Após 20 anos de pesquisa, Embrapa lança pera brasileira que produz até 30 toneladas por hectare

BRS Áurea foi desenvolvida para as condições do Sul do Brasil, apresenta resistência a importantes doenças, menor suscetibilidade à mosca-das-frutas e pode ajudar o país a reduzir a forte dependência da pera importada

Uma nova cultivar brasileira pode abrir espaço para ampliar uma cultura que, apesar do mercado consumidor consolidado, ainda tem produção limitada no País. A BRS Áurea, desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho após cerca de duas décadas de pesquisa, combina produtividade estimada de 25 a 30 toneladas por hectare, colheita precoce, boa conservação pós-colheita e características fitossanitárias consideradas favoráveis para o cultivo comercial.

A novidade ganha importância porque a própria Embrapa reconhece que a produção brasileira de pera é insuficiente para atender à demanda interna, obrigando o mercado a recorrer anualmente a grandes volumes importados. Entre os principais obstáculos para o avanço da cultura estão justamente a falta de cultivares bem adaptadas às diferentes regiões produtoras, a irregularidade da produção e problemas relacionados à qualidade dos frutos.

A cultivar apresentada pela Embrapa em 25 de agosto é a primeira pera desenvolvida pelo programa de melhoramento genético da Embrapa Uva e Vinho. O material surgiu do cruzamento realizado em 2006, em Vacaria (RS), entre a pera asiática Hosui e a europeia Abate Fetel. O material encaminhado pelo Canal Rural também destaca a origem do cruzamento e o longo processo de seleção.

Da seleção em laboratório ao pomar comercial

O desenvolvimento foi longo. Em 2015, o genótipo identificado como CZ 2-50 foi selecionado depois da confirmação da qualidade dos frutos e passou a ser chamado de Seleção 6. No ano seguinte, plantas foram enxertadas sobre marmeleiro ‘Adams’ para avaliações de fenologia, produção, características físicas, químicas e sensoriais e conservação pós-colheita.

Em 2021, a pesquisa avançou para unidades de validação em parceria com produtores em Vacaria e Caxias do Sul. Finalmente, em 26 de maio de 2025, a BRS Áurea foi registrada no Registro Nacional de Cultivares (RNC), do Ministério da Agricultura e Pecuária, sob o número 59.655.

Os testes foram realizados em Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. A recomendação é principalmente para áreas do Sul que acumulem entre 400 e 600 horas de frio abaixo de 7,2 °C durante o inverno.

Produtividade pode chegar a 30 toneladas por hectare

Um dos pontos de maior interesse comercial é o rendimento. Em pomares adultos, utilizando plantas enxertadas sobre marmeleiro ‘Adams’ e espaçamento de quatro metros entre linhas por um metro entre plantas, a produtividade estimada fica entre 25 e 30 toneladas por hectare.

O baixo a médio vigor das plantas nesse porta-enxerto também permite trabalhar com sistemas mais adensados, entre 1.667 e 2.857 plantas por hectare, segundo a Circular Técnica 170 da Embrapa.

Há, porém, particularidades importantes. A Embrapa identificou certo grau de incompatibilidade entre a BRS Áurea e o marmeleiro ‘Adams’ e recomenda a utilização de mudas com interenxerto, também chamado de filtro, para contornar o problema. Além disso, mesmo apresentando elevada frutificação efetiva, o pomar deve contar com cultivares polinizadoras. Entre as indicadas estão Packham’s Triumph, Rocha e Hosui.

Colheita antecipada abre uma janela interessante de mercado

Outro diferencial está no calendário. A colheita normalmente ocorre entre 5 e 20 de janeiro, com ciclo próximo de 106 dias entre a plena floração e a maturação.

Isso significa que a BRS Áurea entra em colheita antes de variedades conhecidas, como Santa Maria, Rocha, Packham’s Triumph e Williams.

Para o produtor do Sul, existe ainda uma vantagem operacional. Segundo a Embrapa, nesse período boa parte das cultivares de pêssego já foi colhida, enquanto as principais maçãs, como Gala e Fuji, ainda não chegaram ao ponto de colheita. A menor sobreposição pode reduzir a disputa por mão de obra justamente em uma das operações mais intensivas do pomar.

Resistência a doenças chama atenção

Talvez um dos atributos agronômicos mais relevantes esteja no comportamento fitossanitário. A BRS Áurea apresentou boa resistência à entomosporiose e à sarna-da-pereira, duas doenças importantes para a cultura.

Os resultados envolvendo a mosca-das-frutas-sul-americana (Anastrepha fraterculus) também chamam atenção. Em áreas experimentais nas quais BRS Áurea e Rocha estavam disponíveis para infestação natural, 70% dos frutos da Rocha foram infestados, contra apenas 10% da BRS Áurea.

Em outro teste, no qual os insetos foram confinados junto aos frutos e não tinham possibilidade de escolha, a diferença diminuiu, mas continuou expressiva: 100% dos frutos da Rocha apresentaram larvas, ante 40% na BRS Áurea.

Isso não significa, entretanto, que o produtor possa abandonar o controle da praga. A própria pesquisa ressalta a necessidade de manter monitoramento e manejo fitossanitário. O resultado indica menor suscetibilidade, e não imunidade.

Fruto dourado, crocante e com até 190 gramas

A cultivar também foi selecionada pensando no consumidor. As peras apresentam formato predominantemente piriforme, boa uniformidade e peso entre 145 e 190 gramas. Quando maduras, adquirem tonalidade amarelo-alaranjada ou dourada — característica que deu origem ao nome Áurea.

A polpa é branca, crocante, suculenta e sem granulosidade. No ponto adequado para consumo, a Embrapa aponta teor de sólidos solúveis próximo de 14 °Brix, associado a uma relação equilibrada entre doçura e acidez.

Até 165 dias em condições experimentais de armazenamento

A pós-colheita é outro ponto estratégico. Frutos colhidos no estágio comercial apresentaram características adequadas para consumo depois de 90 dias armazenados a 0,5 °C, seguidos de sete dias a 20 °C.

Os experimentos foram além. Em atmosfera controlada, a Embrapa avaliou frutos armazenados por 165 dias a 0,5 °C. Os resultados indicaram maior manutenção da firmeza em comparação ao armazenamento apenas refrigerado, embora as condições sejam experimentais e não devam ser interpretadas automaticamente como prazo comercial garantido.

A fruta exige cuidado na operação: apesar da casca relativamente espessa, é sensível a impactos mecânicos durante a colheita e o transporte, razão pela qual a pesquisa recomenda manejo cuidadoso e equipamentos apropriados.

Uma pera desenvolvida para diminuir a dependência externa

Mais do que colocar uma nova variedade no mercado, a BRS Áurea representa uma tentativa de atacar um problema histórico da fruticultura brasileira. O programa de melhoramento da pereira da Embrapa começou em 2006 justamente com o objetivo de desenvolver cultivares adaptadas às condições brasileiras, produtivas, estáveis e capazes de produzir frutas de qualidade, aumentando a competitividade da produção nacional e reduzindo a dependência das importações.

A BRS Áurea é a primeira cultivar resultante desse programa. A combinação de até 30 t/ha, colheita em janeiro, resistência a doenças, menor suscetibilidade à mosca-das-frutas e potencial de armazenamento cria uma alternativa promissora para produtores do Sul, embora o desempenho comercial em maior escala ainda dependa da expansão dos pomares e da validação contínua nas diferentes condições de produção.

Para implantação, há ainda um cuidado essencial: a Embrapa orienta que os produtores adquiram mudas exclusivamente de viveiristas licenciados, responsáveis por preservar a identidade genética e a qualidade agronômica e fitossanitária do material.

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