Caio Junqueira, CEO da AgroBrazil, critica pressão baixista dos frigoríficos em São Paulo e aponta possível reação do mercado do boi gordo diante das negociações da China durante a SIAL Xangai
O mercado do boi gordo voltou a viver dias de forte tensão e disputa entre pecuaristas e frigoríficos, especialmente dentro do estado de São Paulo. Enquanto parte das indústrias tenta consolidar referências mais baixas para a arroba, analistas e pecuaristas já começam a questionar se existe, de fato, fundamento para a pressão negativa observada nas negociações recentes.
A discussão ganhou ainda mais força após declarações de Caio Junqueira, CEO da AgroBrazil, que acusou frigoríficos de criarem uma verdadeira “cortina de fumaça” para induzir o pecuarista a aceitar preços menores pelo boi gordo paulista. Segundo ele, o movimento não condiz com a realidade da oferta nacional de animais terminados e tampouco com a dinâmica atual do atacado.
Ao mesmo tempo, o cenário internacional começou a mudar de forma significativa nesta semana. Os rumores de flexibilização das medidas de salvaguarda da China ganharam força durante a SIAL Xangai, considerada a maior feira de alimentos do mundo. A expectativa do mercado é que o Brasil possa acessar parte das cotas de importação que eventualmente não forem preenchidas por outros países exportadores, ampliando o espaço da carne bovina brasileira no mercado chinês.
As negociações ocorrem diretamente entre representantes do setor exportador brasileiro e autoridades chinesas presentes no evento. Fontes ligadas às tratativas demonstram forte otimismo e indicam que um possível anúncio pode acontecer já amanhã, último dia da feira.
O mercado futuro reagiu imediatamente. Os contratos de maio, junho e julho do boi gordo avançaram mais de 2% na Bolsa, refletindo a expectativa de aumento da demanda chinesa e possível melhora no fluxo das exportações brasileiras.
Caio Junqueira questiona lógica usada pelos frigoríficos
Na análise divulgada pela AgroBrazil, Caio Junqueira chama atenção para um ponto considerado incoerente: o fato de frigoríficos tentarem precificar o boi gordo paulista abaixo de estados tradicionalmente mais ofertados em rebanho, como Mato Grosso, Pará, Tocantins e Mato Grosso do Sul.
Segundo ele, São Paulo está longe de possuir os maiores rebanhos do país e também ainda não entrou no pico da terminação dos confinamentos. Mesmo assim, compradores tentam convencer o mercado de que há excesso de oferta no estado.
O executivo cita como exemplo registros recentes no Pará com negócios em torno de R$ 350/@ à vista, com escalas curtas de aproximadamente cinco dias. Enquanto isso, compradores paulistas estariam ofertando entre R$ 340 e R$ 345/@, com pagamento para 30 dias e escalas mais longas.
Para ele, essa diferença não encontra sustentação nos fundamentos reais do mercado.
“Estão tentando colocar na cabeça do pecuarista que São Paulo vale menos que outros estados produtores. Isso não bate com a realidade”, afirmou Caio Junqueira.
“Cortina de fumaça” e pressão psicológica sobre o pecuarista
Caio Junqueira utilizou uma analogia do manejo de gado para ilustrar o movimento das indústrias. Segundo ele, frigoríficos estariam criando um ambiente de pressão psicológica para induzir vendas rápidas, aproveitando o receio do produtor em relação às escalas e ao comportamento do mercado.
Na avaliação do CEO da AgroBrazil, a estratégia busca acelerar negociações em um momento em que muitos pecuaristas ainda possuem animais prontos, mas encontram dificuldades para interpretar o cenário real de oferta e demanda.
A crítica ocorre justamente em um período em que parte das consultorias relata escalas mais confortáveis em algumas praças, enquanto negócios acima das referências oficiais seguem aparecendo de forma pontual no mercado físico.
Atacado pode ser o fiel da balança
Outro ponto destacado por Caio Junqueira é o comportamento do atacado paulista. Segundo ele, São Paulo continua sendo uma das principais bases de abastecimento de carne bovina do país, e qualquer redução mais forte na oferta de animais pode rapidamente gerar pressão altista sobre os preços da carne.
A avaliação é de que o atacado pode “enxugar” antes da virada do mês, obrigando frigoríficos a voltarem às compras de maneira mais agressiva.
“Uma hora ou outra falta essa carne aqui no atacado. Esse boi provavelmente volta a subir”, alertou o CEO da AgroBrazil.
Esse movimento ganha ainda mais relevância diante da possibilidade de melhora nas exportações para a China. Caso a flexibilização das salvaguardas realmente avance, o mercado pode voltar a disputar volumes maiores de animais padrão exportação, reduzindo ainda mais a disponibilidade no mercado interno.
China volta ao centro das atenções
A SIAL Xangai recolocou a China no radar do mercado pecuário brasileiro. O país asiático segue sendo o principal destino da carne bovina brasileira e qualquer alteração nas regras de importação tem impacto direto sobre os preços da arroba.
Nos bastidores da feira, aumentaram os rumores de que autoridades chinesas estudam flexibilizar parte das medidas de salvaguarda que vinham limitando o fluxo de importações.
A expectativa do setor é que cotas eventualmente não utilizadas por outros exportadores possam ser parcialmente redirecionadas ao Brasil, ampliando a competitividade da carne bovina brasileira dentro do mercado chinês.
Caso isso se confirme, o efeito pode ser imediato sobre o mercado físico brasileiro, principalmente em estados com forte presença de plantas habilitadas para exportação.
Pecuarista deve acompanhar mercado nacional
Caio Junqueira também reforçou a importância do produtor acompanhar negociações em diferentes regiões do país, evitando basear suas decisões apenas nas referências locais divulgadas pelas indústrias.
Segundo ele, ferramentas de compartilhamento de negócios, escalas e preços vêm mudando a dinâmica de informação do setor pecuário, reduzindo a assimetria histórica que existia entre frigoríficos e pecuaristas.
Na visão do executivo, o produtor que acompanha registros reais de negócios em diversas praças consegue avaliar melhor o comportamento da indústria e tomar decisões comerciais mais estratégicas.
Enquanto isso, o mercado segue atento ao desfecho das negociações na China e à movimentação das escalas frigoríficas nos próximos dias — fatores que podem definir se a pressão baixista atual será sustentada ou se o mercado voltará rapidamente a trabalhar em patamares mais elevados para a arroba do boi gordo.
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