Como impedir o crescimento de chifres em bezerros e bezerras

Manejo preventivo reduz perdas por lesões de carcaça nos frigoríficos, eleva o ganho de peso em confinamentos e ganha escala com o avanço da seleção genética no país

No atual cenário da pecuária de alta performance, a busca por eficiência e sustentabilidade transformou o manejo preventivo em uma regra de ouro dentro das propriedades rurais. Entre as intervenções mais estratégicas do calendário zootécnico, entender como impedir o crescimento de chifres em bezerros e bezerras desponta não apenas como um protocolo básico de segurança, mas como um fator determinante para a rentabilidade da carcaça, a redução do estresse no rebanho e a valorização comercial do lote.

Historicamente vista como uma atividade puramente operacional, a descorna (ou mochação) evoluiu. Hoje, sob o escrutínio de mercados consumidores exigentes e sob a ótica da ciência do bem-estar animal, o produtor rural precisa adotar critérios técnicos rigorosos. Especialistas apontam que a condução inadequada desse processo pode comprometer o ganho de peso diário (GPD) dos animais e abrir portas para infecções dispendiosas.

Por que impedir o crescimento de chifres em bezerros se tornou prioridade econômica?

O impacto econômico da presença de animais aspados (com chifres) no lote é mensurável e afeta diretamente a margem de lucro do pecuarista. Consultores de mercado e indústrias frigoríficas alertam com frequência para as perdas causadas por lesões e hematomas na carcaça.

  • Prejuízo no ganho de peso: Em regimes de confinamento ou semiconfinamento, animais com chifres tendem a apresentar comportamento dominante e agressivo. Isso afasta os animais submissos do cocho, gerando heterogeneidade no lote e derrubando a eficiência alimentar global.
  • Depreciação de carcaça: Dados de auditorias de qualidade de carne no Brasil indicam que uma parcela significativa das penalizações financeiras no momento do abate decorre de contusões causadas por chifradas durante o manejo ou transporte. Áreas lesionadas precisam ser removidas pela linha de inspeção, o que reduz diretamente os arrobas pagos ao produtor.
  • Segurança operacional: Minimizar o potencial agressivo do rebanho protege a mão de obra da fazenda, diminuindo drasticamente os índices de acidentes de trabalho com vaqueiros e técnicos de manejo.

Avanços científicos nos métodos de descorna e mochação preventiva

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Foto: Fazenda Elge

Pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste e da Embrapa Gado de Corte preconizam de forma unânime que a intervenção precoce é o caminho mais seguro e eficiente. O termo técnico ideal para a fase jovem é a mochação, realizada idealmente entre a primeira e a quarta semana de vida do bezerro. Nesse período, o botão córneo ainda está aderido apenas à pele, sem ter se fundido ao osso frontal do crânio.

Atualmente, dois métodos se destacam na rotina das fazendas tecnificadas:

1. Mochação Térmica

É o método tradicional mais utilizado no campo. Consiste na aplicação de um descorneador (elétrico ou aquecido a gás) sobre o botão córneo por alguns segundos para cauterizar os vasos sanguíneos periféricos, impedindo a nutrição e o consequente desenvolvimento do chifre. A recomendação atual é o uso de equipamentos com termostato para garantir a temperatura exata, minimizando o tempo de contato com a cabeça do animal.

2. Mochação Química

Utiliza fórmulas à base de hidróxido de sódio ou de potássio. O produto é aplicado sobre o botão córneo previamente raspado. Embora prático, especialistas alertam que o método exige dias sem chuva e o isolamento temporário do bezerro. Se o animal se molhar ou esfregar a cabeça em outros membros do lote, a pasta pode escorrer, provocando severas queimaduras na pele ou cegueira.

O papel da genética como alternativa para impedir o crescimento de chifres em bezerros

A maior tendência de vanguarda no agronegócio para solucionar o desafio dos chifres não envolve ferros quentes ou produtos químicos, mas sim a seleção biológica. O uso estratégico da genética mocha consolidou-se como uma alternativa definitiva e de altíssimo valor de mercado.

De acordo com relatórios da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) e dados de comercialização de sêmen da Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial), a procura por touros geneticamente mochos tem mantido um crescimento robusto. Na raça Nelore, por exemplo, a variedade Nelore Mocho ocupa papel de destaque nos registros genealógicos nacionais.

“A introdução de touros homozigotos mochos no rebanho garante que 100% da progênie nasça sem chifres, independentemente de a vaca ser aspada. Isso elimina o custo operacional da mochação na fazenda e zera o estresse do bezerro nas primeiras semanas de vida”, aponta a análise de consultores em melhoramento genético.

Estudos zootécnicos comprovam que, após décadas de seleção, não existem diferenças de desempenho produtivo, fertilidade ou qualidade de carcaça entre linhagens mochas e aspadas, o que derruba um antigo mito do setor.

Bem-estar animal e o impacto comercial no frigorífico

A abordagem moderna para impedir o crescimento de chifres em bezerros exige o cumprimento rigoroso de protocolos de alívio da dor, alinhados às diretrizes de bem-estar animal estabelecidas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

Médicos veterinários e pesquisadores reforçam que a realização de procedimentos invasivos sem controle de dor gera um pico de cortisol (o hormônio do estresse) que paralisa o sistema imune do animal, tornando-o suscetível a doenças como a pneumonia e a tristeza parasitária bovina.

O protocolo padrão-ouro recomendado pela comunidade científica inclui:

  • Bloqueio do nervo cornual: Aplicação de anestésico local (como a lidocaína) na região lateral da cabeça, anestesiando completamente a área antes do procedimento térmico.
  • Uso de Anti-inflamatórios Não Esteroidais (AINEs): Administração injetável para garantir o controle da dor residual nas horas subsequentes ao manejo.

Propriedades que adotam o manejo da dor relatam uma recuperação imediata: os bezerros retornam à amamentação e ao pastejo logo após o procedimento, sem interrupção na curva de ganho de peso. Em um mercado globalizado e pautado por critérios ESG (Ambiental, Social e Governança), demonstrar responsabilidade no manejo inicial do rebanho abre portas para premiações financeiras e cotas de exportação de carne premium.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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