Muito além da música, o violeiro também construiu uma trajetória como produtor rural: na Fazenda Campo Novo, em Aquidauana (MS), criação de gado e preservação fazem parte de uma história que ganhou projeção ainda em 2003, quando Almir Sater assumiu a presidência do Instituto Parque do Pantanal.
Para milhões de brasileiros, Almir Sater é uma das vozes mais conhecidas do Pantanal. Mas existe outra parte de sua trajetória, menos conhecida fora do meio rural, que ajuda a explicar por que sua relação com o bioma ultrapassa as letras das músicas. O cantor, compositor e produtor rural é proprietário da Fazenda Campo Novo, uma área de aproximadamente 25 mil hectares na região de Aquidauana, em Mato Grosso do Sul.
A dimensão chama atenção: são cerca de 250 quilômetros quadrados. Mas o ponto mais interessante da história não está apenas no tamanho da propriedade. Há mais de duas décadas, Sater aparece ligado a uma discussão que continua atual no agronegócio brasileiro: como manter produção pecuária, renda e famílias no campo sem romper a relação com a conservação do Pantanal. E documentos e reportagens da época mostram que essa ligação não nasceu agora.
A história ganhou força em 2003
Em abril de 2003, Almir Sater assumiu a presidência do Instituto Parque do Pantanal (IPP). Um registro daquele período preservado pelo Instituto Socioambiental descrevia o projeto como uma experiência de gestão participativa entre governo e produtores, apoiada em três pilares: meio ambiente, economia e questões sociais.
A Fazenda Campo Novo, de Sater, estava dentro da área abrangida pelo chamado Parque Regional do Pantanal.
O conceito era particularmente relevante para uma região cuja dinâmica produtiva está diretamente ligada ao funcionamento do bioma: preservar não significaria necessariamente retirar o produtor ou eliminar a atividade pecuária.
A proposta procurava criar condições para que proprietários e famílias permanecessem nas fazendas e adaptassem suas atividades às características naturais do Pantanal, conciliando economia e conservação.
Naquele momento, o próprio Sater defendia a valorização do conhecimento do homem pantaneiro e a implantação de projetos capazes de agregar valor à produção sem destruir os recursos naturais.
E o gado continuou fazendo parte da fazenda
Esse é um detalhe importante porque muda a leitura da história.
A propriedade não aparece simplesmente como uma grande área destinada à conservação. A pecuária permaneceu inserida no modelo. O material consultado registra criação de gado e participação em iniciativas relacionadas à produção orgânica, mostrando uma tentativa de compatibilizar atividade econômica e manutenção da paisagem.
Há registros históricos ainda mais interessantes.
Quando assumiu o IPP, em 2003, Almir Sater também era citado como produtor de vitelo, em um momento no qual o projeto trabalhava com a ideia do chamado vitelo orgânico ou pantaneiro como produto de maior valor agregado. Entre as experiências vinculadas à iniciativa estavam ainda educação por meio das escolas pantaneiras e projetos de manejo sustentável.
É justamente aí que a história da Fazenda Campo Novo se conecta a um debate que ganhou muito mais importância duas décadas depois: a possibilidade de remunerar melhor uma pecuária que preserve vegetação, respeite as características do território e mantenha atividade econômica no bioma.
Por que 25 mil hectares fazem diferença no Pantanal?
No Pantanal, tamanho de propriedade precisa ser interpretado de maneira diferente de regiões de pecuária intensiva.
O sistema produtivo tradicional está submetido ao regime de cheias e secas, à disponibilidade sazonal de pastagens e às características particulares de cada área. Por isso, produção pecuária e conservação da paisagem historicamente coexistem em grandes extensões territoriais.
No caso da Campo Novo, seus aproximadamente 25 mil hectares ajudam a dimensionar o desafio de administrar uma propriedade produtiva inserida em um dos ecossistemas mais singulares do planeta.
A proposta associada ao Parque Regional do Pantanal justamente evitava tratar natureza e produção como elementos necessariamente opostos. O modelo buscava a permanência dos proprietários e das famílias rurais, com atividades produtivas submetidas a práticas relacionadas à sustentabilidade.
Uma discussão de 2003 que continua atual em 2026
Talvez esse seja o aspecto mais forte da trajetória rural de Almir Sater.
Mais de 20 anos depois daquela experiência, produção de baixo carbono, pagamento por serviços ambientais, conservação da vegetação nativa, rastreabilidade e valorização econômica de produtores que preservam estão no centro das discussões sobre o futuro da pecuária brasileira.
Mato Grosso do Sul, inclusive, vem tentando transformar essa agenda em estratégia econômica. Em evento realizado em Bonito, representantes do governo estadual destacaram iniciativas de pecuária de baixo carbono, integração lavoura-pecuária-floresta e mecanismos relacionados ao pagamento por serviços ambientais no Pantanal.
Isso dá uma perspectiva diferente à experiência iniciada décadas atrás: parte dos princípios discutidos naquele projeto — produzir, conservar e manter o homem no território — reaparece hoje em políticas e mercados que procuram atribuir valor econômico à sustentabilidade.
De produtor rural a Embaixador do Pantanal
A relação de Sater com o bioma ganhou um reconhecimento institucional em 30 de maio de 2025, durante o Fórum LIDE COP 30, realizado em Bonito.
O cantor e produtor rural recebeu do Governo de Mato Grosso do Sul o título de Embaixador do Pantanal, reconhecimento associado tanto à representação da cultura regional quanto à sua atuação ligada à produção e à defesa do bioma.
O reconhecimento chegou mais de duas décadas depois de ele assumir o Instituto Parque do Pantanal.
E cria uma linha do tempo pouco conhecida de quem acompanha apenas sua carreira artística: Almir Sater já discutia publicamente produção rural e conservação do Pantanal no início dos anos 2000.
Muito além da viola
A música tornou Almir Sater um dos maiores símbolos culturais do Centro-Oeste, mas a vida rural ajuda a entender por que o Pantanal aparece de maneira tão recorrente em sua obra.
A Fazenda Campo Novo representa justamente esse encontro.
São aproximadamente 25 mil hectares em Aquidauana, criação de gado e uma história ligada a projetos que procuraram construir uma alternativa em que o produtor permanecesse dentro da propriedade e a atividade econômica pudesse conviver com a conservação. O próprio material histórico sobre o projeto resume essa lógica ao mostrar que a intenção era aproximar pecuária, economia regional e proteção da paisagem.
Mais de duas décadas depois, a discussão se tornou ainda maior.
Em um momento no qual o Brasil tenta demonstrar ao mundo que pode aumentar o valor de sua produção agropecuária preservando seus biomas, a história rural de Almir Sater revela que, no Pantanal, a pergunta não precisa ser simplesmente escolher entre produzir ou preservar — mas descobrir como fazer as duas coisas permanecerem de pé.
Frase-chave SEO: Fazenda de Almir Sater no Pantanal
Tags: Almir Sater, Fazenda de Almir Sater, Fazenda Campo Novo, Pantanal, Aquidauana, pecuária no Pantanal, gado, pecuária sustentável, Mato Grosso do Sul, produtor rural, conservação ambiental, agronegócio brasileiro.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.