Suplementação de bovinos nas águas: vale a pena?

Mesmo com pasto melhor, prática pode ajudar o animal a ganhar mais peso; a partir de março, as chuvas diminuem e os dias ficam mais curtos, o que reduz o crescimento e a qualidade do capim

Na pecuária, o período das águas é conhecido por ser mais favorável para o crescimento das pastagens. E isso tem base científica. Pesquisas conduzidas por Henrique Medeiros (2005) e Felipe Tonato (2010) mostraram que, nesse período, há maior produção de capim. Já estudos de Valéria Pacheco Euclides (1996) indicam que o valor nutricional da forragem também tende a ser maior. Mas, mesmo com esse cenário positivo, ainda vale a pena suplementar os animais?

Segundo o zootecnista Victor Fonseca, coordenador técnico de bovinos de corte da MCassab Nutrição Animal, a resposta é sim. “O período das águas está associado à melhores condições para acúmulo de pasto, não só mais capim, mas também pastos com alto valor nutricional. Mas isso não quer dizer que a suplementação deixa de ser importante”, explica.

Victor destaca que, nos sistemas a pasto, o capim é a base da alimentação dos animais. Ainda assim, a suplementação continua sendo uma estratégia importante. “Quando observamos os dados dos estudos e o dia a dia das fazendas, fica evidente que a suplementação ajuda a acelerar o ganho de peso diário e a melhorar o resultado econômico de bovinos suplementados.”

Um levantamento feito por Luiz Carlos Sousa (2022) e sua equipe, analisou vários estudos referente a suplementação de bovinos em pastagens tropicais de média e alta qualidade. Segundo os autores, quanto maior o nível de proteína do capim, menor o ganho de peso diário adicional promovido pelo uso dos suplementos farelados proteicos. Sendo que, esse ganho se torna nulo quando a forragem alcança o teor de 15% de proteína bruta.

“Na prática, isso significa que, quanto melhor o pasto, menor pode ser o impacto da suplementação proteica no ganho de peso diário adicional de bovinos. Mesmo assim, a suplementação estratégica pode trazer resultados positivos, principalmente quando essa está ajustada à realidade da fazenda”, destaca o especialista da MCassab.

Outros estudos também reforçam esse ponto. Trabalhos conduzidos por Ricardo Sampaio (2010), Marcella Roth (2011) e Matheus Moretti (2014) demostraram que bovinos submetidos à suplementação de proteicos e proteico-energéticos durante a recria obtiveram aumento no ganho de peso diário na ordem de 27,48% e 60,55% em comparação aos animais suplementados com mineral de pronto uso.

Além do desempenho, o impacto econômico também deve ser considerado. Para este fim, foram realizadas simulações com bovinos Nelore machos em recria, entre 250 kg e 350 kg de peso vivo, levando em consideração os custos com base no Benchmarking Integra Safra 2024/2025, preços de mercado da Scot Consultoria (março de 2026; bezerro a R$ 14,32/kg e o boi magro a R$ 13,09/kg), na qual foram comparadas o resultado econômico de animais suplementados com proteico (0,1% do peso vivo) ou suplemento mineral.

“Os animais suplementados com proteico 0,1% em relação peso vivo geraram cerca de R$ 35,64 a mais de lucro por indivíduo quando comparado aos animais suplementados com mineral de pronto uso”, explica Victor. “Além disso, eles chegaram ao peso objetivo com 30 dias de antecedência, ou seja, são 30 dias a menos de custo fixo.”

Outro ponto importante é que, ao longo das águas, o cenário muda. A partir de março, as chuvas diminuem e os dias ficam mais curtos, o que reduz o crescimento e a qualidade do capim. “Com o pasto perdendo qualidade, o suplemento passa a ter mais importância. E a diferença de desempenho entre bovinos suplementados e não suplementados aumenta consideravelmente”, explica Victor Fonseca.

“Do ponto de vista técnico e econômico, a suplementação durante o período das águas pode ser considerada uma ferramenta estratégica. Quando bem planejada, ela contribui para o aumento do ganho de peso, reduz o tempo de recria e melhora o resultado econômico da fazenda”, afirma o zootecnista.

Para o especialista, o principal desafio hoje não é decidir se deve suplementar, mas quando. “O mais importante é ajustar a suplementação de acordo com a qualidade do pasto, a fase de produção dos animais e o objetivo da fazenda. Esse cuidado faz toda a diferença no resultado final.”

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