Ex-presidente da ACNB critica distorções na seleção genética, questiona excesso de foco em números e afirma: “Mas essa questão de DEP, de boi de número e tal, acho que está camuflando muita coisa.”
O Nelore é, há décadas, o principal pilar da pecuária de corte brasileira. Responsável por grande parte da produção de carne no país, a raça se consolidou como sinônimo de rusticidade, adaptação ao clima tropical e eficiência produtiva. Mas por trás do sucesso atual existe uma história pouco lembrada: o trabalho de pioneiros que, ainda no século XX, viajaram até a Índia em busca dos primeiros exemplares zebuínos que dariam origem ao que hoje se conhece como o Nelore brasileiro.
Foram expedições longas, caras e arriscadas, que resultaram na importação de animais com genética considerada superior para as condições tropicais. Esse movimento não apenas redefiniu a pecuária nacional como também estabeleceu as bases de um dos maiores programas de melhoramento genético do mundo. Nas últimas décadas, a evolução foi impulsionada por técnicas de reprodução assistida, inseminação artificial em tempo fixo (IATF), transferência de embriões e, sobretudo, pela consolidação de ferramentas de avaliação genética, como as DEPs — Diferenças Esperadas na Progênie.
É justamente nesse ponto que surgem os alertas mais contundentes feitos pelo pecuarista Jayme Miranda, ex-presidente da Nelore do Brasil (ACNB), durante participação no podcast do MF Rural. Mais conhecido como Jaiminho Miranda, é um selecionador, da Estância JM, em Garça, interior de São Paulo. Filho de Jaime Nogueira Miranda, um dos mais importantes criadores de Nelore do Brasil. Criador de raçadores como o Gim de Garça e Ludy de Garça, dois dos mais importantes genearcas da raça, divisores de águas da pecuária. Mais de 50% de rebanho nacional têm o sangue desses consagrados reprodutores.

Em uma conversa franca, ele abordou registro, seleção, ranking, características raciais e as disputas históricas entre vertentes da raça, levantando questionamentos sobre o rumo do Nelore contemporâneo. Jaiminho fala com a autoridade de quem esteve no centro das decisões que moldaram a raça nos últimos anos. Ele relembra que presidiu a Nelore do Brasil e que, em sua gestão, criou o Nelore Fest, hoje reconhecido como a maior premiação da raça no país.
“Eu fui presidente da Nelore e sofri muito com essa questão, porque quando nós fizemos o ranking, que foi um norte muito grande para a raça, virou aquela pista maravilhosa, tinha exposição de 1.500 animais, 1.800 animais, o ranking era disputadíssimo, a gente criava regras no ranking.”
Segundo ele, o ranking trouxe organização e direcionamento, estabelecendo critérios técnicos para participação e pontuação de animais, o que elevou o nível das exposições e impulsionou a profissionalização de criadores. Ao mesmo tempo, gerou tensões com a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), entidade responsável pelos registros genealógicos.
Jayme relembra que a Nelore do Brasil, por muito tempo, não possuía participação direta nas receitas oriundas do registro dos animais, o que criava dificuldades financeiras. O ranking, segundo ele, acabou se tornando uma estratégia de sobrevivência institucional.
“A criação do ranking fez a associação sobreviver.”
As divergências com a ABCZ eram frequentes e, por vezes, acaloradas. Ele descreve discussões internas em conselhos técnicos, embates sobre critérios de registro e diferentes visões sobre o que deveria ser priorizado na seleção da raça.
Um dos episódios mais marcantes, segundo Jayme, ocorreu quando surgiu a possibilidade de a ABCZ criar um ranking próprio. Na época, a Nelore do Brasil detinha a organização da Expoinel, uma das mais importantes exposições da raça no país.
“Eu lembro que eu precisei falar pro Zé [José Olavo Borges Mendes é ex-presidente da ABCZ, comandou a entidade por três vezes: 1995-1998, 2001-2004 e 2007–2010]: ‘Zé, se você criar o ranking, na minha gestão não se faz mais Expoinel aqui [Uberaba, sede da ABCZ]. E eu vou fazer força pra que nenhum presidente faça mais Expoinel aqui.’”
A negociação evitou a criação de um ranking paralelo e manteve o equilíbrio entre as entidades naquele momento, mas revelou a disputa de protagonismo e influência dentro do setor.

DEP, números e o risco de descaracterização
Se no passado o desafio era estruturar e fortalecer a raça, hoje, na visão de Jayme Miranda, o risco está na possível descaracterização do Nelore em função do excesso de foco em indicadores numéricos. Ele faz questão de reconhecer o papel técnico da ABCZ na manutenção da qualidade do gado ao longo dos anos, mas pondera que houve mudanças de postura e critérios.
“Mas essa questão de DEP, de boi de número e tal, acho que está camuflando muita coisa. Pela minha visão, que acompanho apenas em televisão, em venda de televisão, você vê alguns touros e algumas matrizes sendo vendidas com régua de DEP maravilhosa que, na nossa época, ela não poderia estar registrada.”
Jayme não se coloca contra o uso das DEPs, mas critica o uso isolado desses indicadores, sem a devida atenção às características morfológicas e raciais.
“Não sou contra o DEP, mas eu acho que tem que ter um cuidado. Tem que fazer um boi com DEPs boas, mas um boi Nelore. Dentro da característica da raça.”
Para ele, o problema surge quando defeitos estruturais, aprumos inadequados ou formatos de carcaça considerados indesejáveis passam a ser tolerados apenas porque os números genéticos indicam desempenho superior em determinados quesitos produtivos.
O dilema entre estética e rendimento
O debate não é novo na pecuária de elite, mas ganhou intensidade com o avanço das ferramentas de avaliação genética. Durante o podcast, o apresentador Roberto Lucas levanta a questão diretamente:
“Porque tem gente que defende exatamente isso. Às vezes ele não é bonito, mas ele dá um rendimento muito bom. Isso é o que está vendendo hoje. Só que tira aquela característica do Nelore.”
A resposta de Jayme é imediata e categórica:
“Completamente.”
A fala sintetiza uma tensão que atravessa exposições, leilões e programas de melhoramento: até que ponto é aceitável flexibilizar padrões raciais em nome de produtividade e retorno financeiro? Para parte dos criadores, o foco deve estar no desempenho mensurável. Para outros, a preservação da identidade da raça é inegociável. 
O futuro da raça Nelore
O Nelore continua sendo a espinha dorsal da pecuária brasileira, responsável por expressiva parcela do rebanho nacional e fundamental para a competitividade do país no mercado global de carne bovina. O avanço genético trouxe ganhos inegáveis em eficiência, ganho de peso, fertilidade e qualidade de carcaça.
No entanto, os alertas feitos por Jayme Miranda revelam uma preocupação que vai além da produtividade: a preservação da essência da raça. O desafio atual parece não ser apenas produzir mais, mas produzir melhor sem perder identidade.
Entre registros, rankings, exposições e números cada vez mais sofisticados, a discussão deixa de ser apenas técnica e passa a ser também filosófica dentro do setor. Afinal, diante das transformações recentes e da velocidade das mudanças, fica a pergunta que ecoa entre criadores e selecionadores:
O pecuarista de hoje está do lado da raça ou dos números?
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