A crise da carne de 1986: Como o acidente nuclear na Ucrânia afetou as importações brasileiras

O Brasil hoje lidera o mercado global de proteína animal, mas há exatos 40 anos, o país enfrentava um cenário de escassez e o medo de que o prato do brasileiro estivesse temperado com radiação europeia

Na madrugada de 26 de abril de 1986, o mundo mudou para sempre com a explosão do reator 4 da usina de Chernobyl, na Ucrânia. Enquanto a antiga União Soviética tentava abafar a gravidade do maior desastre nuclear da história, o Brasil vivia os reflexos de uma economia fragilizada.

Sob o governo de José Sarney e o recém-lançado Plano Cruzado, a tentativa de controlar a hiperinflação gerou um desabastecimento crítico. É nesse contexto de instabilidade que se desenrola a crise da carne de 1986, um episódio que misturou geopolítica, saúde pública e o imaginário popular.

O desabastecimento e a gênese da crise da carne de 1986

Diferente da potência exportadora que conhecemos hoje, o Brasil da década de 1980 era um importador líquido de alimentos. Com o congelamento de preços imposto pelo governo, os pecuaristas brasileiros reduziram a oferta, levando o Estado a promover a polêmica “caça ao boi” com helicópteros. Para garantir o abastecimento, o país abriu as fronteiras para a carne europeia, mas o momento não poderia ser pior: as nuvens radioativas de Chernobyl haviam acabado de atravessar o continente.

O temor de contaminação transformou o porto e os frigoríficos em campos de batalha ideológica. No Rio Grande do Sul, o ápice da tensão ocorreu quando a Secretaria Estadual de Saúde determinou o embargo de 7.000 toneladas de carne bovina importada. O produto ficou retido nos estoques da antiga Cibrazem, em Canoas, sob suspeita de carregar partículas de Césio-137.

A verdade sobre a radioatividade na crise da carne de 1986

Apenas dois anos após o acidente, em 1988, uma investigação rigorosa foi conduzida para acalmar os ânimos. O professor Epaminondas Sansigolo de Barros Ferraz, então pesquisador do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP) e hoje com 90 anos, foi um dos protagonistas dessa perícia. “A carne estava própria para o consumo”, recorda o especialista, destacando que amostras foram sorteadas aleatoriamente diante da imprensa para garantir a idoneidade do processo.

O laudo oficial, assinado por peritos renomados como Nelson Massini e Badan Palhares, trouxe dados cruciais:

  • Carne Bovina (Itália e França): Não apresentou indícios de contaminação radioativa artificial.
  • Carne Suína (Dinamarca): Foram encontrados traços de Césio-137, porém em níveis abaixo do limite de detecção técnica, não oferecendo risco imediato.

Apesar da liberação técnica, o estigma da “carne de Chernobyl” prevaleceu. A judicialização e a desconfiança pública impediram que o produto chegasse às prateleiras, resultando na perda de toneladas de alimento por deterioração natural ao longo dos anos.

O legado jurídico e a transformação do agronegócio

Amostras não apresentavam indícios de contaminação, segundo relatório — Foto: Arquivo Nacional / reprodução

As cicatrizes desse período perduraram por décadas. Em 2014, a Justiça condenou a Conab a indenizar um ex-funcionário em cerca de R$ 460 mil. O trabalhador, que atuava na manutenção das câmaras frias onde o produto foi estocado, alegou ter desenvolvido neoplasias malignas devido à exposição prolongada à carga suspeita entre 1988 e 1990.

No entanto, a crise da carne de 1986 serviu como um divisor de águas. O médico veterinário Júlio Barcellos, coordenador do Nespro/UFRGS, observa que o Brasil aprendeu com o trauma. A baixa produtividade daquela época deu lugar a um investimento massivo em genética e expansão para o Centro-Oeste.

Caso foi objeto de disputas na Justiça — Foto: Arquivo Nacional

Em 2025, o Brasil consolidou sua posição como o maior produtor mundial de carne bovina, atingindo 12,4 milhões de toneladas e superando os Estados Unidos, conforme dados do USDA. Para Roberto Perosa, presidente da Abiec, essa trajetória reflete uma evolução contínua em escala e eficiência produtiva. O país que antes temia a carne europeia agora alimenta 177 países, provando que o fantasma de 1986 ficou definitivamente no passado.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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