Multinacionais do segmento de chocolates apoiam pesquisas para desenvolver ingredientes produzidos em laboratório como alternativa ao cacau natural. Apesar dos avanços, a tecnologia ainda não foi aprovada por órgãos reguladores e segue distante da produção em larga escala.
As grandes empresas da indústria mundial do chocolate estão ampliando os investimentos em pesquisas para desenvolver ingredientes produzidos em laboratório que possam substituir parte da matéria-prima tradicional. A iniciativa busca reduzir os impactos da alta nos preços do cacau, causada por problemas climáticos e fitossanitários que afetam principalmente as lavouras da África.
Embora a tecnologia desperte interesse da indústria, o chamado “cacau cultivado em laboratório” ainda não possui aprovação regulatória para comercialização em nenhum país. As estimativas mais otimistas apontam que os primeiros produtos poderão chegar ao mercado somente a partir de 2027.
Como funciona o cacau cultivado em laboratório
O processo utiliza técnicas de agricultura celular. Em vez de produzir uma planta inteira, os pesquisadores retiram pequenas amostras de tecidos do cacaueiro, cultivam essas células em ambiente controlado e as multiplicam em biorreatores, onde recebem nutrientes, vitaminas e minerais até originarem uma pasta ou ingrediente com características semelhantes às da manteiga de cacau.
Segundo as empresas envolvidas, o objetivo é reproduzir compostos responsáveis pelo aroma, sabor e pelas propriedades da gordura natural do cacau.
Empresas lideram pesquisas no “cacau de laboratório”
Entre as empresas que desenvolvem essa tecnologia estão:
- Celleste Bio (Israel), apoiada pela Mondelez International, dona de marcas como Cadbury e Toblerone;
- California Cultured (Estados Unidos), que desenvolve sistemas de cultivo celular em larga escala;
- Food Brewer (Suíça), financiada, entre outros investidores, pela fabricante Lindt & Sprüngli.
Além do cultivo celular, outras startups trabalham em alternativas que dispensam totalmente o cacau. Elas utilizam ingredientes como sementes de uva, proteínas vegetais, cevada e alfarroba fermentadas para reproduzir características sensoriais semelhantes às do chocolate tradicional.
Desafio ainda está na textura
De acordo com os estudos apresentados pelas empresas, os testes sensoriais indicam que aroma e sabor já se aproximam bastante do chocolate convencional em determinados produtos.
O principal desafio continua sendo reproduzir a textura da manteiga de cacau natural, conhecida por derreter exatamente na temperatura do corpo humano. As empresas afirmam que os resultados vêm melhorando com ajustes no processo de cultivo celular.
Produtores defendem o cacau natural
Produtores brasileiros de cacau acompanham o avanço dessas pesquisas, mas avaliam que o produto natural continuará tendo espaço no mercado.
Boa parte da produção nacional ocorre em sistemas agroflorestais, especialmente no modelo cabruca, predominante na Bahia, no qual os cacaueiros são cultivados sob a sombra da vegetação nativa. Os agricultores argumentam que esse sistema contribui para a conservação da Mata Atlântica e da Amazônia, além de gerar renda para milhares de famílias.
Ao mesmo tempo, produtores também vêm adotando novas tecnologias no campo, como inteligência artificial, sensores e monitoramento digital para aumentar a produtividade e combater pragas nas lavouras.
Rotulagem ganha regras mais rígidas
O debate também envolve transparência para o consumidor. O texto destaca que a legislação brasileira passou a exigir regras mais rigorosas para identificação dos produtos comercializados como chocolate, incluindo a indicação do percentual de cacau na embalagem e restrições ao uso da denominação “chocolate” para produtos que não atinjam os critérios estabelecidos.
Com isso, produtos que utilizarem ingredientes alternativos ou substitutos deverão seguir as normas de rotulagem vigentes, garantindo maior clareza ao consumidor sobre a composição do alimento.
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