“Vendi 13 mil cabeças de gado e fazendas para salvar a empresa do meu pai”, revela Shiro Nishimura

Shiro Nishimura revela no AGRO360 Podcast como precisou vender fazendas, gado e patrimônio às pressas para evitar a quebra da Jacto em uma das maiores crises econômicas da história do Brasil

O que era para ser apenas mais um dia de trabalho na fazenda virou o início de um dos períodos mais traumáticos da vida do pecuarista Shiro Nishimura. Nascido no Brasil, filho de imigrantes japoneses, Shiro é uma figura emblemática no agronegócio brasileiro. Reconhecido por seu trabalho na seleção de gado Nelore e pela consolidação da Fazenda Araponga.

Em um relato forte e emocionante no episódio #186 do AGRO360 Podcast, apresentado por Rafael Vilella, ele contou como precisou vender mais de 13 mil cabeças de gado, fazendas e praticamente todo o patrimônio rural para salvar a Jacto, fundada por seu pai.

O relato revive um dos capítulos mais sombrios da economia brasileira: o confisco das poupanças durante o governo do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Em 2026, completam-se 36 anos da implementação do chamado Plano Collor, medida que congelou bilhões de cruzados novos das contas bancárias dos brasileiros e atingiu em cheio famílias, produtores rurais e empresas de todos os setores.

Na época, a inflação disparava de forma descontrolada no Brasil. Como tentativa desesperada de conter o avanço dos preços, o governo bloqueou a maior parte do dinheiro depositado em contas correntes e cadernetas de poupança. O impacto foi imediato: empresas ficaram sem capital de giro, salários deixaram de ser pagos e milhares de negócios entraram em colapso.

Foi nesse cenário que Shiro Nishimura viu a estrutura construída pela família entrar em risco. “Cheguei na fazenda e o contador olhou para mim e falou: ‘Você tem 50 dólares na conta’. Eu falei: ‘Como assim?’ Eu sempre deixava dinheiro para dois meses de despesa da fazenda. Era o dinheiro para pagar empregado, vacina, manutenção… e esse dinheiro tinha sumido.”

O pecuarista relembra que, naquele período, o sistema da pecuária funcionava em ciclos longos. O boi era abatido e o pagamento demorava até 30 dias para cair. Por isso, manter reserva financeira era essencial para sobreviver.

Mas, da noite para o dia, tudo desapareceu.

“Todo mundo achava que eu era caloteiro”

Sem dinheiro em caixa e pressionado pelas contas, Shiro precisou correr atrás de soluções imediatas para manter a atividade funcionando. “Fui no frigorífico e falei: ‘No dia que você matar boi, os primeiros 230 bois são meus’. Eu precisava pagar conta. O povo estava achando que eu era safado, sem vergonha, porque eu não tinha dinheiro para pagar ninguém.”

Segundo ele, nem negociação existia mais naquele momento. O mercado estava travado. “O preço era o que eles pudessem pagar. Ninguém tinha dinheiro. Todo mundo estava quebrado.”

Ao retornar para Pompeia, cidade-sede da Jacto, a situação se mostrou ainda mais grave.

A empresa tinha cerca de 1.300 funcionários e praticamente nenhum recurso disponível. “Meu pai tinha 1.300 empregados na Jacto. Igual eu: 50 dólares na conta. O dinheiro tinha sido congelado. Aí eu falei para ele: ‘Vai quebrar. Você vai quebrar’.”

A decisão mais dura: vender tudo para salvar empregos

Foi então que Shiro tomou a decisão que mudaria completamente sua trajetória.

As fazendas pertenciam à empresa, embora fossem administradas por ele. Seu projeto pessoal era continuar na pecuária, enquanto a indústria seguiria com outros membros da família. Mas a crise desmontou todos os planos. “Eu queria ser pecuarista. Estava montando minha vida para isso. Mas Deus faz as coisas diferentes.”

A saída encontrada foi vender patrimônio rapidamente — mesmo em um mercado sem compradores e em meio ao caos econômico. “Eu tinha um pouco de boi, vendi boi. Vendi boi magro, vendi vaca, vendi fazenda. Só que vender numa época em que ninguém tem dinheiro é uma desgraça.”

Segundo ele, as negociações aconteciam de qualquer forma possível. “Você vendia fazenda e recebia gado. Vendia gado para fazer dinheiro. Foi tudo sendo arrecadado para trazer recurso para a Jacto.”

O objetivo principal era evitar um colapso ainda maior dentro da empresa. “Precisávamos dispensar funcionário, porque não tinha como manter 1.300 pessoas. Mas para mandar embora, precisava indenizar. Não dava simplesmente para falar ‘vai embora’.”

Foi nesse processo que grande parte da estrutura pecuária acabou desmontada. “Reduzimos a empresa para 700 empregados. As fazendas serviram basicamente para dispensar 600 pessoas.”

70 mil hectares vendidos e patrimônio destruído

Durante o podcast, Shiro também revelou a dimensão do patrimônio que precisou ser liquidado. “Eu tinha 70 mil hectares naquela época.” Tudo foi vendido de maneira acelerada, em um momento de desvalorização extrema. “Foi vendendo barato. Fui descapitalizando tudo.” Ao final da crise, quase nada restou. “O que sobrou dessa brincadeira foi uma fazendinha onde eu tinha as vacas P.O.

Exportações salvaram a Jacto

Com o mercado brasileiro completamente travado, a família encontrou uma saída inesperada no comércio exterior.

Segundo Shiro, os países vizinhos não haviam sido atingidos pelo congelamento financeiro como o Brasil. “Lá fora não tinha crise. Paraguai, Bolívia, Argentina, México… esses países continuavam funcionando.”

A estratégia então foi ampliar as exportações de equipamentos agrícolas. “Matéria-prima tinha. Mão de obra parada também. Então falamos: vamos vender para quem não está em crise.”

O problema é que exportações demoravam para gerar caixa. “Você vendia com seis meses de prazo. Pegava aquelas letras e ia no Banco do Brasil pedir pelo amor de Deus para descontar os dólares e pagar salário.”

Mesmo assim, a operação ajudou a empresa a sobreviver até que a economia começasse lentamente a se estabilizar. “As coisas foram entrando no eixo. O governo percebeu que o que foi feito foi demasiado e começou a liberar dinheiro.”

O trauma que marcou uma geração do agro

O relato de Shiro Nishimura expõe como o Plano Collor atingiu diretamente o agronegócio brasileiro. Muitos produtores perderam patrimônio, encerraram atividades ou passaram décadas tentando reconstruir o que havia sido destruído pelo congelamento financeiro.

Mais do que uma crise econômica, o período deixou marcas emocionais profundas em milhares de famílias rurais. “Foi um momento de muita briga, muita tensão. Nós brigávamos entre irmãos. Foi um período muito difícil.

Décadas depois, a história ainda impressiona pelo tamanho do sacrifício feito para manter viva uma das empresas mais tradicionais do agro brasileiro.

E mostra como, em determinados momentos da história, o gado, a terra e o trabalho no campo foram literalmente usados como última linha de defesa para salvar empregos e impedir o desaparecimento de grandes empresas nacionais.

Além do episódio marcante sobre a crise do Plano Collor, Shiro Nishimura também é reconhecido nacionalmente pelo trabalho de melhoramento genético realizado na Fazenda Araponga, em Mato Grosso.

Faenda Araponga - Shiro Nishimura
Foto: Divulgação

Há décadas, ele investe na seleção de animais Nelore com foco em qualidade de carne, precocidade, rendimento de carcaça e marmoreio, utilizando tecnologias como ultrassonografia de carcaça e avaliações genéticas da Embrapa Geneplus. O projeto transformou a fazenda em referência na produção de genética Nelore voltada à carne premium, ajudando a difundir no Brasil a ideia de que a raça Nelore também pode produzir carne macia e de alta qualidade.

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