Analistas norte-americanos reconhecem avanço estrutural do Brasil na produção e exportação de soja, enquanto os Estados Unidos buscam reduzir dependência da China e ampliar o processamento interno em até 30%
O mercado global de soja vive um momento decisivo. De um lado, os Estados Unidos tentam estabilizar a relação comercial com a China após anos de tensões tarifárias. De outro, o Brasil consolida sua posição como principal fornecedor mundial da oleaginosa — um movimento que, segundo especialistas norte-americanos, já redefiniu o eixo do comércio agrícola internacional.
Durante o Top Producer Summit 2026, nos Estados Unidos, autoridades chinesas e analistas do setor detalharam os novos contornos do comércio bilateral e reconheceram, de forma explícita, a ascensão brasileira no mercado global.
Em 30 de outubro, os presidentes Donald Trump e Xi Jinping anunciaram uma trégua comercial que inclui a compra de 12 milhões de toneladas métricas (MMT) de soja norte-americana pela China no atual ano comercial. A confirmação veio de Jiang Lyu, ministro para assuntos econômicos e comerciais da Embaixada da China nos EUA.
Segundo ele, a relação precisa estar ancorada em “respeito mútuo, reciprocidade e benefício comum”, e a estabilidade no comércio agrícola é vista como estratégica para ambos os países.
No entanto, apesar do compromisso formal, persistem obstáculos. A China mantém uma tarifa recíproca de 13% sobre a soja norte-americana — percentual 10 pontos acima da tarifa aplicada ao produto brasileiro. Isso inviabiliza compras por esmagadoras privadas chinesas, concentrando as aquisições em estatais como Sinograin e Cofco.
A dúvida central no mercado é: quando essa tarifa será eliminada? A expectativa gira em torno de um possível avanço nas negociações em abril, quando os líderes devem voltar a se reunir.
Além das 12 MMT já confirmadas, há expectativa de compras adicionais de até 25 MMT anuais pelos próximos três anos. Ainda assim, analistas ponderam que esses volumes continuam abaixo da média histórica de importações chinesas da soja dos EUA.
Compras políticas e o fator Brasil
Em fevereiro, Trump anunciou que a China poderia adquirir mais 8 MMT da safra velha norte-americana. Economicamente, a decisão chama atenção: a soja brasileira está mais de US$ 1 por bushel mais barata que a norte-americana.
Para Susan Stroud, da consultoria No Bull Ag, essas compras têm caráter político e estratégico, voltadas à formação de estoques estatais — não necessariamente a critérios de competitividade.
E é justamente nesse ponto que o Brasil se destaca.
Brasil: de emergente a potência global
Os números impressionam. O Brasil produz atualmente mais de 6,5 bilhões de bushels de soja por ano. O crescimento médio de área é de 5% ao ano, impulsionado principalmente pela conversão acelerada de pastagens em áreas agrícolas.
Desde 2012, o Brasil superou os EUA em exportações de soja. Hoje, embarca mais que o dobro do programa norte-americano. Após a última guerra comercial, o país adicionou 30 milhões de acres à área plantada — uma extensão superior à soma das quatro maiores áreas produtoras de soja dos EUA em 2025.
Nos últimos 25 anos, metade da expansão global de área de soja ocorreu em território brasileiro.
Para os analistas norte-americanos, trata-se de uma transformação estrutural. Com crescimento consistente de produção, o Brasil naturalmente direciona o excedente ao mercado externo — e a China absorve, em média, 50% da demanda total brasileira por soja. Nos EUA, apenas um em cada quatro bushels produzidos tem a China como destino.
Potencial de expansão ainda é expressivo
Segundo Aaron Edwards, da Santos Springs LLC, o avanço brasileiro está longe de atingir o limite.
O país possui cerca de 70 milhões de acres de pastagens degradadas que podem ser convertidas em lavouras sem necessidade de desmatamento adicional. Para cada hectare agrícola consolidado, existem dois hectares de pastagem degradada passíveis de recuperação.
Do ponto de vista agronômico, com correção de solo (calcário, fósforo) e manejo adequado, essas áreas podem atingir produtividade comparável à dos estados do Meio-Oeste norte-americano.
Há ainda o fator irrigação. Estima-se que até 10 milhões de acres possam receber pivôs centrais na próxima década. Em clima tropical, isso significa até três safras por ano — o equivalente produtivo a 30 milhões de acres adicionais.
Além disso, o Brasil ainda possui menos de 15% de armazenagem on-farm, o que indica espaço para ganhos logísticos e melhor gestão de base (basis), que hoje oscila entre US$ 2 e US$ 3 por bushel.
O “paradoxo brasileiro”: expansão mesmo com dificuldades financeiras
Um ponto curioso destacado pelos especialistas é o chamado “paradoxo brasileiro”: como o país consegue expandir rapidamente mesmo diante de episódios de recuperação judicial e dificuldades financeiras?
A resposta está na valorização fundiária. O principal incentivo econômico não é apenas a margem operacional da soja, mas a valorização da terra ao converter pastagem em área agrícola. Esse ganho patrimonial sustenta ciclos de expansão, ainda que haja momentos de estresse financeiro.
EUA buscam novo caminho: foco na demanda interna
Diante desse cenário, os Estados Unidos discutem uma mudança estratégica.
A capacidade de esmagamento doméstico deve crescer cerca de 30% nos próximos anos, impulsionada pela demanda por óleo de soja destinado a combustíveis de baixo carbono. Apenas neste ano comercial, estão sendo adicionados 115 milhões de bushels à capacidade anual de processamento.
Embora esse volume ainda seja inferior ao tradicional 1 bilhão de bushels exportados à China em anos normais, especialistas avaliam que ampliar a demanda interna pode reduzir a dependência do mercado chinês e trazer maior previsibilidade ao setor.
Competitividade global: preço é determinante
A visão da Argentina reforça a lógica da competitividade baseada em custo. Lee Trimmer, da Green Shoots LLC, resume de forma direta: “No fim das contas, vence quem produz mais barato”.
Com o Brasil consolidado como maior exportador global, produtores argentinos e norte-americanos vêm revendo modelos de negócio, buscando eficiência, educação gerencial e gestão de risco.
O recado final dos especialistas aos produtores norte-americanos é claro: não é possível controlar guerras comerciais ou a expansão brasileira, mas é possível tornar cada propriedade mais resiliente.
Brasil no centro do novo mapa da soja
O debate realizado nos Estados Unidos deixa evidente um reconhecimento: o Brasil não é mais um competidor emergente — é o eixo central do comércio global de soja.
Com escala, potencial de expansão, melhorias logísticas e forte integração com a China, o país consolidou vantagens estruturais que vão além de ciclos políticos ou conjunturais.
Enquanto os EUA buscam alternativas para manter competitividade, o Brasil segue ampliando sua influência no mercado internacional — não apenas em volume, mas em protagonismo estratégico.
Material original do Farm Journal AG Web e escrito por Clinton Griffiths e Michelle Rook. Traduzido pela equipe do CompreRural.
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