A hora certa de usar os vermífugos no gado

A hora certa de usar os vermífugos no gado

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bezerras leiteras

O sucesso da produção na pecuária bovina depende, entre outras coisas, de um bom manejo nutricional, reprodutivo e sanitário. Dentro deste manejo sanitário, temos no controle eficiente de parasitas um dos maiores desafios, já que a criação extensiva de animais implica numa inevitável infestação parasitária.

A sanidade animal é prejudicada por vários agentes patogênicos que podem acometer os bovinos, destacando os ecto e os endoparasitas. Inúmeros endoparasitas são encontrados habitando o organismo dos bovinos, podendo citar o Haemonchus placei, o Cooperia SP e o Dictyocaulus viviparus. Entre os ectoparasitas, os de maior importância são os carrapatos Boophilus microplus, os bernes, os piolhos e as larvas da mosca Dermatobia hominis. Para combater estes patógenos são indicados principalmente os endectocidas.

As doenças causadas por estes microorganismos provocam um menor desenvolvimento dos bovinos que, em muitos casos, passam despercebidos pelos produtores rurais, devido ao fato de algumas doenças causadas por vermes não apresentarem sintomas em seu estágio inicial, sendo subclínicas neste período. As verminoses provocam menor ganho de peso e diminuição da produção de leite, acarretando, por sua vez, diminuição da lucratividade do produtor.

Entre os endectocidas mais utilizadas no mercado brasileiro estão as Avermectinas, que são lactonas macrocíclicas e são produzidas pela fermentação do fungo Streptomyces avermitilis. Dentre as Avermectinas, podemos citar a Ivermectina como sendo a de uso mais recorrente nos rebanhos nacionais.

A Ivermectina é uma droga anti-parasitária e anti-helmíntica de amplo espectro, com ação rápida no tratamento de artrópodes e nematóides, sendo que a primeira molécula comercializada no Brasil data de 1981. Com o sucesso de comercialização e eficiência da Ivermectina, outros derivados foram preparados a partir das Avermectinas, como a Eprinomectina, a Doramectina e a Abamectina.

Por um bom tempo acreditou-se ser a Ivermectina a solução para todos os problemas com parasitoses ou, no mínimo, uma melhor alternativa para o controle de diversos parasitas. Mas, dez anos após o lançamento da primeira molécula de Ivermectina no Brasil, a patente sobre alguns tipos de bases expirou, decorrendo no aparecimento das mais diversas marcas de Ivermectinas. Hoje temos no país mais de 30 marcas comerciais de diferentes laboratórios com os preços mais variados, sendo que cada laboratório apresenta diferentes controles de qualidade, não existindo por parte do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) uma maior fiscalização ou controle continuado da qualidade e concentração dos produtos comercializados.

O uso indiscriminado dessas bases é cada vez maior nesses vários anos de uso da formulação no Brasil. Desta maneira, a euforia e o bom desempenho obtidos a partir da utilização destes produtos foi cedendo lugar a resultados cada vez mais modestos, com a diminuição da sua eficácia. Isto é o que se chama de resistência adquirida às drogas, que vem a ser o fenômeno que se dá quando populações que inicialmente são suscetíveis à ação de um fármaco deixam de ser devido à ocorrência de modificações genéticas herdáveis de geração para geração.

Caso o uso desses fármacos seja intensivo e os intervalos entre tratamentos se aproximem do período pré-patente dos nematódeos, os parasitos resistentes serão capazes de continuar ininterruptamente sua reprodução no hospedeiro, enquanto os sensíveis terão poucas oportunidades de infectar os animais, alcançar maturidade e produzir ovos antes de serem expostos ao próximo tratamento.

Além do uso indiscriminado, outro problema relativo ao uso de vermífugos nos rebanhos brasileiros está ligado ao fato destes serem ministrados em épocas ou situações não corretas.

Na maioria das propriedades o controle das verminoses só se inicia quando se verifica o surgimento dos sintomas, sendo que o correto, neste caso, seria realizar programas específicos do uso de anti-helmínticos. Diversos trabalhos citam a existência de quatro diferentes categorias de tratamentos, descritas como: tratamento preventivo extensivo, tratamento curativo, tratamento tático e tratamento estratégico. O primeiro tratamento está baseado no uso de princípios ativos durante períodos mais ou menos longos e contínuos, isto é, durante dias ou meses. Neste caso, os gastos e a carga de uso de medicamentos serão menores. O segundo é também conhecido como tratamento de emergência ou tratamento de salvamento e, como o nome diz, a medicação é realizada em animais clinicamente doentes. Embora comum, o uso de anti-helmíntico neste caso é o método economicamente mais inviável em termos de custo/benefício, especialmente quando aplicado somente nos animais “mais doentes”.

Na aplicação do tratamento tático deve-se conhecer o ciclo dos parasitas e dos fatores responsáveis pelo desencadeamento do processo de translação, ou seja, para a aplicação deste tratamento precisa-se do correto conhecimento epidemiológico das infecções. Além disto, este tratamento deve ser utilizado principalmente quando há a ocorrência de chuvas pesadas em épocas historicamente mais secas ou quando há a introdução do rebanho em pastagem recém-formada; assim, evita-se que ocorra um aumento da contaminação do ambiente.

O programa estratégico nada mais é do que um conceito estatístico baseado na probabilidade de ocorrência de certos eventos epidemiológicos em certas épocas do ano, nas condições usuais da região. Os conhecimentos e experimentos epidemiológicos permitem a identificação das épocas críticas para os tratamentos. Por conseguinte, estes serão utilizados na época de maior necessidade. Este tratamento, junto com o tratamento tático, forma parte de um programa flexível.

Outra recomendação que também deve ser citada no combate às parasitoses é o uso intercalado entre diferentes princípios ativos num mesmo ano; desta forma, a chance de resistência do parasita é muito menor. Um exemplo seria o uso do modelo chamado 5-7-9, que corresponde aos meses de maio, julho e setembro, respectivamente (meses que correspondem ao período de seca). Em maio, período geralmente de desmama, usa-se uma endectocida a 1%, em julho seria usado outro principio ativo, como o levamizol, por exemplo, e, por fim, em setembro, voltaria a se usar um endectocida com maior concentração.

Vale ressaltar que nenhum método de controle irá funcionar caso já exista a resistência dos helmintos aos princípios ativos e, como o grau de resistência é variável entre as propriedades, é necessário que se saiba através de diagnósticos, como o OPG (ovos por grama), qual é o vermífugo que apresenta melhores resultados antes de realizar o controle.

Colaborou Diego Augusto Campos da Cruz, graduando em Zootecnia pela FZEA/USP

Referências:

BIANCHIN, I.; MELO, H.J.H. Epidemiologia e controle de helmintos gastrintestinais em bovinos de corte nos cerrados. 2.ed. Campo Grande : EMBRAPA-CNPGC, 1985. 60p. (EMBRAPA-CNPGC. Circular Técnica, 16).

RANGEL, V. B. Avaliação dos derivados de Lactonas Macrocíclicas contra infestações naturais de Boophilus microplus, Dermatobia hominis e de infecções por helmintos gastrointestinais, em Bovinos de Corte. UFMG, 2003.

RODRIGUEZ, D. C. Avaliação da toxidade de avermectinas em Bovinos com idade inferior a trinta dias. UNESP. Jaboticabal, SP. 2007

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