Ajustes em frigoríficos vieram para ficar, afirma especialista

As medidas de segurança adotadas no ambiente frigorífico para tentar mitigar o risco de contaminação de funcionários por covid-19 vieram para ficar.

A avaliação é do ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor associado da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Adauto Castelo Filho. O infectologista assessora a JBS, maior companhia de carnes, na estratégia de combate ao coronavírus no país.

“Não há razão para diminuir essas barreiras”, disse Castelo Filho. As medidas, que incluem a instalação de anteparos de acrílico numa área onde os trabalhadores costumavam atuar ombro a ombro, devem permanecer seja porque a covid-19 tende a levar muito tempo para sair de cena e/ou também porque as outras doenças respiratórias poderão ser contidas dessa forma.

Não à toa, o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, vem repetindo que os frigoríficos passarão a atuar como hospitais. Em entrevista ao Valor, Castelo Filho avaliou que as medidas adotadas fazem os abatedouros mais seguros que os hospitais. “Diria que [as medidas] implementadas nas unidades que acompanho são muito mais seguras que a grande maioria dos hospitais, até porque o risco inerente a unidade hospitalar é muito maior por causa do tipo de pessoa que procura”.

A segurança, porém, não impede que frigoríficos sejam vistos como foco do espalhamento do vírus e tampouco que os trabalhadores passem ilesos. Na região Sul – especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina -, diversos frigoríficos tiveram surtos da doença.

Em meio ao avanço do coronavírus, o Ministério Público do Trabalho (MTP) firmou acordos com algumas companhias (BRF e Aurora, por exemplo) estipulando medidas de proteção. Conforme o Valor já informou, a JBS e o MPT entraram em rota de colisão, com a companhia alegando que já havia adotado as medidas e que, por isso, não havia necessidade de um compromisso para adotar condutas já implementadas desde cedo.

No município de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, o abatedouro de aves da Seara, que pertence à JBS, foi interditado por decisão judicial, após ação do MPT. O frigorífico ficou três semanas fechado, e foi reaberto na última quarta-feira após a companhia obter um efeito suspenso no Tribunal Superior do Trabalho (TST). Em Ipumirim, região oeste de Santa Catarina, a unidade da Seara também foi interditada, medida que segue em vigor.

A JBS não foi a única a ter unidades interditadas. Em Lajeado (RS), Minuano e BRF também tiveram as plantas paralisadas judicialmente, mas após pedido do Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul (RS). As duas companhias chegaram a um acordo e reabriram as plantas.

Embora os pedidos de interdição tenham partido de órgãos diferentes, o que os casos de JBS, BRF e Minuano tem em comum é a elevada incidência da doença nessas cidades (ver mapa acima). Passo Fundo, Ipumirim e Lajeado registram taxas de covid-19 acima da média dos respectivos Estados e do Brasil.

Na entrevista ao Valor, feita antes da reabertura da planta de Passo Fundo, Castelo Filho disse que as medidas de segurança implementadas não visavam eliminar o risco de casos da doença entre funcionários. “A pretensão nunca foi essa. Isso seria irrealístico. É a mesma coisa imaginar que num hospital que realiza cirurgias em pacientes com câncer teria zero de infecção hospitalar”, comparou o infectologista.

É preciso considerar, de acordo com o professor da Unifesp, que os trabalhadores não estão sozinhos e também circulam. Além disso, cidades como Passo Fundo não ficaram em isolamento social rígido. “O comércio ficou aberto até 30 de abril. Existia um risco intrínseco na comunidade. Por mais que você elabore protocolos, eles não extrapolam o ambiente de trabalho”, ressaltou o médico infectologista.

De toda maneira, as medidas adotadas estão em constante evolução. “Em janeiro, ninguém trabalhava com necessidade de máscara indiscriminadamente como trabalhamos nesse momento. Mas eles [a JBS] seguem de maneira muito cuidadosa o que está sugerido pelas melhores normas“, pelas boas praticas de operação que estão listada no centro de controle”, afirmou ele.

No construção do protocolo de segurança, o principal desafio foi reorganizar o fluxo dos trabalhadores que chegam aos frigoríficos. Não bastava reduzir pela metade a lotação dos ônibus que transportam os trabalhadores, mas também evitar que os veículos coletivos chegassem ao mesmo tempo. Também houve escalonamento nas áreas de descanso e refeições.

“Isso é algo pressupõe uma mudança de engenharia por causa da linha de produção”, afirmou Castelo Filho. No segundo momento de evolução das políticas, a empresa também adotou o uso de máscaras, fornecidas pela JBS, antes da entrada do trabalhador no ônibus.

Dentro da fábrica, a instalação dos barreiras foi a alternativa para as lugares nos quais o distanciamento mínimo de dois metros não é possível, explicou o infectologista. “Colocou-se lâminas de acrílico entre um funcionário e outro para que, sem uma distância maior, tivessem menor risco de contaminação”, acrescentou.

Com sua assessoria restrita ao Brasil, Castelo Filho evitou fazer comentários sobre gravidade dos casos nos EUA, onde diversos frigoríficos – inclusive da JBS – fecharam. A paralisação de fábricas, revertida após decreto do presidente Donald Trump, chegou a reduzir a produção de carne em 50%, colocando o abastecimento em risco no país. Na indústria, a avaliação é que o Brasil sofrerá menor porque as unidades são menores e mais espalhada no território. Além disso, a curva mais adiantada da vírus nos Estados Unidos pode ter servido aos brasileiros como um exemplo de como se precaver e quais os erros a evitar.

Fonte: Valor Econômico.

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