Setor sucroenergético paulista expande áreas de cultivo via arrendamento

Descubra como o setor sucroenergético paulista utiliza o arrendamento para concentrar o uso da terra e aumentar a eficiência produtiva em São Paulo

A dinâmica de ocupação do solo no interior de São Paulo passou por uma metamorfose silenciosa, mas profunda. A antiga dicotomia entre o grande latifundiário e o pequeno produtor familiar deu lugar a um modelo de gestão corporativa onde a posse da terra importa menos que a sua utilização. Hoje, o setor sucroenergético paulista consolida sua hegemonia não pela compra de novas propriedades, mas por meio de contratos de arrendamento de longo prazo.

Este fenômeno de concentração do uso da terra — e não necessariamente da propriedade formal — é o eixo central do estudo conduzido por José Giacomo Baccarin, professor da Unesp (FCAV/Jaboticabal), publicado recentemente no periódico internacional Land Use Policy. Segundo o pesquisador, o modelo de “alugar” em vez de “comprar” permitiu que as usinas expandissem seus canaviais de forma ágil, integrando diversas pequenas propriedades sob uma única administração técnica.

Concentração de uso no setor sucroenergético paulista

Os números revelam o peso dessa estratégia. Embora propriedades com mais de mil hectares ocupem apenas 21% da área total registrada no estado, os estabelecimentos agrícolas geridos por grandes grupos (unidades contíguas sob um único gestor) já respondem por 45% da área produtiva.

Essa disparidade mostra que o setor sucroenergético paulista funciona como um agregador de terras. “O estado é o líder global em derivados da cana, detendo 62% da produção nacional de açúcar e quase metade do etanol do país”, destaca o estudo. Essa escala é mantida por um cinturão verde que envolve as usinas, transformando o mapa fundiário paulista em um mosaico de proprietários diversos sob o comando operacional de poucas indústrias.

Logística e o “raio de eficiência”

Diferente de grãos que suportam longos trajetos, a cana-de-açúcar exige rapidez: do corte à moenda, o tempo é o maior inimigo da produtividade. Por isso, as usinas paulistas operam em um raio logístico de até 50 quilômetros.

Dentro desse perímetro, a disputa por terras é intensa. A expansão não ocorre pela abertura de novas fronteiras agrícolas, mas pela “canibalização” de áreas próximas às unidades industriais. Atualmente, cerca de 60% da cana processada em solo paulista é de produção própria das usinas (via arrendamento), enquanto 40% permanece nas mãos de fornecedores independentes.

O impacto da mecanização e o perfil urbano

O ponto de virada para essa concentração ocorreu em 2007, com o Protocolo Agroambiental. A obrigatoriedade do fim das queimadas e a transição para a colheita 100% mecanizada elevaram o sarrafo econômico. Uma colhedora moderna possui um custo fixo altíssimo, exigindo milhares de toneladas por safra para se pagar — escala que o pequeno produtor, sozinho, raramente alcança.

Além da pressão tecnológica, há um componente sociológico:

  • Herdeiros Urbanos: Filhos e netos de antigos produtores migraram para as cidades e exercem profissões liberais.
  • Renda Passiva: Para essas famílias, o arrendamento ao setor sucroenergético paulista tornou-se uma fonte de renda segura e sem os riscos diretos da atividade agrícola.

Desafios futuros para o setor sucroenergético paulista

Apesar da eficiência do modelo, o cenário não é isento de riscos. O avanço do etanol de milho (que já representa 25% da produção nacional) e a mudança nos hábitos de consumo de açúcar no exterior impõem novos limites ao crescimento.

A conclusão do estudo da Unesp aponta que, embora o arrendamento traga ganhos de escala, ele exige atenção redobrada das políticas públicas. O desafio para os próximos anos será equilibrar a força industrial do setor sucroenergético paulista com a necessidade de diversificação produtiva (hortifrúti) e a preservação ambiental em áreas onde o dono da terra já não vive mais no campo.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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