Pesquisa internacional revela que o uso de nitrogênio altera a “dieta” das plantas, afasta enxames naturalmente e pode reduzir bilhões em prejuízos na agricultura global.
O avanço de enxames de insetos capazes de destruir plantações inteiras em poucos dias segue como uma das maiores ameaças à produção agrícola mundial. Esses surtos, frequentemente associados a perdas severas e instabilidade econômica no campo, desafiam pesquisadores há décadas — principalmente porque os métodos tradicionais de controle, baseados em pesticidas, nem sempre conseguem impedir novas ondas de infestação.
Uma pesquisa publicada na revista Scientific Reports apresenta agora uma alternativa que pode mudar a lógica do combate às pragas: em vez de atacar diretamente os insetos, a estratégia consiste em tornar as lavouras menos atraentes para eles por meio do manejo nutricional do solo.
O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Gaston Berger, no Senegal, em parceria com a Universidade Estadual do Arizona (ASU), nos Estados Unidos. A iniciativa envolveu aproximadamente 100 agricultores nas regiões de Gossas e Gniby, áreas que convivem historicamente com a pressão de gafanhotos e insetos migratórios.
Para avaliar a eficácia da técnica, os pesquisadores organizaram parcelas pareadas de cultivo de milheto — cereal amplamente utilizado na alimentação humana e animal, especialmente em regiões semiáridas.
O modelo foi simples:
- Parte das lavouras recebeu fertilizante à base de nitrogênio
- Outra parte foi mantida sem intervenção, funcionando como controle
Os resultados foram considerados expressivos. As áreas tratadas registraram menor incidência de pragas, menos danos estruturais às plantas e produtividade superior — com colheitas que mais que dobraram em comparação às parcelas não tratadas.
O mecanismo por trás do sucesso está diretamente ligado à nutrição vegetal. Insetos como gafanhotos e grilos necessitam de alimentos ricos em carboidratos e pobres em proteína, combinação que favorece o acúmulo de energia essencial para deslocamentos de longa distância e reprodução.
A aplicação de nitrogênio provoca exatamente o efeito oposto:
- eleva o teor de proteína das plantas
- reduz a concentração de carboidratos
- altera o perfil nutricional da lavoura
Com isso, as plantações deixam de ser uma fonte alimentar ideal, levando os insetos a evitarem essas áreas.
Infestações desse tipo não representam apenas um problema agronômico — elas possuem forte impacto econômico. No oeste dos Estados Unidos, por exemplo, surtos de gafanhotos, grilos e espécies semelhantes geram prejuízos estimados em cerca de US$ 1,2 bilhão por ano, principalmente devido à destruição de pastagens utilizadas pela pecuária.
Além das perdas diretas, o fenômeno costuma provocar:
- aumento dos custos de produção
- maior dependência de defensivos químicos
- pressão sobre os ecossistemas
- redução da previsibilidade das safras
Diante desse cenário, estratégias preventivas que fortaleçam o solo surgem como alternativas capazes de proteger simultaneamente a produtividade e o meio ambiente.
A comunidade científica classifica os surtos de gafanhotos como um dos desafios mais complexos da agricultura moderna, devido ao seu alcance geográfico e à capacidade de comprometer rapidamente os meios de subsistência de populações rurais.
Estudos indicam que a formação de enxames está diretamente relacionada à forma como as paisagens são gerenciadas e às transformações climáticas em curso. Ou seja, longe de serem eventos aleatórios, essas ocorrências frequentemente refletem interações entre clima, uso da terra e práticas agrícolas.
Mudanças ambientais provocadas pela ação humana — como expansão agrícola desordenada, degradação do solo e oscilações climáticas — podem aumentar a probabilidade de explosões populacionais de insetos.
Outro ponto relevante da pesquisa é a possibilidade de reduzir a dependência de pesticidas. Ao priorizar o equilíbrio nutricional do solo, a estratégia pode diminuir impactos ambientais e preservar organismos benéficos, fortalecendo a resiliência dos sistemas produtivos.
Os cientistas avançam agora para uma nova etapa: avaliar se compostos mais acessíveis podem reproduzir os mesmos resultados. Caso isso se confirme, a técnica poderá ser adotada por agricultores com menor capacidade de investimento — ampliando seu alcance global.
Os resultados reforçam uma tendência crescente na agronomia: a prevenção, baseada na saúde do solo, pode ser mais eficiente do que o combate direto às pragas.
Se validada em diferentes culturas e regiões, a abordagem tem potencial para:
✅ reduzir custos operacionais
✅ elevar a produtividade
✅ tornar lavouras menos vulneráveis
✅ fortalecer a sustentabilidade agrícola
Mais do que uma solução pontual, a descoberta sinaliza uma mudança de paradigma. Em um cenário de demanda crescente por alimentos e maior pressão por práticas responsáveis, o futuro da proteção das lavouras pode começar sob os pés do produtor — no manejo inteligente do solo.
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