Bem-estar das galinhas, vem aí mudanças na forma de criação

Bem-estar das galinhas, vem aí mudanças na forma de criação

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Galinha olhando fixamente
Foto: hobbyfarms.com

Pelas galinhas “livres”

Na esteira de uma tendência mundial, gigantes do setor de alimentação que atuam no Brasil anunciaram recentemente que só utilizarão ovos de galinhas criadas fora de gaiolas – ou cage free. A onda do bem-estar animal já pegou gigantes como McDonald’s, Burger King, Walmart e Sodexo. A substituição será gradativa – em alguns casos até 2025. Mas as mudanças impostas pelo mercado consumidor devem impactar o setor de granjas, que criam mais de 95% das cerca de 100 milhões de galinhas poedeiras presas.

De acordo com o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, as gaiolas em bateria têm um espaço menor do que uma folha de papel A4 para cada galinha. Em cada uma, são confinadas de cinco a dez aves juntas. O sistema é considerado tão cruel que já foi proibido em todos os países membros da União Europeia, Nova Zelândia, Butão e seis estados norte-americanos. Na Índia, a maioria dos estados declarou que o uso de gaiolas viola a legislação federal anti-crueldade e o país discute uma proibição nacional.

A InternationalMealCompany (IMC) – conglomerado de empresas do ramo alimentício e dona de grandes marcas como Frango Assado, Viena, Brunella, entre outras – foi uma das organizações que anunciou o abandono dos ovos de galinhas engaioladas, nos restaurantes brasileiros. O prazo é até 2022.“Conversamos com fornecedores e as principais ONGs que defendem a causa para construir um plano atingível e com metas possíveis”, explica o seu CEO Brasil, Pierre Albert Berenstein.

De acordo com ele, a principal dificuldade da empresa no processo foi encontrar fornecedores que consigam suprir a demanda, além de cumprir a legislação sanitária exigida pelo negócio. “Precisamos desenvolver fornecedores de ovos líquidos, formato que usamos em razão dos padrões para garantir a segurança alimentar dos nossos consumidores, que cumpram as exigências cagefree e que atendam a nossa demanda”, detalha.

Diálogo

Por trás da decisão de grandes empresas abandonarem os ovos de galinhas engaioladas, está o trabalho de entidades como a Mercy For Animals. Vice-presidente da entidade no Brasil, Lucas Alvarenga, diz que a intenção é fazer as companhias refletirem sobre a redução do sofrimento dos animais. “Apontamos todos os benefícios da mudança para um sistema livre de gaiolas e às exigências da população”, explica.

Ele detalha que a criação das galinhas poedeiras livres, apesar de não eliminar completamente seu sofrimento durante a vida, permite melhorias de seu bem-estar. Como consequência, há uma redução do nível de estresse e, consequentemente, do uso de antibióticos. “Apesar da qualidade dos ovos ser maior, é importante ressaltar que esta demanda por mudança, que vem do consumidor, não visa aspectos de saúde, e sim de redução de crueldade animal”, afirma.

Apesar da preocupação crescente, a fiscalização do bem-estar na cadeia de produção de alimentos de origem animal ainda é pequena. Na opinião do vice-presidente da Mercy For Animals, só deve aumentar com a consciência da população e, por conseguinte, da pressão sobre o tema. “Há milhares de granjas pequenas e de médio porte que não possuem qualquer controle de qualidade, além das muitas grandes não cumpre quase nada do que seria exigido segundo as normas atuais de bem-estar animal”, descreve.

Galinhas pastando grama
Foto: expobedford.com

Transição

Alvarenga afirma que o desafio das granjas para se adaptarem à demanda por galinhas livres estão relacionamentos basicamente à adaptação estrutural. Entre elas, a necessidade de adaptar o galpão para a utilização de cama, poleiros e ninhos. “Experiências americanas e europeias provam que esses sistemas podem ter grande escala e custos similares aos da produção em gaiolas, tudo isso aliado às exigências do consumidor”, diz.

Entre os produtores brasileiros que conseguiram êxito no sistema livre de gaiolas está a paulista Korin. A empresa se baseou na filosofia de Agricultura Natural, preconizada pelo filósofo japonês MokitiOkada. A coordenadora de Ovos, Juliana Silva, explica que as poedeiras são criadas livres de gaiolas desde o nascimento e não passam por confinamento em nenhum momento do ciclo de produção.

“Com certeza o maior desafio é a questão de densidade de alojamento. No sistema de produção em gaiolas pode-se trabalhar com densidades de alojamentos altíssimas, cerca de nove-dez aves/gaiola, já no sistema livres de gaiolas pode-se trabalhar com no máximo sete aves/metro quadrado. Ou seja, no sistema convencional pode-se colocar uma maior quantidade de aves dentro do galpão”, avalia.

Para o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra, a grande vantagem do sistema em baterias é ocupar uma área significativamente menor que outros sistemas. Assim, produtores com pequenas áreas de produção não teriam como migrar para um sistema que demande área maior, uma vez que existem regras sanitárias de distância entre a produção e outras propriedades, rios, estradas, por exemplo.

“Muitas dessas propriedades com sistemas de gaiolas fechariam se tivessem que produzir cage-free. Fa

Foto: expobedford.com

talmente, poderíamos enfrentar um problema de desabastecimento, impactando no fornecimento e, consequentemente, na segurança alimentar da população. A utilização de mais terra exigiria compra de novas propriedades e novas licenças ambientais que demorariam muitos anos para serem obtidas”, descreve.

Modelos de criação

Cage free: Não adota gaiolas para a produção de ovos. A opção proporciona qualidade à vida produtiva da ave, atendendo ao conceito de bem-estar da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, na sigla em inglês). Isso significa “um animal que está seguro, saudável, confortável, bem nutrido, livre para expressar comportamentos naturais e sem sofrer de estados mentais negativos, como dor, frustração e estresse”.

Gaiolas em bateria: Têm um espaço menor do que uma folha de papel A4 para cada galinha. Em cada uma, são confinadas de cinco a dez aves juntas. O sistema já foi proibido em todos os países membros da União Europeia, Nova Zelândia, Butão e seis estados norte-americanos. Na Índia, a maioria dos estados declarou que o uso de gaiolas viola a legislação federal anti-crueldade.

Diene Batista*

Reprodução do site Revista Safra

*A íntegra desta reportagem está disponível na edição de março da Revista Safra, a partir da página 35.