Acidentes de trabalho no campo é uma crescente preocupação no meio agrícola

Acidentes de trabalho no campo é uma crescente preocupação no meio agrícola

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Vida e morte no campo
Foto: Divulgação/ Reprodução

O campo também pode ser terreno fértil para acidentes, se os cuidados na lida diária não forem observados, muito acidentes, inclusive fatais podem acontecer

As histórias do estudante de Medicina Veterinária Lucas Silva Mariano, 21, e do trabalhador rural Marcelo Audísio Gonçalves, 23, se cruzaram em junho passado.

Um era acadêmico da Universidade Federal de Goiás (UFG); o outro trabalhava em uma propriedade rural em Goiatuba, no sul de Goiás. Ambos perderam a vida em um acidente com o vagão forrageiro, equipamento para misturar ração e silagem usados na alimentação dos animais.

Mariano morreu enquanto fazia uma aula prática de estágio, nas dependências da UFG. O jovem escorregou e caiu sobre as lâminas do misturador de ração.

Já Gonçalves teria se desiquilibrado e caído enquanto operava o misturador. À época, conhecidos do rapaz disseram que ele tinha o costume de caminhar em cima do vagão forrageiro durante o funcionamento do aparelho. Os casos seguem sendo investigados pela Polícia Civil goiana.

O fim trágico de Mariano e Gonçalves está longe de ser casos isolados. O campo também pode ser terreno fértil para acidentes, se cuidados na lida diária não forem observados.

Os que envolvem maquinário e ferramentas manuais são considerados os mais comuns, como explica o especialista em segurança do trabalho Andres Brito. Segundo ele, os tipos de ferimentos mais comuns levantados pelo Anuário Estatístico da Previdência Social (Aeps), de 2015, levam a essa constatação.

No anuário, os ferimentos de punho e de mão lideram as ocorrências, 712.302 casos. Em seguida, vem a fratura ao nível de punho e de mão, com 68.017; e traumatismo superficial do punho e da mão, com 33.590 ocorrências. “As máquinas devem receber uma atenção maior”, pondera, citando a Norma de Saúde e Segurança do Trabalho para o Setor Rural, a NR-31.

A norma exige que os trabalhadores que usam tratores, colhedoras e pulverizadores – as chamadas máquinas autopropelidas – recebam treinamento antes que assumam as suas funções. O mesmo vale para quem trabalha com as estacionárias, que são transportáveis para uso em bancada ou outra superfície estável; e as tracionadas, como adubadeiras, plantadeiras e pulverizadores tracionados.

“Essa é uma das medidas mais eficientes para evitar ou pelo menos minimizar os acidentes”, detalha. A lei exige ainda que haja reciclagem dos trabalhadores, porém não determina a periodicidade. “Acredito que de dois em dois anos, seja um período eficiente”, define Brito.

Além da atenção ao trabalho com máquinas, é preciso ficar atento ainda com a aplicação dos defensivos agrícolas. Mais uma vez, a aposta é na orientação. “Muitas vezes percebi nos treinamentos que quando mostramos como deve ser feita (a aplicação), o trabalhador percebe que está fazendo errado e quer fazer da maneira correta. Isso demonstra que não era má vontade nem dele nem do empregador, mas sim o desconhecimento”, comenta.

De acordo com a auditora fiscal do trabalho e chefe do Setor de Segurança do Ministério do Trabalho em Goiás, Roberta Roncato, em Goiás são em média 110 acidentes de trabalho com morte por ano: 30% desse total acontece no campo. O número inclui os acidentes chamados de típicos, quando o empregado está à disposição do empregador, – a maioria – e de trajeto, no deslocamento até o local de trabalho.

O engolfamento (afundamento) em grãos, nos silos, os casos envolvendo tratores – só ano passado foram 11 mortes, em Goiás -, quedas e atropelamentos, são as ocorrências que mais se destacam. “Não é só o trabalhador acidentado que está envolvido. O motorista nem percebe que atropelou alguém porque às vezes não tem sinalização e tem ruído”, diz, se referindo aos casos fatais que envolvem a ida ou a volta do trabalho.

Roberta explica ainda que o empregador, obrigatoriamente, precisa informar ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) sobre as ocorrências fatais. “Muitos não fazem isso, o que já gera um auto de infração. Durante a fiscalização, além dos autos de infração, também elaboramos o relatório de investigação do acidente”, afirma.

A fiscalização também é uma oportunidade de orientação para o produtor. Mas a auditora alerta: ele deve buscar apoio de profissionais como médicos e técnicos de segurança do trabalho para evitar que acidentes ocorram. “O empregador, se tem uma máquina que pode pôr alguém em risco, tem que proteger o trabalhador desde a contratação, seja com orientação, seja com equipamentos, para que o acidente não aconteça”, ensina.

Reforma trabalhista preocupa

Recém-aprovada, a reforma trabalhista tira o sono de entidades que representam os trabalhadores do campo. O presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Empregados Assalariados de Goiás (Fetaer-GO), José Maria de Lima, vê nas mudanças uma ameaça aos avanços trazidos pela Norma de Saúde e Segurança do Trabalho para o Setor Rural, a NR-31. “Muitas medidas foram tomadas. Ter um documento para o trabalhador se amparar ajudou muito a diminuir acidentes”, analisa.

Um dos pontos positivos da NR-31 é a utilização obrigatória do equipamento de proteção individual (EPI) e o horário delimitado para alimentação e descanso. Com a reforma, o intervalo dentro da jornada de trabalho poderá ser negociado, desde que tenha, no mínimo, 30 minutos nas jornadas maiores do que seis horas. O tempo mínimo atualmente é de 1 hora. “Se você descansa, para um pouco, faz um repouso, fica muito mais tranquilo para trabalhar”, compara.

Para o especialista em segurança do trabalho Andres Brito, a reforma pode beneficiar principalmente os pequenos e médios produtores, que necessitam de mão de obra em alguns períodos – muitas vezes períodos curtos – e não tinham uma maneira legal de contratar trabalhadores para realizar essas tarefas.

As histórias do estudante de Medicina Veterinária Lucas Silva Mariano, 21, e do trabalhador rural Marcelo Audísio Gonçalves, 23, se cruzaram em junho passado. Um era acadêmico da Universidade Federal de Goiás (UFG); o outro trabalhava em uma propriedade rural em Goiatuba, no sul de Goiás. Ambos perderam a vida em um acidente com o vagão forrageiro, equipamento para misturar ração e silagem usados na alimentação dos animais.

Mariano morreu enquanto fazia uma aula prática de estágio, nas dependências da UFG. O jovem escorregou e caiu sobre as lâminas do misturador de ração. Já Gonçalves teria se desiquilibrado e caído enquanto operava o misturador. À época, conhecidos do rapaz disseram que ele tinha o costume de caminhar em cima do vagão forrageiro durante o funcionamento do aparelho. Os casos seguem sendo investigados pela Polícia Civil goiana.

O fim trágico de Mariano e Gonçalves está longe de ser casos isolados. O campo também pode ser terreno fértil para acidentes, se cuidados na lida diária não forem observados. Os que envolvem maquinário e ferramentas manuais são considerados os mais comuns, como explica o especialista em segurança do trabalho Andres Brito. Segundo ele, os tipos de ferimentos mais comuns levantados pelo Anuário Estatístico da Previdência Social (Aeps), de 2015, levam a essa constatação.

No anuário, os ferimentos de punho e de mão lideram as ocorrências, 712.302 casos. Em seguida, vem a fratura ao nível de punho e de mão, com 68.017; e traumatismo superficial do punho e da mão, com 33.590 ocorrências (veja tabela). “As máquinas devem receber uma atenção maior”, pondera, citando a Norma de Saúde e Segurança do Trabalho para o Setor Rural, a NR-31.

A norma exige que os trabalhadores que usam tratores, colhedoras e pulverizadores – as chamadas máquinas autopropelidas – recebam treinamento antes que assumam as suas funções. O mesmo vale para quem trabalha com as estacionárias, que são transportáveis para uso em bancada ou outra superfície estável; e as tracionadas, como adubadeiras, plantadeiras e pulverizadores tracionados.

“Essa é uma das medidas mais eficientes para evitar ou pelo menos minimizar os acidentes”, detalha. A lei exige ainda que haja reciclagem dos trabalhadores, porém não determina a periodicidade. “Acredito que de dois em dois anos, seja um período eficiente”, define Brito.

Além da atenção ao trabalho com máquinas, é preciso ficar atento ainda com a aplicação dos defensivos agrícolas. Mais uma vez, a aposta é na orientação. “Muitas vezes percebi nos treinamentos que quando mostramos como deve ser feita (a aplicação), o trabalhador percebe que está fazendo errado e quer fazer da maneira correta. Isso demonstra que não era má vontade nem dele nem do empregador, mas sim o desconhecimento”, comenta.

Fiscalização

De acordo com a auditora fiscal do trabalho e chefe do Setor de Segurança do Ministério do Trabalho em Goiás, Roberta Roncato, em Goiás são em média 110 acidentes de trabalho com morte por ano: 30% desse total acontece no campo. O número inclui os acidentes chamados de típicos, quando o empregado está à disposição do empregador, – a maioria – e de trajeto, no deslocamento até o local de trabalho.

O engolfamento (afundamento) em grãos, nos silos, os casos envolvendo tratores – só ano passado foram 11 mortes, em Goiás -, quedas e atropelamentos, são as ocorrências que mais se destacam. “Não é só o trabalhador acidentado que está envolvido. O motorista nem percebe que atropelou alguém porque às vezes não tem sinalização e tem ruído”, diz, se referindo aos casos fatais que envolvem a ida ou a volta do trabalho.

Roberta explica ainda que o empregador, obrigatoriamente, precisa informar ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) sobre as ocorrências fatais. “Muitos não fazem isso, o que já gera um auto de infração. Durante a fiscalização, além dos autos de infração, também elaboramos o relatório de investigação do acidente”, afirma.

A fiscalização também é uma oportunidade de orientação para o produtor. Mas a auditora alerta: ele deve buscar apoio de profissionais como médicos e técnicos de segurança do trabalho para evitar que acidentes ocorram. “O empregador, se tem uma máquina que pode pôr alguém em risco, tem que proteger o trabalhador desde a contratação, seja com orientação, seja com equipamentos, para que o acidente não aconteça”, ensina.

Reforma trabalhista preocupa

Recém-aprovada, a reforma trabalhista tira o sono de entidades que representam os trabalhadores do campo. O presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais Empregados Assalariados de Goiás (Fetaer-GO), José Maria de Lima, vê nas mudanças uma ameaça aos avanços trazidos pela Norma de Saúde e Segurança do Trabalho para o Setor Rural, a NR-31. “Muitas medidas foram tomadas. Ter um documento para o trabalhador se amparar ajudou muito a diminuir acidentes”, analisa.

Um dos pontos positivos da NR-31 é a utilização obrigatória do equipamento de proteção individual (EPI) e o horário delimitado para alimentação e descanso. Com a reforma, o intervalo dentro da jornada de trabalho poderá ser negociado, desde que tenha, no mínimo, 30 minutos nas jornadas maiores do que seis horas. O tempo mínimo atualmente é de 1 hora. “Se você descansa, para um pouco, faz um repouso, fica muito mais tranquilo para trabalhar”, compara.

Para o especialista em segurança do trabalho Andres Brito, a reforma pode beneficiar principalmente os pequenos e médios produtores, que necessitam de mão de obra em alguns períodos – muitas vezes períodos curtos – e não tinham uma maneira legal de contratar trabalhadores para realizar essas tarefas.

Fonte: Revista Safra