Com vários produtores saindo da atividade e redução do rebanho em vários estados do país, pesquisa alerta para escassez do leite no mercado, porém apontam as possíveis soluções para o problema.
O cenário da produção de leite vem se alterando desde 2021, com vários produtores saindo da atividade – pequenos e médios, principalmente – e redução do rebanho em vários estados do país. O ano de 2022 se destacou por altos preços que se intensificaram com a entrada da entressafra, o que comprometeu o consumo do produto pela população, devido a questões econômicas do país que se configuraram por um cenário de desemprego e queda de salários dos trabalhadores, apontou a pesquisa.
Essas alarmantes observações provêm da análise de Rosana de Oliveira Pithan e Silva, pesquisadora atuante no Instituto de Economia Agrícola (IEA), ligado à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
O abandono da atividade e a concentração da produção, que até então ocorria basicamente na agricultura familiar, é um fator que vem crescendo. Essa é uma tendência mundial, que funciona como “uma estratégia que busca maior eficiência, com necessidade de escala para reduzir custos e ter rentabilidade maior”, apontou a pesquisadora.
Os dados da Embrapa sinalizam que a concentração da atividade ocorre na propriedade com maior escala e redução de rebanho. Nesse cenário, o que vem acontecendo hoje, é que 2% dos estabelecimentos produzem 30% do leite do país, sendo que essa transformação vem ocorrendo em média em 1% da produção das fazendas em operação.
Esse ponto, destaca a pesquisa da IEA, é fundamental para se ter uma perspectiva do que pode ocorrer no mercado, daqui para frente. “A concentração cria características no mercado que podem trazer instabilidade nos preços para o consumidor, pois sempre há a possibilidade de se criarem cartéis que passem a controlar o mercado, com redução da concorrência e a prática de preços mais elevados. Importante frisar que esse modelo concentrador já ocorreu em vários setores da agricultura, e que trouxe novas características ao mercado de cada produto alimentício, com consequente condução do mercado e diminuição da concorrência, atuando conforme interesse das empresas e muitas vezes com restrição da oferta de produtos e preços mais altos”, aponta.
Os principais fatores que influenciaram diretamente os preços praticados foram:
- redução da produção nacional com a baixa oferta de leite cru;
- alta dos preços dos principais itens da alimentação do gado (milho e soja);
- crescente abandono da atividade (desde 2021) com consequente queda da captação de leite pela indústria, ano após ano;
- o fenômeno La Niña, que por três anos provocou seca intensa no Sul do país (importante região produtora do produto), afetando o pasto e ainda o solo para a produção de milho;
- a mudança crescente de parte do sistema produtivo do gado para confinamento, que exige maior volume de insumos alimentares;
- chuvas fortes na região Sudeste, que deixaram pastos extremamente úmidos;
- a inflação; o aumento dos preços dos combustíveis; e ascensão da cotação do dólar.
- Todos esses itens comprometem diretamente o custo de produção. Além disso, houve o conflito entre Ucrânia e Rússia, que também trouxe distúrbios no mercado internacional.
Esse conjunto de fatores e atual cenário da produção de leite no Brasil, mostra a necessidade de políticas públicas, principalmente, para os médios e pequenos produtores, focando naqueles da agricultura familiar. “Por ser uma atividade que garante o recebimento mensal pelo produto, muitos produtores, como os assentados, optaram por produzir leite para ter uma renda mensal garantida. A redução de sua participação na produção poderá, a curto e a médio prazo, tirá-los do mercado. Essa ocorrência traria grande problema social, que deve ser pensado antes que ocorra de fato”, destaca a pesquisadora.

Além disso, outro ponto importante é quanto à questão climática. “A entrada do El Niño pode ser fator preocupante para algumas regiões, como a Sul onde, mesmo com um alívio depois de longo período muito seco, pode ocorrer um volume abundante de chuvas que deixariam os pastos excessivamente úmidos ou alagados, inviabilizando a pastagem”.
Aumento dos preços e queda na produção de leite
Quanto à produção de leite formal, houve em 2022 redução de 5% em relação ao ano anterior, com quase 1 bilhão de litros a menos, o que levou à necessidade do aumento nas importações, que subiram 26,3%2. Isso representa 10% do total consumido internamente, o que é muito preocupante, já que anteriormente o patamar variava entre 3% a 5%, segundo a Embrapa.
Com cotações acima do poder de compra do brasileiro, que está há tempos com salários corroídos, a redução da produção e os preços mais competitivos da Argentina e Uruguai, a opção foi importar desses países para conseguir atender o consumidor interno, que tem tido dificuldade de comprar esse produto básico. Tal fato ocorre com frequência, sempre que o mercado interno fica desfavorável para garantir o abastecimento interno a preços competitivos.
Brasil não está isolado nessa queda
Segundo a pesquisa, a queda na produção de leite não é um fator isolado ao Brasil, mas vem ocorrendo em países como a Nova Zelândia (maior exportador de leite do mundo), que está com sua produção estagnada a alguns anos. Acontece o mesmo na União Europeia, e países da América Latina também têm tido crescimento pífio nos últimos anos. Apenas nos Estados Unidos tem havido aumento.
Além disso, a países europeus que estão pagando para que os pecuaristas abatam as vacas de seus rebanhos com o intuito de conseguir alcançar a suas metas climáticas. Eles acreditam que a essa redução será a única solução para reduzir a emissão de carbono. Casos como Irlanda, querem abater até 200.000 vacas nos próximos anos.
Outros pontos que levaram a redução do rebanho
Há outros pontos a se considerar. As questões ambientais apontam o aumento das restrições ao aumento do plantel, dificultando a expansão de áreas para pasto. Também ocorre incentivo à redução de consumo de produtos da pecuária bovina, substituindo-os por bebidas de produtos vegetais.
Diante desse cenário, a pesquisadora ressaltara a importância da busca por sistemas mais eficientes. “aponta-se a necessidade de investir em sistemas mais eficientes, como integração lavoura-pecuária (ILP) ou integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que viabilizam uma pecuária mais sustentável. Existe ainda a utilização do confinamento, que tem se mostrado tendência crescente na pecuária de leite. Esse modelo leva à necessidade de maior investimento na alimentação animal, com preferência a alimentos alternativos, já que milho e soja exigiriam aumento de seu cultivo e expansão de suas produções”, diz ela.
Esses novos modelos têm crescido e, para efetivá-los, é preciso investimentos na área produtiva ou, no caso do confinamento, em tecnologia para sua implantação. Aliás, para alcançar maior produtividade e eficiência, são vários os pontos que têm sido colocados como necessários ou como oportunidades.
Para especialistas consultados pelo site Milkpoint, com a implantação de tecnologias digitais, devem ser preocupações importantes:
- o bem-estar animal;
- a adoção de manejos nutricionais para melhoria na saúde na criação de bezerra;
- mudanças no alojamento de bezerros;
- nutrição com alterações na estimativa de consumo a partir dos dados do animal e dieta com vistas a uma nutrição de precisão que pode atuar nutricionalmente sobre o impacto ambiental e como fator de aumento da produção e da melhora na reprodução e inclusão de aditivos alimentares para melhoramento dos sólidos;
- genética com o uso de testes genômicos e atenção à genética voltada para saúde, fertilidade e eficiência;
- inteligência artificial para resolver problemas na indústria de leite;
- gestão do custo de produção, de dados, de pessoas e das fazendas, entre outros.

Brasil precisa evoluir
“Para alcançar esses objetivos, há necessidade de investimentos e nem sempre o pequeno produtor tem conhecimento desses tópicos por falta de assistência técnica pública e acesso a financiamentos. Ou seja, há necessidade de políticas públicas efetivas para atender esses produtores, orientando-os e propondo técnicas e tecnologias acessíveis que o ajudem, aumentando a qualidade e a produtividade do leite, sem a necessidade de altos investimentos, garantindo sua sobrevivência”.
Já quando olhamos para a questão climática, a necessidade de considerá-la na agropecuária não pode mais ser adiada. Nos próximos anos, por exemplo, devido à recente entrada do El Niño, a expectativa é que haja muita influência na economia mundial. Na agricultura, o impacto deve ocorrer na oferta de produtos.
“As pesquisas para emissão de gases de efeito estufa (GEE) na pecuária apontam soluções que vão desde o confinamento, passando pela recuperação e bom manejo de pastagens, com a adoção do sistema ILPF, fornecimento de alimentos de qualidade para as vacas e melhoramento genético do rebanho”.
“A expectativa e a consolidação da melhora da economia brasileira, com aumento do PIB e redução da inflação e dos preços da cesta básica, deverão atuar positivamente sobre o mercado, com a retomada do consumo de produtos básicos como o leite, diminuição dos custos de produção, com a probabilidade de boa safra de grãos, retomada dos estoques reguladores e queda das cotações do dólar, que influenciam preços de vários insumos. Espera-se que a região do Sul do Brasil retome sua produção, influenciando positivamente a disponibilidade do leite e interrompendo o ciclo de importações de lácteos dos vizinhos do Mercosul“, finaliza a pesquisadora no Artigo.
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