Em menos de 14 dias, ocorrências em Vila Valério e Jaguaré expõem a vulnerabilidade do trabalhador rural e a urgência de conformidade com as normas de segurança no campo
O arranque da safra de café e pimenta no Espírito Santo, um dos momentos mais produtivos do agronegócio capixaba, está a ser marcado pelo luto. Em apenas duas semanas, uma sequência devastadora de acidentes na colheita resultou na morte de quatro trabalhadores em áreas de produção no interior do Estado.
As ocorrências, que variam de explosões em alojamentos a quedas fatais de estruturas de secagem, acenderam um debate urgente sobre a gestão de riscos ocupacionais e o cumprimento da NR 31 (Norma Regulamentadora da Segurança e Saúde no Trabalho na Agricultura).
A tragédia em Vila Valério: o risco invisível nos alojamentos
O caso mais impactante ocorreu em Vila Valério, no Noroeste do Estado. Uma explosão seguida de incêndio destruiu o alojamento de uma fazenda de café, atingindo quatro trabalhadores naturais de Barra, na Bahia. Três deles — Gildeson Gama Leite (30 anos), Ilmar Gama de Souza (31 anos) e Aldino Alves Almeida (28 anos) — não resistiram à gravidade das queimaduras, que atingiram até 90% dos seus corpos.
Embora a suspeita inicial da administração da propriedade apontasse para um curto-circuito provocado pelo carregamento de telemóveis, investigações da prefeitura local sugerem a hipótese de um vazamento de gás. Este incidente sublinha um ponto crítico para os produtores: a segurança não se limita apenas ao campo, mas estende-se às instalações elétricas e hidráulicas das moradias sazonais, onde a aglomeração de trabalhadores aumenta o potencial de sinistros.
Jaguaré: a letalidade nas rotinas operacionais
Simultaneamente à crise em Vila Valério, o município de Jaguaré registou a perda de José Albino Rosato, de 56 anos. O produtor rural faleceu após uma queda de apenas três degraus enquanto abastecia um secador de pimenta. O impacto na cabeça resultou em morte encefálica após seis dias de internamento.
Este tipo de ocorrência ilustra como os acidentes na colheita podem surgir em tarefas quotidianas aparentemente simples. A falta de proteção de nível em escadas e a ausência de sistemas de ancoragem ou superfícies antiderrapantes em secadores são falhas comuns que transformam atividades de rotina em tragédias familiares e produtivas.

Como mitigar acidentes na colheita através da prevenção técnica
Para o Tenente Leonardo Cazzotto, do Corpo de Bombeiros, a estatística de duas ocorrências semanais em períodos de safra é um indicador de que a percepção de risco ainda é baixa. A mitigação de novos acidentes na colheita exige uma abordagem em três frentes:
- Uso rigoroso de EPIs: Botas antiderrapantes, luvas, óculos de proteção e máscaras para poeira orgânica do café são indispensáveis para evitar lesões imediatas e doenças ocupacionais a longo prazo.
- Adequação de Maquinário: A NR 31 exige que tratores e caminhões tenham sistemas de sinalização eficientes e que os operadores sejam treinados para gerir “pontos cegos”, evitando atropelamentos.
- Fiscalização de Alojamentos: Revisões periódicas nas redes elétricas e depósitos de gás de cozinha são vitais para garantir a integridade física dos trabalhadores sazonais fora do horário de labuta.
O Papel do Pacto do Café e a Responsabilidade do Empregador
O cenário de precarização que muitas vezes rodeia os acidentes na colheita é combatido pelo Pacto do Café, iniciativa que une o Ministério do Trabalho e entidades do setor para garantir o trabalho decente. Segundo Alcimar Candeias, superintendente do Ministério do Trabalho no ES, a responsabilidade civil e criminal por qualquer acidente é, por lei, do contratante.
A formalização do trabalho e o investimento em segurança não devem ser vistos como custos, mas como salvaguardas para a sustentabilidade do agronegócio. Sem a proteção do capital humano, o título de potência agrícola do Espírito Santo corre o risco de ser ofuscado por estatísticas de perdas evitáveis.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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