Publicação da Fazenda São Lourenço mostrando a criação de porcos Caruncho viraliza nas redes sociais e reacende o interesse pela preservação de uma das raças suínas mais raras do Brasil
A tradicional Fazenda São Lourenço, conhecida nacionalmente pelo trabalho de seleção genética do Nelore Pintado, voltou a chamar atenção nas redes sociais — desta vez, não pelos bovinos. Um vídeo publicado recentemente pela propriedade mostrou um pouco da criação de porcos da raça Caruncho, um dos suínos mais raros e tradicionais do Brasil, despertando a curiosidade de milhares de internautas apaixonados pelo meio rural.
Localizada no interior do país e comandada pelo nelorista Sr. Geraldo de Souza Carvalho Jr., a Fazenda São Lourenço construiu sua reputação ao longo dos anos pela forte atuação na pecuária seletiva, especialmente no Nelore Pintado. O trabalho criterioso de seleção, padrão racial e preservação genética transformou a fazenda em referência entre criadores. Mas quem acompanha de perto a rotina da propriedade sabe que a paixão pela genética vai além do gado.
No vídeo publicado no Instagram, a fazenda escreveu: “Já viu porco Caruncho de perto? Aqui na Fazenda São Lourenço a criação faz parte da nossa rotina no campo!”. A publicação rapidamente ganhou repercussão e abriu espaço para que muitos brasileiros conhecessem melhor uma raça suína considerada rara e praticamente em extinção em algumas regiões do país.
Os protagonistas da publicação foram os chamados porcos Carunchos Três Cores, animais conhecidos pela rusticidade, pela aparência bastante característica e pela carne extremamente valorizada pelo sabor marcante. A raça tem forte ligação com antigas criações brasileiras e carrega um importante patrimônio genético preservado por poucos selecionadores.
Quem apresentou os animais foi Fernando Carvalho, um dos quatro filhos do Sr. Geraldo e também responsável pelo trabalho desenvolvido na propriedade. Durante o vídeo, Fernando explicou que a criação dos Carunchos faz parte da história da fazenda há muitos anos e destacou o compromisso da família com a preservação da raça.
“Nós temos uma criação de porcos Caruncho aqui na São Lourenço. Hoje vim mostrar um pouco mais de perto essa seleção que realizamos há muitos anos, sempre buscando preservar esse padrão racial diferenciado”, comentou Fernando.
Segundo Fernando, a preservação da raça se tornou uma verdadeira missão dentro da propriedade, principalmente pela redução do número de criadores especializados ao longo das últimas décadas.
“A gente aprendeu a importância de preservar a raça Caruncho, que hoje é praticamente uma raça em extinção. É um animal muito voltado para produção de banha, mas que também possui uma carne de sabor único, realmente diferenciada”, destacou.
Historicamente, o Caruncho ficou conhecido justamente pela elevada produção de gordura, característica muito valorizada em uma época em que a banha suína era amplamente utilizada na culinária brasileira. Com a modernização da suinocultura e a preferência do mercado por animais mais industriais e magros, muitas linhagens tradicionais acabaram desaparecendo. Ainda assim, criadores apaixonados pela genética original mantiveram pequenos núcleos de preservação.
Na Fazenda São Lourenço, o trabalho vai muito além da simples criação. Existe uma preocupação constante com o padrão racial, troca genética e manutenção das características originais dos animais.
“Aqui na fazenda mantemos nosso núcleo da raça Caruncho e, ao longo de muitos anos, aprendemos com grandes selecionadores como buscar o verdadeiro padrão racial desses animais”, explicou.
Entre as principais referências da família está José Humberto Vilela Martins, conhecido nacionalmente como Zé Humberto, titular da tradicional Fazenda Camparino, em Cáceres (MT). Considerado um dos pecuaristas mais respeitados do Brasil, Zé Humberto é apontado por Fernando como um dos grandes responsáveis pelo aprendizado técnico relacionado à seleção da raça.
“Quem sempre me ensinou muito foi o José Humberto Vilela Martins, o Zé Humberto, de onde veio a origem dessa seleção desenvolvida na Fazenda Camparino”, afirmou.
Fernando também detalhou algumas das características que definem o padrão racial do Caruncho, mostrando o nível de observação e critério existente no processo seletivo.
“O Zé Humberto sempre explicou que o padrão da raça está na orelha curta e erguida, no focinho mais curto e em animais precoces, com muita costela. Por isso fazemos questão de manter esse núcleo e todos os anos realizamos troca genética com outros criadores do Brasil”, concluiu Fernando.
As imagens publicadas pela fazenda mostram animais bastante uniformes, com o tradicional padrão de pelagem tricolor que tornou a raça famosa entre admiradores da suinocultura antiga. O porte compacto, o perfil mais robusto e a rusticidade dos animais chamaram atenção até mesmo de quem nunca havia ouvido falar sobre os Carunchos.
Outro filho do Sr. Geraldo, Roberto Carvalho, também revelou detalhes importantes sobre o trabalho de preservação genética desenvolvido pela família com a raça Caruncho. Segundo ele, a criação já ultrapassa a marca de 100 animais distribuídos entre diferentes propriedades da família.
“Nossas criações passam de 100 animais. Em cada uma das nossas fazendas temos um núcleo, e cada núcleo possui genética separada justamente para realizarmos os cruzamentos internos posteriormente. Além disso, cada núcleo possui uma cor diferente de pelagem”, explicou Roberto.
De acordo com ele, a família mantém diferentes padrões tradicionais da raça, sempre priorizando a pureza genética preservada ao longo de décadas.
“Temos o Caruncho três pintas, duas pintas e também o preto manchado, sempre preservando a pureza construída ao longo de muitos e muitos anos da raça”, destacou.
O interesse nas redes sociais foi imediato. A publicação acumulou milhares de curtidas e centenas de comentários, principalmente de internautas interessados em saber mais sobre a raça e até mesmo adquirir exemplares. Muitos seguidores chegaram a pedir telefone de contato da fazenda, demonstrando o crescente interesse por criações tradicionais e linhagens raras no campo brasileiro.
Roberto também contou que a repercussão do vídeo nas redes sociais surpreendeu a família e abriu espaço para uma possível comercialização futura de exemplares.
“Ainda não estamos comercializando. Porém, depois que postamos o vídeo mostrando os porcos nas mídias sociais, começou a surgir muita procura. Com isso, estamos pensando na possibilidade de futuramente começar a vender alguns exemplares”, revelou.
O movimento também revela uma tendência cada vez mais forte no agro: o resgate de raças históricas e da genética antiga, especialmente entre criadores que valorizam rusticidade, tradição e qualidade de carne. Em muitos casos, esses animais acabam conquistando espaço em sistemas mais artesanais, produção gourmet e projetos de preservação genética.
Outro ponto curioso é que grandes selecionadores de gado, especialmente da raça Nelore, frequentemente acabam desenvolvendo também uma forte ligação com outras espécies animais. Não é raro encontrar importantes pecuaristas brasileiros dedicados à seleção de aves ornamentais, cavalos, cães e suínos raros. Trata-se de um perfil muito associado ao olhar técnico e à paixão pela genética animal.
Na Fazenda São Lourenço, essa vocação parece seguir exatamente esse caminho. A mesma dedicação aplicada ao Nelore Pintado agora também ajuda a preservar uma das raças suínas mais emblemáticas e raras do Brasil.
E, pelo visto, o Caruncho voltou a despertar o interesse do público rural brasileiro.
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