Da fragmentação das fases de cria, recria e engorda às exigências rigorosas do mercado internacional, entenda como o setor pecuário nacional se adapta às diretrizes do PNIB e utiliza a tecnologia para consolidar a rastreabilidade de carnes no mercado brasileiro, assegurando sustentabilidade e transparência do pasto ao prato
O equilíbrio entre a preservação ambiental e a expansão da pecuária de corte tornou-se um dos temas mais debatidos no agronegócio contemporâneo. Diante da necessidade de comprovar práticas sustentáveis de manejo, a rastreabilidade de carnes no mercado brasileiro desponta como uma ferramenta indispensável para assegurar a transparência de toda a cadeia produtiva, do nascimento do bezerro até a mesa do consumidor.
Em entrevista à Rede USP de Rádio, a pesquisadora Rosana Maneschy, vinculada à UFPA e à Cátedra Josué de Castro da FSP-USP, detalhou o funcionamento desse ecossistema e os gargalos que o setor precisa superar para garantir a certificação de origem.
O ciclo produtivo e a dinâmica do rebanho nacional
Para compreender o monitoramento, é essencial desvendar as três fases que compõem o ciclo biológico do gado de corte: cria, recria e engorda. Cada etapa possui um cronograma zootécnico específico que influencia diretamente o tempo de resposta do setor:
- Cria: Envolve o período que vai do nascimento até o desmame, o que ocorre por volta dos seis a oito meses, momento em que o animal atinge entre 160 kg e 200 kg. Na Região Amazônica, essa atividade concentra-se fortemente nas mãos de produtores familiares, com gado voltado tanto para a produção leiteira quanto de corte. Essa característica genética de dupla aptidão tende a desacelerar o ganho de peso, estendendo o cronograma regulamentar até o abate.
- Recria: Na sequência, a recria acompanha o crescimento do rebanho até os dois anos de idade, quando os animais alcançam uma faixa de 300 kg a 380 kg.
- Engorda: Por fim, a engorda encerra o ciclo em um período de três a seis meses, preparando o gado para o frigorífico com um peso final estabelecido entre 480 kg e 550 kg.
Desafios estruturais na rastreabilidade de carnes no mercado brasileiro
Mapear com precisão cada uma dessas fases impõe severos desafios operacionais. O principal obstáculo reside na intensa descentralização do setor, uma vez que o bovino frequentemente transita por múltiplas fazendas ao longo de sua vida útil, fragmentando o histórico de dados e dificultando um acompanhamento linear.
Outro ponto crítico é o cumprimento das diretrizes do Plano Nacional de Identificação de Bovinos e Búfalos (PNIB), que estipula a obrigatoriedade do monitoramento individualizado até o ano de 2032. Essa transição escalonada demanda aportes financeiros em infraestrutura tecnológica e treinamento especializado. Trata-se de uma realidade que sobrecarrega especialmente o pequeno pecuarista, que precisa absorver novos custos operacionais para se adequar às exigências de registro de dados.
Modernização tecnológica e as exigências internacionais
Se por um lado existem barreiras estruturais, por outro, o comércio exterior tem funcionado como uma mola propulsora para a inovação. As rigorosas especificações comerciais para o chamado “boi China” — que demanda matrizes jovens, acabamento de carcaça superior e procedência auditada — aceleraram a adoção de boas práticas de gestão e melhoramento genético no campo.
Iniciativas integradas também mostram que a inclusão é viável. Projetos como o desenvolvido pela empresa Rio Capim Agrossilvipastoril demonstram o impacto positivo de conectar a agricultura familiar a redes formais de produção, oferecendo suporte técnico contínuo, incremento nos índices zootécnicos e rigoroso controle de procedência.
O futuro regulatório da rastreabilidade de carnes no mercado brasileiro
O horizonte regulatório do país caminha a passos largos para a consolidação de dados. Enquanto as normas do PNIB estabelecem metas para a próxima década, iniciativas regionais já colhem resultados antecipados. O estado do Pará, por exemplo, por meio do Sistema Oficial de Rastreabilidade Bovídea Individual (SRBIPA), desponta na liderança ao antever a necessidade de uma base de dados centralizada e preparar seus produtores para a identificação obrigatória.
No encerramento de sua análise ao Jornal da USP no Ar, a pesquisadora reforçou que o sucesso definitivo da rastreabilidade de carnes no mercado brasileiro dependerá da fusão inteligente entre indicadores sanitários, ambientais e zootécnicos, assegurando um mercado interno e externo pautado pela ética e pela segurança alimentar.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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