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Artigo original “Touro de Central ou ações da Petrobras?” de Fernando Furtado Velloso na coluna Do Pasto ao Prato da Revista AG.

Investir em touros de central é um assunto recorrente nas rodas que transito. Observo que é um tema que gera interesse, curiosidade e torna-se um negócio para alguns pecuaristas, investidores (urbanos) ou pecuaristas investidores. A maioria dos interessados pensa em diversificar investimentos por meio deste “ativo” chamado touro de central. Vamos discutir algumas questões para tentar compreender por que alguns acham que é uma opção tão interessante e rentável e outros dizem que é só barulho.

O formato de negócio mais frequente é bem simples: um investidor compra um touro (pré-aprovado por alguma central), e a empresa cuida da produção do sêmen, distribuição e comercialização. O aporte inicial de recursos é do investidor, e o restante do trabalho é da central que contrata o touro. O proprietário do touro remunera-se com participação na venda de cada dose de sêmen, usualmente algo entre 10% a 20% do valor da dose, ou algo entre R$ 1,50 e R$ 3,00/dose. Esses valores variam conforme o contrato entre as partes e o preço médio das doses do touro (R$ 15,00, R$ 20,00, R$ 30,00 etc.).

Como estimar os ganhos?

O potencial de venda de doses por ano é que nos indicará a expectativa de remuneração do capital investido. É bastante comum touros de raças de corte que vendem entre 5 mil e 10 mil doses anuais. Alguns alcançam 20 mil a 30 mil doses. Poucos superam esse patamar, mas existem reprodutores que batem essa marca. Observe como é um investimento com grandes variações nos possíveis resultados.

Quais os riscos envolvidos?

Os riscos nesse negócio existem e são de diferentes naturezas: de produção, de vida e comerciais. Alguns touros não produzem sêmen com qualidade para congelamento e comercialização, outros produzem quantidade pequena por salto (consequentemente, por mês, por ano, etc.), e alguns demoram mais tempo para tornarem-se bons doadores que outros.

Perde-se todo o investimento?

Não, pois, normalmente, os vendedores buscam substituir os animais ou outra forma de acerto, mas essas situações geram maior tempo para retorno do investimento ou baixo retorno. Alguns touros morrem, e é prudente avaliar a contratação de um seguro. Alguns touros não emplacam no mercado e, apesar de produzirem bom volume de sêmen, acabam comercializando bem menos que o seu potencial produtivo.

Como reduzir ou contornar os riscos?

Compreendendo que existem riscos nesse negócio, é importante definir que nível de risco quer se assumir e considerar estratégias para reduzir as possíveis frustrações.

Os riscos variam conforme o perfil do investidor:

  1. Pecuarista com grande necessidade de doses/anos;
  2. Pecuarista selecionador (produtor de genética); e
  3. Investidor “puro” (sem atividade no campo).

Do “1” até o “3”, os riscos aumentam, pois há menos flexibilidade para uso do investimento. Algumas dicas podem ser consideradas banais, mas vamos a elas:

  • Não concentrar altos investimentos em um touro só é uma forma de amortecer problemas;
  • Para touros de valor muito alto (R$ 100 mil, R$ 300 mil, R$ 1 milhão), defina uma estratégia comercial prévia com a central parceira, com níveis mínimos de comercialização, possíveis garantias etc.;
  • Considere ter a central como uma sócia do negócio, sendo esta, também, coproprietária. É um modelo bem usado nos EUA e que talvez venha crescendo no Brasil. As centrais participam do investimento inicial de produtos que elas acreditam bastante no potencial comercial;
  • Compreenda que características dos reprodutores são realmente valorizadas pelo mercado de inseminação (o seu gosto conta muito pouco neste momento);
  • Busque o máximo de informações técnicas acerca do produto previamente à compra (genealogia, avaliação genética, dados de carcaça, histórico reprodutivo, produção de sêmen, resultados em IATF, genômica etc.).

É bom negócio para o produtor de genética?

Muitos selecionadores preferem vender seus principais touros para as centrais ou investidores do que terem seus animais contratados pelas empresas de inseminação. Ah, então não é bom negócio ter um touro em central? Negativo. O selecionador tem a possibilidade de valorizar o seu reprodutor (ou parte dele, por exemplo, 50%) em uma negociação dessa natureza e, assim, antecipa os ganhos financeiros possíveis sem participar dos riscos (e ganhos) do futuro do touro no mercado de inseminação. O negócio “touro de central” passou a ser mais um item para diferenciação de seus produtos nos seus leilões ou vendas diretas. Logo, pensar em produzir, anualmente, touros que atendam ao mercado das centrais é uma ideia a ser considerada nos programas de seleção dos produtores de genética.

Com um bom plano (genético e comercial), é possível preparar possíveis doadores de sêmen para o mercado. Para tanto, várias ações podem ser feitas pensando na “vendabilidade” e na geração de interesse do touro pelas centrais e, consequentemente, por investidores. Essas ações podem partir do congelamento de doses, do uso do touro em programas de IATF, do uso em novilhas (facilidade de parto), da produção de boas imagens que apoiem a comercialização (do touro e futuramente do sêmen), de dispor de dados técnicos específicos para esse mercado etc. Tudo pressupõe algum trabalho e investimento, mas o ponto de chegada justifica: comercializar um touro pelo valor de 2, 5 ou 10 outros.

Citei aspectos do negócio e do comércio e, praticamente, não abordei questões de genética. A limitação de caracteres me obriga a sintetizar. Mas tudo o que se falou aqui parte de um programa de seleção e acasalamento em 2018 que nos entregue um produto único para o mercado de inseminação em 2020 ou 2021. Este touro do futuro, que será muito valorizado, tem de ser consequência de decisões bem pensadas pelo produtor de touros, e não por obra do acaso. Se o tema agradou, podemos desdobrar mais em outros texto.

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Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

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