Mercado físico da arroba do boi gordo tem negócios mais lentos e indústria tenta reduzir preços, enquanto oferta de gado e queda das exportações entram no radar para os próximos dias
O mercado do boi gordo começou a semana com um cenário de disputa entre frigoríficos e pecuaristas. Apesar das tentativas da indústria de reduzir as ofertas de compra em algumas regiões, a disponibilidade de animais terminados ainda impede uma pressão baixista mais forte sobre a arroba. Ao mesmo tempo, a desaceleração das exportações e o consumo interno mais lento aumentam a cautela para os próximos dias.
Segundo levantamento da Agrifatto, nesta segunda-feira o mercado físico registrou leve alta nas praças monitoradas. O Pará foi o destaque, com avanço de 0,22% na comparação diária, levando a arroba para R$ 340,27, em média.
Na B3, o movimento foi ainda mais positivo. O contrato do boi gordo com vencimento em outubro de 2026 subiu 1,21%, encerrando o dia cotado a R$ 358,30 por arroba.
Apesar da alta observada em algumas praças, o mercado físico apresentou pouca fluidez nos negócios. Frigoríficos começaram a testar preços menores, principalmente em regiões onde as escalas de abate estão mais confortáveis.
Segundo o analista da Safras & Mercado, Fernando Henrique Iglesias, as indústrias de maior porte ainda contam com uma posição relativamente confortável nas escalas.
Esse cenário é explicado pela maior presença de animais de parceria e pela reorganização das programações após períodos de férias coletivas, que permitiram distribuir melhor os abates entre diferentes unidades de uma mesma empresa.
A situação, porém, não é uniforme em todo o país. Frigoríficos de menor porte continuam encontrando mais dificuldades para comprar gado, especialmente em algumas regiões do Norte.
As referências médias da arroba nesta segunda-feira foram:
- São Paulo: R$ 347,00/@
- Goiás: R$ 335,71/@
- Minas Gerais: R$ 339,18/@
- Mato Grosso do Sul: R$ 342,20/@
- Mato Grosso: R$ 332,50/@
Exportações perdem força em agosto
O mercado internacional é um dos principais pontos de atenção neste início de segunda quinzena de agosto.
A segunda semana do mês registrou embarques de 41,97 mil toneladas de carne bovina in natura, com média diária de 8,39 mil toneladas. O ritmo representou uma queda de 19,98% em relação à semana anterior.
O preço médio também recuou levemente, para US$ 6,14 mil por tonelada, baixa semanal de 0,77%.
Na parcial de agosto, a receita das exportações chegou a US$ 579,68 milhões, com média diária de faturamento de US$ 57,96 milhões.
A queda no ritmo dos embarques já era esperada pelo mercado, principalmente diante da ausência parcial e temporária da China das compras brasileiras após o preenchimento da cota de importação.
O desempenho das exportações, portanto, passa a ser um dos principais fatores que podem determinar se a arroba terá espaço para novas altas ou se começará a sofrer maior pressão da indústria.
São Paulo sente pressão dos frigoríficos
Em São Paulo, uma das principais referências do mercado pecuário brasileiro, o cenário foi de estabilidade.
Segundo a Scot Consultoria, as escalas de abate atendem, em média, sete dias, permitindo que os frigoríficos reduzam as ofertas de compra e busquem melhores condições de negociação.
A relação entre oferta e demanda permanece relativamente equilibrada. A redução no volume de bovinos abatidos ajuda a sustentar os preços, mas o escoamento lento da carne no mercado interno e a desaceleração das exportações aumentam a pressão sobre as cotações.
O quadro indica um mercado mais disputado no início da segunda quinzena de agosto.
Tocantins registra novas altas
Enquanto algumas regiões enfrentam maior pressão da indústria, o Tocantins apresentou valorização.
Na região Sul do estado, o boi gordo subiu R$ 1 por arroba, enquanto os preços da vaca e da novilha permaneceram estáveis.
Na região Norte, o boi gordo também avançou R$ 1/@, enquanto vaca e novilha tiveram alta de R$ 2/@. A cotação do Boi China permaneceu inalterada.
Os reajustes refletem principalmente a menor disponibilidade de animais para abate, embora a demanda mais fraca limite a intensidade das altas.
Boi China sobe em Goiás
Em Goiás, o movimento também foi positivo em algumas regiões.
No Sul do estado, o boi gordo e o Boi China tiveram valorização de R$ 3 por arroba. Já as cotações da vaca e da novilha ficaram estáveis.
Na região de Goiânia, os preços permaneceram estáveis para todas as categorias.
O comportamento mostra que, mesmo com a redução temporária da participação chinesa nas compras, a oferta restrita continua oferecendo suporte aos preços dos animais destinados ao mercado externo.
Tem gado suficiente para atender os frigoríficos?
Essa é uma das principais perguntas que o mercado começa a fazer para as próximas semanas.
Para Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, os frigoríficos de grande porte apresentam escalas mais confortáveis, enquanto unidades menores enfrentam maior dificuldade para encontrar animais.
A disponibilidade de gado será determinante para definir a capacidade da indústria de pressionar os preços.
Se a oferta continuar limitada, a tentativa dos frigoríficos de comprar mais barato pode encontrar resistência dos pecuaristas. Por outro lado, uma melhora na disponibilidade de animais, combinada à demanda externa mais fraca e ao consumo doméstico lento, poderia aumentar a pressão sobre a arroba.
Júnior Friboi anuncia expansão dos frigoríficos
Em meio às discussões sobre oferta, demanda e margens da indústria, o setor frigorífico também começa a sinalizar novos investimentos.
A JBJ Agropecuária, comandada por José Batista Júnior, conhecido como Júnior Friboi, pretende adquirir novas plantas frigoríficas para ampliar as operações da Prima Foods, braço de processamento de carnes do grupo.
Atualmente, a companhia possui quatro frigoríficos e 14 fazendas. A estratégia faz parte do plano de elevar o faturamento de R$ 6 bilhões em 2025 para R$ 10 bilhões até 2027.
A expansão deverá ocorrer em diferentes segmentos, incluindo carnes industrializadas, processadas, commodities e exportações.
Atualmente, cerca de 72% da produção da companhia é destinada ao mercado externo, com países como China, Estados Unidos, Emirados Árabes, Indonésia, Vietnã, Chile e mercados europeus entre os destinos.
Grupo também prepara confinamento para 100 mil animais
A expansão da JBJ não ficará restrita aos frigoríficos.
O grupo prepara um novo confinamento na Fazenda Ressaca, em Cáceres (MT), com capacidade projetada para 100 mil animais estáticos.
A empresa também avalia oportunidades de expansão da pecuária em estados como Goiás, Tocantins, Pará, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul.
A estratégia amplia a atuação do grupo dentro da cadeia, desde a produção do boi até o processamento e a comercialização da carne.
O que esperar da arroba nos próximos dias?
O mercado começa a semana sem uma direção totalmente definida.
De um lado, a oferta de gado ainda é um fator de sustentação, principalmente para frigoríficos menores e em determinadas regiões. De outro, as escalas mais confortáveis das grandes indústrias, o consumo doméstico lento e a queda no ritmo das exportações aumentam a pressão sobre os preços.
Por enquanto, a arroba demonstra resistência às tentativas de baixa. A principal variável para os próximos dias será justamente a disponibilidade de animais.
Se o pecuarista continuar segurando a oferta e as escalas voltarem a encurtar, a indústria poderá ser obrigada a elevar as ofertas de compra. Se as escalas permanecerem confortáveis e a demanda continuar fraca, a pressão sobre a arroba tende a aumentar.
A B3, entretanto, sinalizou nesta segunda-feira uma expectativa mais positiva para os próximos meses, com o contrato de outubro avançando para R$ 358,30/@.
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