal. Na Coreia do Sul, o espetáculo coloca touro contra touro em uma disputa de força e resistência.
O evento acontece anualmente durante o Festival de Touradas de Cheongdo, realizado entre os dias 18 e 22 de abril, reunindo criadores, turistas e moradores da região. Ao todo, 96 touros competem pelo título de mais forte, disputando um prêmio principal de 7 milhões de won (cerca de US$ 6.200).
Os protagonistas são os touros da raça Hanwoo, tradicional da Coreia do Sul, reconhecida por sua pelagem castanha-clara e também pela produção de uma das carnes bovinas mais valorizadas do país. Pesando entre 600 kg e mais de 800 kg, esses animais entram em uma arena de areia sob o sol quente para medir forças.
A disputa é simples e direta: os dois touros se encaram, baixam a cabeça e chocam chifres e testas, empurrando um ao outro até que um deles recue ou desista. Não há uso de armas, objetos cortantes ou intervenção humana direta. O confronto termina quando um dos animais perde a iniciativa e abandona o centro da arena.
Em uma das lutas mais comentadas do festival recente, o campeão do ano anterior, “Fighting”, enfrentou o desafiante “Ggoltong” — nome que pode ser traduzido como “Idiota”. Sob aplausos da plateia e ao som de buzinas e gritos da torcida, os dois touros se empurraram por cerca de três minutos, levantando poeira até que “Fighting” garantiu vaga na rodada seguinte.

Embora o festival no formato atual exista desde 1999, a prática na província de Gyeongsang do Norte remonta a cerca de mil anos de história. Antigamente, as disputas eram uma forma comum de entretenimento nas aldeias agrícolas.
Com a rápida industrialização da Coreia do Sul no século XX, muitas tradições rurais perderam espaço. As touradas quase desapareceram, mas foram revitalizadas como parte do patrimônio cultural local. Hoje, Cheongdo se posiciona como guardiã dessa prática, transformando o evento em um atrativo turístico e econômico.
Historicamente, possuir um touro forte era símbolo de prestígio. Para muitos agricultores, o animal representava o bem mais valioso da propriedade. Relatos de moradores mais antigos mostram o peso emocional envolvido. Alguns lembram que a derrota de um touro podia significar vergonha familiar, tamanha a importância do animal na comunidade.
Autoridades locais defendem que a versão coreana é distinta da tourada espanhola. Enquanto na Espanha o espetáculo tradicional envolve o confronto entre homem e touro — culminando na morte do animal —, em Cheongdo o embate ocorre exclusivamente entre os animais.
A organização do festival destaca que não há execução do touro ao final da luta, nem uso de instrumentos perfurantes. O objetivo é determinar qual animal demonstra maior força e resistência no empurrão direto.

Essa diferença é constantemente usada como argumento para caracterizar o evento como cultural e menos violento, embora o tema ainda gere debates entre defensores de direitos dos animais e apoiadores da tradição.
A rotina de um touro competidor se assemelha à de um atleta de alto rendimento. Criadores relatam treinos específicos, como o arrasto de pneus para fortalecimento muscular, além de alimentação reforçada com dietas energéticas.
Alguns proprietários acompanham de perto cada detalhe do manejo, demonstrando forte vínculo emocional com os animais. A dedicação inclui acompanhamento constante nos currais e monitoramento rigoroso da saúde e da condição física.
O investimento vai além do prêmio em dinheiro. A valorização de um touro campeão pode representar reconhecimento e prestígio dentro da comunidade, além de potencial valorização comercial.
O festival vai muito além da arena. O ambiente lembra um grande evento popular, com líderes de torcida, bateristas e músicos tradicionais tocando gongos e tambores. Barracas comercializam cerveja e cortes da carne Hanwoo, conhecida por seu alto marmoreio e qualidade premium.

Turistas estrangeiros também marcam presença. Para muitos visitantes, a experiência é surpreendente, principalmente por fugir da imagem clássica da tourada europeia.
O evento movimenta hotéis, restaurantes e o comércio local, sendo uma importante fonte de renda para Cheongdo e região.
A tourada sul-coreana evidencia o contraste entre tradição e modernidade em um país altamente desenvolvido. Ao mesmo tempo em que preserva uma prática milenar, também enfrenta discussões sobre bem-estar animal e ética.
Para os defensores, trata-se de uma manifestação cultural que valoriza a força natural dos animais, sem o sacrifício deliberado. Para críticos, qualquer confronto forçado entre animais levanta questionamentos.
Independentemente do debate, o fato é que, em Cheongdo, a tradição segue firme. Entre poeira, sons de tambores e o choque de chifres, a Coreia do Sul mantém viva uma das versões mais peculiares de tourada do mundo — onde o único confronto é entre touros e a força fala mais alto que a espada.
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