Vai faltar? Guerra, China e dependência externa colocam fertilizantes em alerta no Brasil

Relatório da Scot revela cenário de alta volatilidade global, com pressão nos preços e risco direto ao produtor rural brasileiro; Guerra, China e dependência externa colocam fertilizantes em alerta no Brasil

O mercado de fertilizantes entrou em um momento crítico em março de 2026, e o alerta não vem de qualquer fonte. Segundo análise da própria Scot Consultoria, o cenário atual reúne fatores suficientes para acender um sinal amarelo no agronegócio brasileiro: conflitos geopolíticos, restrições comerciais e forte dependência externa estão pressionando custos e aumentando os riscos para o produtor.

Logo na abertura do relatório, o analista Fábio Takaku destaca o ponto central da preocupação:
“A escalada do conflito no Irã elevou o preço da ureia, enquanto na China avança uma política protecionista — situação que acende um sinal amarelo para os produtores brasileiros.”

Dependência externa coloca Brasil no centro da pressão

O Brasil chega a esse cenário com um fator agravante: sua alta dependência do mercado internacional.
Mais de 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados, o que torna o setor extremamente sensível a qualquer instabilidade global.

Em 2025, foram importadas cerca de 45,5 milhões de toneladas, número que evidencia o tamanho da exposição brasileira às oscilações externas. Para a Scot Consultoria, esse ponto é estrutural e preocupa: “A combinação de choques geopolíticos e a postura mais restritiva da China nas exportações expõe, mais uma vez, a fragilidade da dependência externa brasileira.”

Conflito no Oriente Médio eleva custos globais

A guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos impacta diretamente a cadeia de fertilizantes. O Irã é um importante fornecedor de amônia e ureia — insumos essenciais para a produção agrícola.

Com a escalada do conflito, houve aumento nos preços internacionais de energia, o que encarece diretamente os fertilizantes nitrogenados.

Além disso, a situação logística agrava o cenário. O fechamento do Estreito de Ormuz compromete o fluxo global de insumos, incluindo o enxofre, essencial para fertilizantes fosfatados. Estima-se que cerca de 44% do fluxo mundial passe por essa rota estratégica.

China restringe exportações e amplia tensão no mercado

Outro ponto-chave destacado pela Scot é a mudança de postura da China. Em 2025, o país asiático se consolidou como o principal fornecedor de fertilizantes ao Brasil, superando a Rússia — movimento impulsionado pela necessidade de diversificação diante da guerra no Leste Europeu.

No entanto, o cenário mudou. O governo chinês decidiu manter restrições às exportações de fertilizantes, principalmente fosfatados, até agosto de 2026, priorizando o abastecimento interno diante da instabilidade global.

Segundo a Scot, a consequência é direta: “Com a imposição de restrições à exportação pela China, a expectativa é de aumento de preços.”

Figura1. Os cinco maiores fornecedores de fertilizantes, exceto bruto, ao Brasil, em 2025.

fertilizantes
Fonte: Secex | Elaboração: Scot Consultoria
Outros: Nigéria, Israel, Omã, Arábia Saudita, Estados Unidos, Catar, Alemanha, Argélia, Noruega, Países Baixos, Venezuela, Turcomenistão, Bolívia, Espanha, Índia, Jordânia, Irã, Cazaquistão, Uzbequistão, Finlândia, Bahrein, Trinidad e Tobago, Líbano, Reino Unido, Lituânia, Laos, Chile, Polônia, Bélgica, Tunísia, Emirados Árabes Unidos, México, Suécia, Belarus, Colômbia, Itália, Hong Kong, Bulgária, Taiwan, França, Argentina, Turquia, República Tcheca, Portugal, Irlanda, Austrália, Eslovênia, Eslováquia, Paraguai, Coreia do Sul, Uruguai, Guatemala, África do Sul, Singapura, Costa Rica, Brasil, Peru, Hungria, Grécia, Japão, Ucrânia, Suíça, Áustria, Azerbaijão, Camarões, Kuwait, Estônia, Geórgia, Guiana, Indonésia, Letônia, Líbia, Malásia, Malta, Panamá, Polinésia Francesa, República Dominicana, Senegal, Sérvia, Tailândia, Vietnã

Importações de fertilizantes crescem, mas não aliviam pressão

Mesmo com as restrições, o Brasil segue ampliando suas compras externas. Em fevereiro de 2026, por exemplo, houve aumento de 3,5% na importação de fertilizantes chineses na comparação mensal, conforme dados analisados pela Scot.

Se esse ritmo for mantido, a projeção indica um volume adicional de 6,1 milhões de toneladas importadas até agosto, o que mostra que a demanda segue firme — mesmo diante de preços mais elevados.

O diagnóstico da Scot Consultoria é claro: o mercado vive um momento de forte tensão entre oferta limitada e demanda resiliente. Essa combinação tende a impactar diretamente o produtor rural.

Nas palavras da consultoria: “Vemos um mercado tensionado por oferta limitada e demanda resiliente. Para o produtor, isso se traduz em margens mais pressionadas e maior necessidade de planejamento estratégico de compras.”

Planejamento será decisivo nas próximas safras

Diante desse cenário, o produtor brasileiro terá que redobrar a atenção.

A recomendação é clara:

  • antecipar compras
  • avaliar melhor os momentos de entrada no mercado
  • buscar eficiência no uso de insumos

Isso porque, segundo a Scot, o curto prazo ainda será marcado por incertezas, sem previsão de normalização imediata no mercado internacional.

O relatório deixa uma mensagem clara para o agro brasileiro: o risco não está apenas na produção, mas na dependência dos insumos.

Em um momento em que o país bate recordes de produção, a sustentabilidade econômica da atividade passa, cada vez mais, pela gestão estratégica de custos — e os fertilizantes estão no centro dessa equação.

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