Agricultor mostra efeitos do Super El Niño na soja em Roraima; vídeo

Super El Niño já provoca impactos no Norte do Brasil e acende alerta para perdas na produção agrícola; produtor mostra lavoura castigada por 30 dias de estiagem e temperaturas de 41°C

O retorno do Super El Niño em 2026 já começou a preocupar produtores rurais de diferentes regiões do Brasil. Classificado pelos meteorologistas como um dos eventos climáticos mais intensos das últimas décadas, o fenômeno tende a alterar drasticamente o regime de chuvas e as temperaturas em diversas partes do planeta, afetando diretamente a produção agrícola.

No Brasil, as previsões indicam um cenário de contrastes. Enquanto a Região Sul pode registrar chuvas acima da média, favorecendo alagamentos e excesso de umidade em algumas áreas, o Norte do país, especialmente a faixa mais setentrional da Amazônia, deve enfrentar um período prolongado de estiagem, calor extremo e redução significativa das precipitações. Esse comportamento é característico do El Niño, que modifica a circulação atmosférica e desloca os corredores de umidade sobre a América do Sul.

Especialistas em clima e agronegócio alertam que os reflexos poderão ser sentidos em diferentes cadeias produtivas. A falta de chuva durante fases críticas do desenvolvimento das lavouras compromete a formação dos grãos, reduz o potencial produtivo e aumenta os custos com manejo, além de elevar o risco de incêndios florestais e queimadas em áreas agrícolas. Dependendo da intensidade e da duração do fenômeno, culturas como soja, milho, arroz e feijão podem sofrer perdas importantes em algumas regiões brasileiras.

Em Roraima, onde o calendário agrícola é diferente do restante do país e o plantio da soja ocorre justamente durante o período de chuvas do estado, o impacto pode ser ainda mais severo. Nos últimos anos, o estado consolidou sua posição como uma nova fronteira agrícola nacional, ampliando significativamente a área cultivada de soja e milho. Entretanto, essa expansão depende diretamente da regularidade das chuvas, tornando a produção extremamente sensível a eventos climáticos extremos como o Super El Niño.

“Nunca vimos nada parecido”

A realidade dessa mudança climática foi registrada pelo engenheiro agrônomo, agricultor e empresário Lucas Cavalca, que possui operações agrícolas no Paraná, Mato Grosso e Roraima e é proprietário da Fazenda Alabama, localizada no estado nortista.

Em vídeo publicado nas redes sociais no dia 12 de agosto de 2026, Cavalca mostra o cenário enfrentado na propriedade após 30 dias consecutivos sem chuva.

Segundo ele, a estiagem prolongada, associada às temperaturas extremamente elevadas, já comprometeu parte da lavoura de soja. “Hoje nós estamos aí no aniversário de 30 dias sem chuva. Calor muito forte. E a situação aqui é essa” – relatou o agricultor.

Enquanto grava o vídeo, o produtor exibe pés de soja já secos e com desenvolvimento interrompido. “Soja morrendo já, antes da hora, bem antes da hora. Os grãos não estão cheios. O efeito do Super El Niño foi muito forte aqui pra nós” – confessa ele.

O relato evidencia um dos principais efeitos da seca sobre a cultura: a interrupção do enchimento dos grãos, fase decisiva para a produtividade. Sem água suficiente, as plantas aceleram seu ciclo como mecanismo de sobrevivência, reduzindo drasticamente o rendimento da lavoura.

Fenômeno sem precedentes na região

Durante o depoimento, Lucas afirma que nem mesmo produtores mais experientes conseguem recordar um evento semelhante.

“Conversando com os antigos aí, ninguém nunca viu nada parecido.”

Segundo ele, a população urbana muitas vezes enxerga apenas os momentos positivos do agronegócio, sem conhecer os riscos enfrentados diariamente pelos produtores.

“Isso aqui é pra mostrar um pouco da realidade de quem acha que o agro é só máquina bonita, só lavoura bonita. Isso aqui é o dinheiro de todos os agricultores.”

Os prejuízos vão além da porteira

O agricultor também ressalta que os impactos não ficam restritos às propriedades rurais.

“O agricultor é o primeiro a sentir. Nós somos os primeiros a sentir. Mas infelizmente não é só no campo que a gente sente. Isso aí reflete na sociedade como um todo.”

De fato, perdas na produção tendem a reduzir a oferta de alimentos, pressionar custos de produção, afetar exportações e gerar impactos econômicos em toda a cadeia do agronegócio.

Clima extremo se soma à crise econômica do setor

No relato, Cavalca lembra que o produtor rural já vinha enfrentando um período de forte pressão financeira antes mesmo da chegada do Super El Niño.

“Muito triste. Não bastava três, quatro anos de preços de commodities ruins, crédito escasso e juros muito altos, a gente foi surpreendido por um Super El Niño.”

A combinação entre preços menos remuneradores, dificuldades de acesso ao crédito rural, custos elevados e agora uma quebra climática amplia significativamente os riscos para os agricultores.

Seis meses de seca pela frente

O cenário descrito pelo produtor preocupa ainda mais porque, segundo ele, a estação seca em Roraima está apenas começando.

No momento da gravação, os termômetros marcavam 41°C, e a previsão é de vários meses sem chuvas expressivas.

“Ainda temos aqui seis meses de seca agora pela frente. Temperaturas muito altas, hoje no momento aqui 41 graus.”

Diante desse cenário, Lucas afirma que a prioridade passa a ser proteger a propriedade contra os incêndios.

“Então é se preparar pro fogo e rezar pro Sul e Centro-Oeste não serem tão afetados pelo El Niño quanto nós fomos.”

Alerta para o restante do país

Embora os efeitos mais severos já estejam sendo observados em Roraima, meteorologistas acompanham atentamente a evolução do Super El Niño ao longo dos próximos meses. Caso o fenômeno mantenha sua intensidade, diferentes regiões produtoras poderão enfrentar impactos distintos, desde estiagens prolongadas até excesso de chuvas, exigindo planejamento, monitoramento climático constante e estratégias de mitigação por parte dos produtores.

O depoimento de Lucas Cavalca representa um retrato antecipado do que eventos climáticos extremos podem provocar no agronegócio brasileiro. Mais do que uma lavoura perdida, ele evidencia a crescente vulnerabilidade da produção agrícola diante das mudanças climáticas, justamente em um momento em que o setor já enfrenta desafios econômicos e financeiros significativos.

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