Soja: “Não vamos precarizar o sistema sanitário brasileiro”, reage Fávaro contra a Cargill

Ministro da Agricultura critica postura da Cargill após interrupção temporária das exportações e afirma que o problema não é a qualidade da soja brasileira, mas o cumprimento de protocolos fitossanitários exigidos pelo mercado chinês

A suspensão temporária de embarques de soja brasileira para a China por parte da Cargill abriu um novo capítulo nas discussões sobre protocolos sanitários e relações comerciais no agronegócio. O episódio provocou forte reação do governo federal. O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, criticou duramente a postura da multinacional e afirmou que o Brasil não irá flexibilizar suas regras sanitárias para atender interesses empresariais, reforçando a importância da credibilidade do país no comércio internacional.

A decisão da empresa foi tomada após mudanças na inspeção fitossanitária adotada pelo Ministério da Agricultura (Mapa). Segundo executivos da companhia, a nova metodologia de fiscalização — intensificada a pedido do próprio governo chinês — tem dificultado o cumprimento das exigências para liberação de cargas destinadas ao país asiático.

No entanto, o ministro contestou essa interpretação e afirmou que a responsabilidade pela situação não pode ser atribuída ao governo brasileiro.

Governo rejeita críticas e defende rigor sanitário

Durante entrevista à CNN Agro, Fávaro afirmou que não houve mudança arbitrária de procedimentos por parte do Ministério da Agricultura, como sugerido pela empresa. Segundo ele, o endurecimento da fiscalização está relacionado a reclamações recorrentes feitas pela China sobre irregularidades em cargas brasileiras.

O ministro classificou como “irresponsável” a tentativa de atribuir ao governo a causa da suspensão das exportações.

De acordo com ele, o Brasil construiu sua reputação internacional justamente pela qualidade e pela confiabilidade de seu sistema sanitário, que garante segurança ao comércio global de commodities agrícolas.

Fávaro também destacou que existe um protocolo fitossanitário específico nas exportações de soja, especialmente relacionado à presença de sementes de ervas daninhas proibidas no país importador.

Segundo o ministro, o descumprimento dessas regras pode comprometer negociações comerciais e gerar atritos diplomáticos.

19 navios com irregularidades chamaram atenção

Apesar de afirmar que a qualidade da soja brasileira permanece elevada, o ministro revelou que foram identificados recentemente 19 navios com cargas contendo sementes de ervas daninhas, o que viola o protocolo sanitário estabelecido com a China.

Ele enfatizou que a presença dessas sementes não compromete o padrão comercial da soja, mas representa uma infração às regras fitossanitárias acordadas entre os países.

Segundo Fávaro, o caminho para resolver o impasse não é flexibilizar o controle sanitário, mas melhorar os processos de limpeza e classificação da soja antes do embarque.

Protocolo sanitário segue padrão internacional

O ministro fez questão de reforçar que não há questionamentos sobre a qualidade comercial da soja brasileira, que continua atendendo aos padrões internacionais utilizados no comércio global.

Ele explicou que o padrão comercial do grão segue critérios bem definidos, como:

  • Até 1% de impurezas
  • Até 8% de grãos avariados
  • Umidade próxima de 13% (variável conforme o país comprador)

Segundo o ministro, esses parâmetros estão sendo cumpridos normalmente, o que confirma a competitividade da soja brasileira no mercado internacional.

Suspensão da Cargill pode pressionar preços

A decisão da Cargill de interromper temporariamente embarques para a China trouxe reflexos imediatos no mercado interno. A trading também suspendeu momentaneamente a compra de soja no Brasil, o que reduziu a demanda em algumas regiões produtoras.

Entidades do setor, como a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), afirmaram acompanhar o caso com preocupação e defendem diálogo entre empresas e governos para garantir a fluidez do comércio internacional.

As associações alertam que a retirada de uma grande trading do mercado reduz a concorrência entre compradores, o que pode pressionar os preços pagos aos produtores, principalmente em um momento de forte avanço da colheita no Brasil.

Impacto no mercado tende a ser temporário

Especialistas avaliam que o problema deve ser resolvido em curto prazo. Para o consultor de agronegócio Carlos Cogo, situações desse tipo são comuns no comércio internacional de commodities agrícolas e normalmente são resolvidas por meio de ajustes técnicos e negociações entre autoridades sanitárias.

Segundo ele, quando grandes exportadoras reduzem ou suspendem temporariamente compras, ocorre uma diminuição imediata da demanda, o que pode gerar pressão nos preços internos da soja.

No entanto, a tendência é que o impasse seja resolvido rapidamente, à medida que exportadores, tradings e governos alinham procedimentos operacionais e sanitários.

China segue como principal destino da soja brasileira

O episódio ocorre em um momento estratégico para o Brasil. A China continua sendo o principal comprador da soja brasileira, respondendo por grande parte das exportações da oleaginosa.

Por isso, qualquer ajuste nos protocolos sanitários ou nas exigências de importação do país asiático tem impacto direto sobre o agronegócio brasileiro.

Diante do cenário, o governo federal reforça que manter a credibilidade sanitária do Brasil é essencial para preservar mercados internacionais, garantir previsibilidade nas exportações e sustentar a posição do país como um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo.

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