“Barretos está perdendo a essência. Virou uma festa de influenciadores, infelizmente”: escolha de Jon Vlogs como porta-bandeira provoca milhares de críticas e abre debate sobre até onde o maior rodeio da América Latina pode ir para conquistar um novo público
A Festa do Peão de Barretos chegou à sua 71ª edição com números que ajudam a explicar por que qualquer decisão tomada dentro de sua arena ganha repercussão nacional. São 11 dias de programação, entre 20 e 30 de agosto, em uma área superior a 2 milhões de metros quadrados, reunindo rodeio, música, cultura e entretenimento em uma escala que poucos eventos brasileiros conseguem alcançar. A expectativa da associação Os Independentes, responsável pela realização da festa desde 1956, é alcançar 990 mil visitas nesta edição. A programação reúne mais de 120 atrações musicais, enquanto as competições devem receber cerca de 3.500 competidores em nove modalidades, distribuindo mais de R$ 1,5 milhão em premiações.
Barretos deixou há muito tempo de ser somente uma festa regional. Tornou-se uma das maiores vitrines do interior brasileiro e, principalmente, o palco mais desejado por quem vive profissionalmente do rodeio. Estar naquela arena significa chegar ao lugar que gerações de competidores sonharam alcançar. É justamente por carregar tamanho peso simbólico que uma escolha feita na abertura da edição de 2026 provocou uma enxurrada de manifestações nas redes sociais e trouxe à tona uma discussão que vai muito além de um nome: quem deve ocupar os espaços de maior representatividade dentro do rodeio?
Jon Vlogs e a abertura de Barretos
Um dos personagens escolhidos para participar da abertura foi Jon Vlogs, influenciador digital que construiu uma audiência gigantesca nas redes sociais, superando a marca de 10 milhões de seguidores somente no Instagram. Jon também vem se aproximando cada vez mais do universo rural e country, mostrando esse ambiente em seus conteúdos e frequentando eventos ligados ao agro e ao entretenimento sertanejo.
Essa aproximação, somada ao alcance impressionante de suas plataformas, ajuda a apresentar elementos desse universo a uma audiência predominantemente jovem, que muitas vezes não possuía qualquer contato anterior com rodeios.
E é importante deixar isso claro: não existe problema algum em Jon Vlogs estar em Barretos. Pelo contrário. Influenciadores com milhões de seguidores podem ser extraordinariamente importantes para o rodeio. Eles levam a festa para públicos aos quais talvez uma transmissão esportiva tradicional jamais chegasse, mostram bastidores, despertam curiosidade e podem fazer um jovem que nunca assistiu a uma montaria começar a acompanhar o esporte. O questionamento que surgiu nas redes sociais não está necessariamente relacionado à presença do influenciador, mas ao papel de representação que lhe foi concedido durante um dos momentos mais simbólicos da festa.
O que está acontecendo com o rodeio?
Uma coisa é dar espaço para um influenciador dentro da festa, convidá-lo para ações de entretenimento, aproximá-lo dos competidores ou utilizar sua audiência para divulgar o evento. Outra é colocá-lo numa posição de representação simbólica de uma modalidade na qual ele não construiu sua trajetória profissional. O rodeio possui atletas, peões e competidores que dedicaram a vida inteira ao esporte.
Existem campeões, tropeiros, salva-vidas, locutores, laçadores e famílias inteiras cuja história se confunde com a evolução do rodeio brasileiro. Muitos passaram décadas viajando pelo país, arriscando a própria integridade física e vivendo exclusivamente daquele ambiente sem jamais receber uma fração da visibilidade hoje proporcionada pelas redes sociais.
É esse o ponto central da discussão: não é sobre Jon Vlogs. É sobre representatividade. Se a intenção é utilizar a gigantesca audiência de um influenciador para divulgar o rodeio, excelente. Que ele faça stories com os competidores, mostre como funciona uma montaria, conte quem são os atletas, mostre quanto treinam, quanto viajam, quais riscos enfrentam e quanto custa disputar uma temporada. Imagine o poder de uma audiência superior a 10 milhões de pessoas sendo direcionada para apresentar ao Brasil os nomes dos competidores que estão dentro da arena. Isso seria influência trabalhando a favor do protagonismo do esporte, em vez de disputar espaço com ele.
Eu acredito no poder dos influenciadores e considero inegável o quanto eles podem ajudar a dar visibilidade a Barretos. Se pessoas que nunca tiveram qualquer relação com o campo estão comprando uma bota, colocando um chapéu e indo assistir a uma montaria, estamos ampliando a audiência do rodeio. Seja do meio ou não, estamos fomentando, prestigiando e levando esse universo para mais pessoas. Agora, quando um lugar de enorme destaque, que poderia pertencer a um atleta ou a um personagem histórico da modalidade, passa a ser ocupado por alguém cuja principal credencial é o alcance digital, é compreensível que quem vive o rodeio questione essa decisão. Quando tudo vira influência, existe o risco de começarmos a retirar espaço justamente daqueles que construíram a história que agora virou tendência.
Barretos quer furar a bolha — e isso precisa ser considerado
Existe, entretanto, um contraponto importante. Barretos está deliberadamente tentando conquistar pessoas que não pertencem ao público tradicional do sertanejo e do rodeio. A edição de 2026 representa uma espécie de nova fase do evento. Nos camarotes e no camping, que comporta até 20 mil pessoas diariamente, ao menos 30% do público não frequentou a festa nos últimos anos. O perfil também está mudando: na edição de 2025, o visitante típico tinha idade média de 36 anos, ensino superior completo, renda familiar de R$ 14 mil e permanecia cinco dias no parque. Agora, a organização percebe mais jovens e estreantes chegando a Barretos, muitos deles justamente impulsionados pelas redes sociais.
Sob essa perspectiva, trazer Jon Vlogs e outros grandes influenciadores faz sentido. Barretos precisa continuar crescendo, conquistar uma geração que talvez conheça os maiores criadores de conteúdo do país, mas seja incapaz de citar o nome de um campeão brasileiro de montaria em touros. O próprio Parque do Peão acompanha essa transformação. O evento funciona praticamente como uma cidade durante 11 dias, com dezenas de shows, gastronomia, camping, feira comercial, experiências e atrações que vão muito além das montarias. Furar a bolha não é o problema. Talvez seja justamente uma das estratégias necessárias para manter Barretos gigantesco pelas próximas décadas.
A pergunta, portanto, precisa ser feita de outra maneira: para furar essa bolha, Barretos precisa entregar espaços simbólicos de sua própria tradição a quem acaba de chegar? Não parece necessário. É perfeitamente possível modernizar sem apagar a origem, receber influenciadores sem retirar o protagonismo dos competidores e, principalmente, utilizar justamente o alcance desses criadores para transformar os atletas do rodeio em personagens conhecidos fora desse universo. Talvez aí esteja a oportunidade que ainda precisa ser melhor aproveitada.
Mais de 10 mil comentários e uma pergunta que se repete
A dimensão da reação mostra que essa discussão não está restrita a um pequeno grupo de tradicionalistas. Somente na publicação do perfil oficial da PBR Brazil, são mais de 10 mil comentários, muitos deles questionando a representatividade do influenciador naquele papel. Uma pergunta apareceu repetidamente, escrita de diferentes maneiras: “Com todo respeito ao trabalho dele, o que Jon Vlogs representa para o rodeio?”
Outros comentários avançaram para uma discussão antiga entre profissionais do setor. Enquanto existe investimento para atrações e presenças capazes de gerar visibilidade, trabalhadores fundamentais para a realização dos rodeios frequentemente reclamam de falta de valorização. Peões, salva-vidas, animadores de arena, laçadores, porteiros e outros profissionais foram lembrados nas manifestações. A crítica, em essência, é simples: o problema não seria buscar visibilidade, mas direcionar os maiores holofotes para quem já possui enorme visibilidade, em vez de aproveitar esse espaço para apresentar ao grande público quem efetivamente vive do esporte.
“Existem tantos peões antigos que fizeram história no rodeio para serem homenageados”, resumiu uma das manifestações. Outra crítica foi ainda mais incisiva: “Barretos está perdendo a essência. Virou uma festa de influenciadores, infelizmente.” Houve também quem relatasse ter entrado no perfil de Jon Vlogs depois da abertura para tentar entender sua relação com o agro e com a modalidade. Outros defenderam que influenciadores presentes na festa poderiam aproveitar sua audiência justamente para mostrar as competições, os peões e a cultura do rodeio, em vez de concentrar seus conteúdos somente na festa, nos camarotes e no entretenimento.
Agro, country e rodeio não são exatamente a mesma coisa
Outro ponto bastante presente nas manifestações foi a necessidade de estabelecer uma diferença entre agro, universo country e rodeio profissional. Evidentemente são ambientes profundamente conectados, mas não são sinônimos. Ter uma propriedade rural, frequentar eventos agropecuários, usar chapéu ou gostar de rodeio não transforma automaticamente alguém em representante da modalidade esportiva. Da mesma maneira que frequentar estádios não transforma uma celebridade em representante do futebol, gostar de rodeio não significa carregar a história de quem vive profissionalmente dele.
O Brasil possui antigos competidores, campeões e famílias que dedicaram décadas à modalidade. São personagens capazes de falar sobre como o esporte começou, como mudou, quais dificuldades enfrentou e o que existe por trás daqueles oito segundos que o público vê dentro da arena. Em um momento no qual o próprio rodeio continua sendo alvo de questionamentos de grupos contrários à modalidade, essa representatividade ganha ainda mais importância. Colocar na vitrine pessoas que conhecem profundamente o esporte também significa fortalecer sua capacidade de explicar suas regras, sua história, o manejo dos animais e sua profissionalização.
Furar a bolha sem perder a essência
Talvez esse seja o verdadeiro debate provocado pela abertura de Barretos. Não precisamos escolher entre tradição e modernidade. O rodeio precisa das redes sociais, precisa dos jovens, precisa dos influenciadores e precisa conversar com pessoas que nunca pisaram numa arena. Se Jon Vlogs consegue apresentar Barretos a milhões de jovens que jamais assistiram aos oito segundos de uma montaria em touros, isso possui enorme valor. Eles são bem-vindos. O problema começa quando confundimos alcance com representatividade.
Influência pode ser medida em seguidores, visualizações e engajamento. Representatividade é algo diferente: é construída com história, dedicação e pertencimento. Barretos tornou-se o maior rodeio da América Latina porque milhares de pessoas trabalharam durante décadas para construir essa história. Alguns ficaram famosos, mas a maioria jamais teve milhões de seguidores. São competidores que atravessaram o país dentro de carros e caminhonetes atrás de uma premiação, tropeiros que selecionaram animais, salva-vidas que entraram na frente de touros para proteger atletas, locutores, juízes, porteiros, laçadores, profissionais de manejo e famílias que entregaram gerações ao esporte.
É justamente essa história que tornou Barretos desejável para os influenciadores de hoje. Por isso, a expansão do evento não deveria exigir uma escolha entre os dois mundos. Furar a bolha é necessário. Perder a essência, não. Que venham os influenciadores, que tragam seus milhões de seguidores, que façam vídeos, stories e transmissões e mostrem Barretos para uma geração inteira. Mas que esse alcance também seja usado para apresentar os atletas, preservar a história e aumentar o valor daqueles que fazem o rodeio acontecer.
Porque tendências mudam, algoritmos mudam e influenciadores mudam. A arena permanece.
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