Tarifaço de 50% imposta pelos Estados Unidos derrubou exportações de café solúvel no principal mercado do produto brasileiro, mas setor compensou parcialmente com alta de preços, receita recorde e avanço do consumo interno
Depois de anos de crescimento consistente e investimentos pesados em modernização industrial, o setor brasileiro de café solúvel enfrentou, em 2025, um choque externo que interrompeu a trajetória de recordes nas exportações. A imposição de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos, principal destino do produto nacional, provocou uma retração significativa nos embarques e levou o Brasil a encerrar o ano com queda de 10,6% no volume exportado, segundo dados oficiais do Relatório do Café Solúvel do Brasil 2025, elaborado pela Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (ABICS) .
Ao todo, o país exportou 85,082 mil toneladas, o equivalente a 3,688 milhões de sacas de 60 quilos, volume inferior às 95,221 mil toneladas (4,127 milhões de sacas) registradas no ano anterior. A reversão do desempenho ocorre em um momento sensível para a indústria, que vinha ampliando capacidade produtiva e ganhando espaço em mercados estratégicos.
Impacto direto do tarifaço dos EUA
O efeito mais contundente do tarifaço foi sentido justamente nos Estados Unidos, que, apesar de manterem a liderança como principal importador do café solúvel brasileiro, reduziram fortemente as compras ao longo do ano. Os embarques para o mercado norte-americano recuaram 28,2% em 2025, totalizando 558,7 mil sacas, pressionados sobretudo pelo período entre agosto e dezembro — fase de vigência da tarifa majorada — quando a queda chegou a 40% na comparação anual .
De acordo com a ABICS, a tarifa elevou o custo do produto brasileiro a patamares considerados proibitivos, levando importadores dos EUA a buscar fornecedores concorrentes que operam com alíquotas menores. O resultado foi a perda de competitividade e de participação de mercado em um destino historicamente vital para o setor.

Exportações de café solúvel: Receita recorde apesar da queda no volume
Paradoxalmente, mesmo com a retração nos embarques, o setor alcançou um recorde histórico de receita cambial, evidenciando uma mudança importante na dinâmica do mercado. Em 2025, as exportações de café solúvel renderam US$ 1,099 bilhão, valor 14,4% superior ao registrado em 2024 .
Esse avanço foi sustentado pela forte valorização da matéria-prima, tanto dos cafés arábica quanto dos canéforas (conilon e robusta), que elevou os preços do solúvel no mercado internacional. O movimento reforça a capacidade do setor de gerar valor mesmo em um cenário adverso de volume.
Diversificação de destinos ganha relevância
Com a retração dos EUA, outros mercados ganharam protagonismo. Argentina e Rússia fecharam o top 3 dos principais destinos, com importações de 291,9 mil sacas (+40,2%) e 278 mil sacas (+9,8%), respectivamente. Também chamaram atenção países como Colômbia, que ampliou suas compras em 178,2%, além de Indonésia, México, Vietnã e Polônia .
Apesar do desempenho positivo em alguns mercados, a ABICS alerta que redirecionar grandes volumes no curto prazo não é simples. A ausência de acordos comerciais amplos e tarifas elevadas impostas por diferentes países e blocos econômicos continuam limitando a competitividade do café solúvel brasileiro no cenário global.

Mercado interno sustenta crescimento
Enquanto o comércio exterior enfrenta turbulências, o mercado interno brasileiro segue em expansão. Em 2025, o consumo doméstico de café solúvel atingiu um novo recorde, com 27,008 mil toneladas, equivalentes a 1,170 milhão de sacas, crescimento de 9,5% em relação a 2024 .
O avanço reflete mudanças no perfil do consumidor, maior conveniência do produto e estratégias bem-sucedidas das indústrias no varejo nacional. Outro fator relevante foi a menor inflação do café solúvel, acumulando alta de 34%, bem abaixo dos 75% observados no café torrado e moído, o que contribuiu para manter a competitividade do produto no mercado interno.
Alerta adicional: reforma tributária
Além das barreiras comerciais, o setor enxerga um novo risco no horizonte. A Reforma Tributária, que entra em vigor a partir de 2027, extinguirá PIS/Pasep e Cofins sobre a receita bruta, eliminando o crédito presumido de 7,4% utilizado atualmente nas exportações de café solúvel. Durante o período de transição até 2032, a ausência de uma medida compensatória pode elevar significativamente os custos do setor.
Segundo estimativas da ABICS, a perda pode chegar a R$ 430 milhões, o equivalente a 7,4% do valor exportado em 2025, o que adicionaria cerca de US$ 19,89 por saca exportada, comprometendo ainda mais a competitividade do produto brasileiro no exterior .
Perspectivas para 2026
O desempenho de 2025 expôs uma dicotomia clara no setor: de um lado, um mercado interno aquecido e resiliente; de outro, um ambiente externo cada vez mais desafiador, marcado por protecionismo, concentração de mercados e entraves tributários. Para 2026, a indústria de café solúvel aposta na diversificação de destinos, no avanço de negociações comerciais — com destaque para a União Europeia — e em uma agenda ativa junto ao governo brasileiro para mitigar perdas fiscais e comerciais.
Mesmo diante das dificuldades, o setor demonstra fôlego. Nos últimos seis anos, foram investidos cerca de R$ 2,5 bilhões em novas plantas, ampliações e sustentabilidade, reforçando a capacidade de adaptação da indústria. O desafio agora é transformar esse investimento em competitividade duradoura em um cenário global cada vez mais instável .
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