Técnica cria uma faixa sem vegetação para dificultar o avanço das chamas e pode proteger lavouras, pastagens, matas e instalações rurais; dimensão e localização precisam considerar as características de cada propriedade
Em meio à estiagem, quando capim, folhas e restos vegetais perdem umidade e se tornam combustível para incêndios, uma faixa de terreno estrategicamente limpa pode ajudar a impedir que as chamas avancem pela propriedade. Conhecida como aceiro, essa técnica está entre as medidas de prevenção recomendadas para o meio rural, mas sua eficiência depende de planejamento: largura, relevo, vegetação e localização precisam ser considerados antes da abertura.
A dimensão do problema ajuda a explicar a importância da prevenção. O Relatório Anual do Fogo 2025, do MapBiomas, aponta que aproximadamente 12,7 milhões de hectares foram queimados no Brasil no ano passado. Agosto, setembro e outubro concentraram mais de 72% de toda a área atingida naquele ano, evidenciando a forte concentração das ocorrências nos meses mais críticos de seca.
Como o aceiro dificulta o avanço das chamas?
O funcionamento do aceiro está diretamente ligado à forma como um incêndio se propaga. Para continuar avançando sobre uma área rural, o fogo precisa encontrar material capaz de queimar pelo caminho, como capim seco, folhas, galhos e resíduos vegetais.
Ao retirar esse material de uma faixa do terreno, cria-se uma descontinuidade entre duas áreas com vegetação. As chamas deixam de encontrar combustível imediatamente à frente, o que pode reduzir sua capacidade de progressão.
O manual de prevenção de incêndios florestais em propriedades rurais publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) define os aceiros justamente como faixas sem vegetação abertas estrategicamente para impedir a propagação do fogo. O documento também destaca que temperatura, umidade, vento, tipo de vegetação e topografia influenciam o comportamento das chamas.
Isso explica por que a técnica não deve ser encarada como uma barreira infalível. Um incêndio intenso pode lançar materiais incandescentes além da faixa ou apresentar comportamento diferente conforme as condições ambientais.
Qual deve ser a largura do aceiro?
Não existe uma medida única adequada para todas as propriedades.
Segundo o manual técnico do MAPA, a referência varia de cerca de 3 metros em áreas de pastagem a mais de 10 metros em formações florestais, considerando principalmente o tipo de vegetação e o relevo. O próprio documento estabelece três metros como referência mínima em seu checklist preventivo.
Na prática, isso significa que copiar a medida utilizada por outra fazenda pode resultar em uma faixa inadequada.
Áreas com maior volume de biomassa, vegetação mais densa ou condições topográficas desfavoráveis demandam avaliação diferente de uma pastagem com pouco material disponível para queima. Quanto maior o potencial de propagação, mais criterioso precisa ser o planejamento.
O MAPA recomenda ainda priorizar terrenos planos ou de acesso facilitado durante a abertura, quando isso for possível.
Quando o aceiro deve ser preparado?
O momento mais adequado não é quando o incêndio já começou, mas antes da entrada da propriedade no período mais seco do ano.
O MAPA orienta revisar e limpar as faixas previamente à estiagem. A recomendação ganha relevância quando comparada ao comportamento recente do fogo no país: em 2025, somente os meses de agosto, setembro e outubro responderam por mais de sete em cada dez hectares queimados durante todo o ano, segundo o MapBiomas.
O calendário, entretanto, varia entre regiões. Por isso, o produtor deve observar o início da redução das chuvas e as características climáticas locais, em vez de adotar uma única data para todo o Brasil.
Depois de aberto, o aceiro também não pode ser simplesmente abandonado. O crescimento de plantas ou o acúmulo posterior de resíduos compromete a faixa, razão pela qual o MAPA recomenda inspeções e retirada periódica do material que voltar a ocupar o terreno.
Onde a faixa pode fazer maior diferença dentro da fazenda?
A eficiência não depende apenas de abrir uma grande quantidade de aceiros, mas de posicioná-los onde o avanço de um incêndio possa provocar maior impacto.
Um dos exemplos apresentados pelo MAPA é a criação da faixa entre lavouras, pastagens, Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais, reduzindo a possibilidade de um fogo originado na área produtiva alcançar a vegetação protegida.
A mesma lógica de planejamento pode ser utilizada para avaliar pontos vulneráveis da propriedade, como setores próximos a instalações rurais ou regiões sujeitas à entrada de fogo vindo de áreas vizinhas.
Por isso, antes de simplesmente passar uma máquina pelo terreno, é necessário identificar de onde o incêndio teria maior possibilidade de chegar e quais áreas representam maior risco econômico, ambiental ou para a segurança das pessoas.
Aceiro não significa autorização para colocar fogo
Outro ponto importante é não confundir a abertura de uma faixa preventiva com a utilização deliberada de fogo para manejo agrícola.
A queima controlada possui regras próprias. O Ibama a define como uso planejado, monitorado e controlado do fogo para finalidades agrossilvipastoris em uma área previamente determinada. Quem pretende realizar a prática deve solicitar autorização ao órgão ambiental estadual competente e seguir as normas específicas vigentes na região.
Entre as medidas de segurança previstas pelo órgão estão planejamento da operação, análise das condições meteorológicas, disponibilidade de trabalhadores capacitados e equipamentos adequados.
Portanto, construir um aceiro de forma mecânica não autoriza automaticamente o produtor a utilizar fogo para limpeza ou manejo da propriedade.
A legislação brasileira também passou a contar, desde 2024, com a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída pela Lei nº 14.944, que estabeleceu novas diretrizes para prevenção, preparação e utilização planejada do fogo no país.
Prevenção precisa ir além de uma única faixa
O aceiro ganha mais eficiência quando integrado ao manejo preventivo da propriedade.
Reduzir excessos de vegetação em pontos vulneráveis, manter equipamentos disponíveis, capacitar trabalhadores e acompanhar condições meteorológicas são medidas que diminuem a exposição da fazenda durante os meses de maior perigo.
Segundo o manual do MAPA, vegetação seca e fina favorece uma propagação mais rápida, enquanto dias quentes, secos e com vento aumentam o potencial de avanço do incêndio. Terrenos inclinados também exigem atenção, já que o fogo tende a subir encostas com maior velocidade.
Há ainda um limite entre prevenção e combate. O Ministério alerta que enfrentar diretamente um incêndio florestal envolve risco de vida e deve ser tarefa de profissionais treinados, como bombeiros e brigadistas capacitados.
Afinal, o aceiro pode salvar uma fazenda do fogo?
O aceiro pode ser decisivo para impedir ou desacelerar a entrada das chamas em uma área rural, mas não existe garantia de que conseguirá conter sozinho qualquer incêndio.
Sua principal vantagem está em preparar o terreno antes da emergência. Uma propriedade que conhece seus pontos vulneráveis e adota medidas preventivas entra no período seco em condições muito melhores do que aquela que só reage depois que o fogo já começou.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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