UFPR busca investimento de US$ 2 milhões para escalar produção de colágeno de jumento em biorreatores e evitar que a demanda por ejiao continue acelerando o abate e o risco de extinção dos jumentos no Brasil
O colágeno de jumento, ingrediente tradicional usado na medicina chinesa e cada vez mais presente na indústria de beleza, está no centro de um mercado que movimenta cifras milionárias — e que coloca pressão direta sobre populações de animais em diferentes países. No Brasil, onde o número de jumentos caiu de forma drástica nas últimas décadas, uma pesquisa inédita da Universidade Federal do Paraná (UFPR) surge como alternativa capaz de mudar esse cenário.
O projeto, conduzido pelo Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR, aposta em uma tecnologia chamada fermentação de precisão, que permite produzir colágeno de jumento em laboratório sem abate, utilizando micro-organismos como “biofábricas”. Agora, para que o processo avance para uma escala mais próxima da indústria, os pesquisadores buscam US$ 2 milhões em investimento.
A expectativa é que, até o final de 2026, a universidade consiga apresentar o processo produtivo em larga escala, testado em biorreatores, abrindo caminho para uma produção sustentável e com potencial de atender ao mercado internacional.
Por que o colágeno de jumento virou alvo de um mercado bilionário
Na China, o colágeno de jumento é a base do ejiao, uma gelatina extraída tradicionalmente da pele do animal e utilizada na medicina tradicional chinesa. Com o avanço do consumo e a ampliação de aplicações na indústria de bem-estar e cosméticos, a cadeia global passou a registrar aumento de demanda.
As estimativas citadas no projeto apontam que somente o mercado de ejiao é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com projeção de chegar a US$ 3,8 bilhões até 2032. Já o segmento ligado ao consumo e à beleza movimenta, segundo os dados apresentados, cerca de US$ 700 milhões por ano.
Esse crescimento acelerado, porém, traz um efeito colateral: em muitos países, o abastecimento depende diretamente do abate, o que alimenta críticas sobre sustentabilidade, rastreabilidade e impacto ambiental.
UFPR aposta em fermentação de precisão para produzir colágeno sem matar animais
A solução em desenvolvimento no Paraná utiliza um processo semelhante ao que já existe em outras áreas da biotecnologia: micro-organismos são modificados geneticamente para produzir proteínas específicas, sem necessidade do animal vivo.
No caso do colágeno de jumento, o passo a passo envolve:
- identificação do DNA do jumento ligado à produção do colágeno
- inserção dessa sequência em uma levedura
- transformação da levedura em uma “biofábrica”
- produção do colágeno em ambiente controlado
- purificação do produto final para uso industrial
A coordenadora do Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR, Carla Molento, explica que a fase atual é decisiva para transformar ciência em produto.
“Avançamos nas etapas mais complexas no estudo científico pautado na inovação. Agora, estamos prontos para inserir o DNA do colágeno em uma levedura, que funcionará como uma biofábrica, processo semelhante à produção de cerveja”, afirma a pesquisadora, PhD pela Universidade McGill (Canadá).
Pesquisa entra na reta final e mira escala industrial até dezembro de 2026
Até o final de 2025, a pesquisa já havia completado as etapas iniciais no laboratório. Agora, o desafio é escalar: sair do ambiente controlado de bancada e avançar para condições compatíveis com a indústria.
O investimento buscado deve viabilizar testes em:
- biorreatores de 10 litros
- biorreatores de 50 litros
- infraestrutura robusta para escalonamento e validação do processo
A meta é apresentar até dezembro de 2026 a produção de miligramas de colágeno obtido integralmente por fermentação de precisão, provando que a tecnologia é viável para produção em larga escala.
Apesar de o volume inicial ainda ser pequeno, os pesquisadores classificam os resultados como promissores. As três primeiras etapas já foram concluídas com sucesso: sequenciamento do DNA, amplificação e preparação do material genético.
Comparação do DNA do jumento brasileiro pode ser chave para a fase comercial
Além da produção em si, o projeto prevê comparar o material genético do jumento brasileiro com sequências internacionais, um detalhe técnico que pode ser decisivo para o futuro do produto.
“Queremos comparar o DNA do jumento brasileiro com sequências internacionais para garantir uma descrição precisa do produto. Isso é fundamental pensando na aplicação comercial em grande escala”, explica Molento.
A padronização é considerada essencial para garantir rastreabilidade e facilitar negociações no mercado internacional.
Por que os pesquisadores precisam de US$ 2 milhões agora
A equipe afirma que, sem recursos para o escalonamento, o projeto corre o risco de ficar limitado à prova de conceito dentro da universidade, sem validação em condições próximas às exigidas pela indústria.
“Hoje trabalhamos com pequenas quantidades, em um ambiente de laboratório da universidade. Para aplicação industrial, precisamos de financiamento a fim de instalar biorreatores maiores e testar a produção em escala piloto”, reforça Molento.
Segundo ela, o aporte pode vir tanto de fontes públicas quanto privadas, incluindo empresas interessadas no ingrediente, fundos de investimento ligados à bioeconomia e organizações nacionais ou internacionais.
Produção em biorreatores pode ser mais eficiente do que fazendas de jumentos
Um dos argumentos centrais do projeto é produtividade. A equipe aponta que produzir colágeno em laboratório pode ser mais eficiente do que o modelo tradicional, que depende de criação e abate.
“Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão, com alguns biorreatores, é possível produzir uma quantidade muito maior de proteína, com menos insumos e sem o abate”, afirma a pesquisadora.
Além disso, a tecnologia poderia futuramente ser aplicada para o desenvolvimento de outros ingredientes de origem animal, ampliando o impacto industrial.
Colágeno produzido em laboratório pode ser altamente purificado e vendido para empresas
Outro diferencial é que o colágeno obtido por fermentação de precisão tende a ser altamente purificado, o que facilita sua comercialização no modelo B2B (empresa para empresa), com o laboratório fornecendo o insumo para companhias que fabricam produtos finais.
“A estratégia é vender o colágeno purificado para empresas que já produzem os produtos finais, seja na China ou em outros mercados”, afirma Molento.
A queda de 94% na população de jumentos no Brasil acende alerta de extinção
A pesquisa também destaca o risco de desaparecimento do jumento em território nacional. Dados de FAO, IBGE e Agrostat apontam que a população brasileira despencou 94% entre 1996 e 2024.
A coordenadora de uma organização no Brasil, Patricia Tatemoto, PhD em Ciências com ênfase em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP, resume a gravidade do cenário:
“De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirma.
Hoje, segundo estimativas citadas no projeto, o Brasil tem cerca de 78 mil jumentos, enquanto países como a Etiópia concentram a maior população do mundo, com mais de 10 milhões de animais.
Modelo de abate é criticado por ser extrativista e concentrar benefícios
Outra crítica apontada nos dados reunidos é que o abate ocorre de forma extrativista, com baixo retorno econômico local e concentração de ganhos.
O levantamento aponta que a atividade beneficia principalmente dois abatedouros em funcionamento no interior da Bahia, sem geração significativa de desenvolvimento regional, e contraria estudos técnicos e científicos produzidos no Brasil.
A iniciativa é financiada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), por meio do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e pela Fundação Araucária, SETI e Governo do Estado do Paraná.
O projeto também tem parceria estratégica com a Universidade de Wageningen, na Holanda, referência mundial em biotecnologia aplicada à produção de proteínas alternativas.
Um novo caminho para o Brasil: exportar tecnologia e salvar e evitar a extinção dos jumentos
Se confirmada em escala industrial, a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão pode atender a demanda internacional sem depender do abate, além de abrir uma janela de inovação para o Brasil em um mercado bilionário.
Mais do que criar um ingrediente para exportação, a pesquisa pode transformar o país em parte da solução: reduzir a pressão sobre os jumentos, evitar extinção e criar uma nova cadeia de valor baseada em ciência, sustentabilidade e biotecnologia.
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