Aranha amazônica tem toxinas que podem criar inseticidas biológicos

“Na Austrália, a demanda por proteger as lavouras sem afetar abelhas e outros animais fez com que um inseticida biológico oriundo de toxinas de aranha chegasse ao mercado”

Um dos pontos que mais chamam a atenção por serem os ‘vilões’ da agricultura são os agrotóxicos ou defensivos agrícolas, necessários para combater pragas nas plantações, porém, com o avanço tecnológico e de pesquisas relacionadas à sustentabilidade no agronegócio, pesquisadores estão encontrando cada vez mais formas de combater os insetos e pragas das lavouras sem utilizar defensivos que agridam o meio ambiente.

Num estudo publicado recentemente no Journal of Proteome Research por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto Butantan, além de parceiros no Brasil e nos Estados Unidos, foi caracterizado pela primeira vez a peçonha da tarântula Acanthoscurria juruenicola,uma espécie nativa da Amazônia.

No estudo, que tem como primeira autora Erika Nishiduka, que o realizou como parte de seu mestrado na EPM-Unifesp, foi constatado que algumas das toxinas encontradas têm potencial para o desenvolvimento de fármacos e até mesmo de inseticidas biológicos.

No total, os pesquisadores encontraram 92 proteínas, sendo 14 delas peptídeos ricos em cisteína (CRP, na sigla em inglês), um tipo de molécula comum em toxinas de aranhas, alguns com conhecidos efeitos em canais iônicos e contra microrganismos.

Segundo Alexandre Tashima, professor da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) apoiado pela FAPESP e coordenador do estudo, na Austrália, a demanda por proteger as lavouras sem afetar abelhas e outros animais fez com que um inseticida biológico oriundo de toxinas de aranha chegasse ao mercado.

“Nossa biodiversidade ainda traz muitas boas surpresas, por isso também é fundamental a conservação do meio ambiente. A solução para muitos problemas pode estar escondida em espécies ainda não descobertas ou mesmo em outras já descritas há muito tempo, como essa aranha”, destaca o pesquisador.

O estudo teve apoio da FAPESP ainda por meio de um Projeto Temático coordenado pelo professor da Unifesp Reinaldo Salomão. O artigo Multiomics Profiling of Toxins in the Venom of the Amazonian Spider Acanthoscurria juruenicola pode ser lido aqui.

Mercado de bioinsumos cresce quase 70% na safra 2021/22

Defensivos agrícolas de base biológica e bioinoculantes movimentaram R$ 2,905 bilhões no Brasil na safra 2021-22. O levantamento FarmTrak, da Kynetec, recém-divulgado, aponta elevação de 67% no desempenho desses produtos frente ao ciclo anterior (R$ 1,744 bilhão). Segundo a consultoria, os biológicos também avançaram de 3% para 4% do total de transações realizadas pelo setor de defesa vegetal, que subiu de R$ 58,384 bilhões (2020-21) para R$ 78,247 bilhões, alta de 33%.

Conforme a Kynetec, na análise do estudo FarmTrak por categoria de produtos biológicos, os bionematicidas lideraram a comercialização ao longo da safra, com a participação de 39,6% (R$ 1,152 bilhão). Na segunda posição aparecem os bioinseticidas: 30,7% ou R$ 890 milhões. Bioinoculantes e biofungicidas completam o ranking do segmento, com 19,2% das vendas (R$ 557 milhões) e 10,5% (R$ 306 milhões).

Tratamentos nos cultivos-chave

De acordo com a Kynetec, na safra 2021-22 os bioinsumos chegaram a 28% da área plantada de soja, ou 10,5 milhões de hectares, além de tratar 52% da cana-de-açúcar (4,74 milhões de hectares) e 26% do milho safrinha (3,8 milhões de hectares). Alcançaram ainda 638 mil hectares e 993 mil hectares de milho verão e algodão, 17% e 64% destes cultivos, respectivamente.

Conforme o gerente de contas da Kynetec, Lucas Alves, a área tratada com produtos biológicos apresentou crescimento relevante nas principais culturas da safra 2021-22, com destaque para o milho na safrinha. Neste, a utilização de bioinsumos saltou de 13% para 26% das lavouras. No milho verão, houve elevação de 4% para 17%. Na soja, o cultivo de maior importância econômica, esses produtos ocuparam 28% das áreas, ante 21% do período 2020-21.

Já a avaliação do mercado de biológicos atrelada à área potencial tratada (PAT), calculada com base no número de aplicações dos produtores, por área cultivada nas propriedades e por cultura, apurou crescimento de 29%. Por esse critério, ressalta a consultoria, bioinsumos trataram o equivalente a 92,521 milhões de hectares, nas principais regiões produtoras, no período 2021-22, ante 71,750 milhões de hectares. Ainda segundo a Kynetec, a cultura da soja respondeu por 70% do total do PAT biológicos: 65,203 milhões de hectares. Atrás da oleaginosa, os indicadores mais relevantes foram medidos no milho safrinha, com 16% do total ou 15,151 milhões de hectares e na cana-de-açúcar, com 7% ou 6,807 milhões de hectares. Fecham a relação cultivos de algodão, café, HF, arroz, amendoim e outros.

Diretor da Kynetec para a América Latina, o engenheiro agrônomo André Dias salienta que o mercado de biológicos tende a se manter em alta nos próximos ciclos.

“Há crescente oferta de inovação. Um dos fatores centrais a impulsionar bioinsumos é a necessidade de aplicar defensivos com diferentes modos de ação, para conter a resistência de fungos e pragas a ingredientes ativos químicos, exigências por uma agricultura mais sustentável também pesam em favor dos biológicos”, conclui Dias.

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