Projeto desenvolvido no Paraná avança para construir um avião sem piloto para pulverização agrícola, aeronave autônoma capaz de transportar 1.000 litros de defensivos, ampliando em até 25 vezes a capacidade dos drones agrícolas atuais e reduzindo custos operacionais no campo.
O avanço da agricultura de precisão acaba de ganhar um novo capítulo no Brasil. Pesquisadores e empresas do Paraná estão desenvolvendo uma aeronave agrícola totalmente autônoma que promete mudar a forma como grandes áreas são pulverizadas. Batizado de AgroVANT, o projeto reúne universidades, centros de pesquisa e parceiros da iniciativa privada para criar um avião sem piloto com capacidade para transportar 1.000 litros de insumos agrícolas, volume cerca de 25 vezes superior ao de um drone agrícola convencional.
A iniciativa coloca o Paraná entre os estados mais avançados na pesquisa de aeronaves agrícolas não tripuladas e acompanha uma tendência mundial de automação das operações no campo. Além de ampliar a eficiência operacional, a tecnologia busca oferecer mais segurança ao operador, reduzir custos em determinadas aplicações e aumentar a produtividade em propriedades de grande porte.
Como será o novo avião sem piloto com capacidade 25 vezes maior
O AgroVANT está sendo desenvolvido por um consórcio formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Instituto Federal do Paraná (IFPR), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), dentro do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (Napi).
Os primeiros testes já foram concluídos com sucesso em um protótipo de dois metros de envergadura. Agora, a equipe trabalha na construção da aeronave em escala real, cuja fase de desenvolvimento deverá levar até 36 meses, período necessário para testes estruturais, certificações e evolução dos sistemas de autonomia.
Quando estiver concluído, o avião terá características bastante superiores às dos equipamentos atualmente disponíveis:
- Mais de uma tonelada de peso;
- 10 metros de envergadura;
- Capacidade para transportar 1.000 litros de defensivos ou fertilizantes líquidos;
- Velocidade de até 150 km/h;
- Motor a combustão de alta autonomia.
Para efeito de comparação, boa parte dos drones agrícolas utilizados atualmente trabalha com reservatórios próximos de 40 litros, o que evidencia o salto operacional proporcionado pela nova proposta.
Operação será feita do solo e evoluirá para voos totalmente autônomos
Ao contrário da aviação agrícola tradicional, o AgroVANT não terá cabine para piloto. Inicialmente, a aeronave será operada remotamente por um profissional em solo, responsável apenas pelo monitoramento da missão previamente programada.
À medida que a tecnologia evoluir e as etapas regulatórias forem concluídas, a expectativa é que os voos se tornem totalmente autônomos.
Além do ganho tecnológico, a retirada da cabine permite aumentar o espaço destinado ao transporte dos insumos agrícolas e simplifica parte da estrutura da aeronave, favorecendo a eficiência operacional.
Investimento em inovação fortalece a aviação agrícola
A pesquisa teve início após o Governo do Paraná lançar um programa específico para aeronaves de pequeno porte dentro do Napi. O projeto recebeu R$ 2,7 milhões em investimentos por meio da Fundação Araucária, fortalecendo o ecossistema estadual de inovação voltado ao agronegócio.
Aviação agrícola continua crescendo no Brasil
Embora a chegada do AgroVANT represente uma inovação importante, a aviação agrícola tradicional segue em expansão no país.
Segundo dados citados na pesquisa, o Paraná ocupa atualmente a sétima posição nacional em frota de aviões agrícolas tripulados, com 141 aeronaves, correspondendo a 4,8% da frota brasileira, conforme levantamento baseado em informações da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Os números do Ministério da Agricultura mostram ainda que o estado possui 503 aeronaves agrícolas registradas, sendo:
- 122 aviões convencionais;
- 381 drones agrícolas.
Tecnologia amplia eficiência, mas cada ferramenta tem seu espaço
Além da pulverização, as aeronaves agrícolas também são utilizadas para distribuição de sementes, aplicação de fertilizantes, reflorestamento e até combate a incêndios florestais.
Especialistas do setor destacam que os aviões oferecem elevada capacidade operacional para grandes áreas, evitando o amassamento das lavouras, reduzindo a compactação do solo e permitindo aplicações em menor tempo. Já os drones continuam sendo alternativas bastante eficientes para áreas menores ou de difícil acesso.
Por outro lado, a aviação agrícola convencional exige investimentos mais elevados e depende de condições climáticas adequadas, além de apresentar restrições em áreas muito recortadas ou próximas de residências, mananciais e culturas sensíveis.
Mercado reforça tendência de modernização
A expansão da aviação agrícola acompanha o crescimento da mecanização e da agricultura de precisão no Brasil.
Dados da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag) mostram que o país registrou, em maio deste ano, cerca de 2,16 mil aeronaves agrícolas operacionais, enquanto informações do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) indicam que a frota brasileira alcançou aproximadamente 2,87 mil aeronaves em 2025, consolidando a atividade como uma infraestrutura estratégica para o agronegócio nacional.
A chegada de projetos como o AgroVANT sinaliza que o futuro da pulverização agrícola deverá combinar grande capacidade operacional, inteligência artificial, autonomia de voo e agricultura de precisão, ampliando a eficiência das operações e oferecendo novas alternativas tecnológicas aos produtores rurais.
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