Bioestimulantes: oportunidades na produção leiteira

Muitos produtos bioestimulantes e suas associações apresentam eficácia comprovada, sobretudo em culturas de maior interesse comercial.

O uso de bioinsumos na agricultura brasileira deixou de ser uma tendência para se transformar numa realidade indiscutível na safra 2020/2021. A procura incessante no mundo por alimentos saudáveis “turbinada” pela pandemia da Covid-19; a preocupação generalizada com impactos ambientais da produção de alimentos e o alto custo dos insumos químicos forjaram o ambiente ideal para a “escalada dos biológicos”.

Enquanto o crescimento do setor no mercado europeu tem sido de 12-17% ao ano, no Brasil observou-se em 2021 um incremento de 37% em relação ao ano anterior, com movimentação de R$ 1,7 bilhão e aumento significativo no número de registros (Venâncio, 2021). Neste panorama, destaca-se na produção leiteira o emprego de bioestimulantes como alternativa de aumento da produção de pastagens e cultivos de grãos, melhoria de sua qualidade e substituição de agroquímicos.

Existe uma gama de produtos que pode ser utilizada como bioestimulantes, como é o caso dos fitohormônios, enzimas, aminoácidos, microrganismos solubilizadores de fósforo (P) e potássio (K), microrganismos protetores, bactérias promotoras de crescimento e fixadoras de nitrogênio (N), fungos micorrízicos, vitaminas, ácidos húmicos e fúlvicos, extratos de algas, fosfitos, silicatos, extratos vegetais, óleos essenciais, entre outros.

Muitos desses produtos e suas associações apresentam eficácia comprovada, sobretudo em culturas de maior interesse comercial (Figura 1), e uma infinidade de outras possibilidades tem surgido diariamente.

Figura 1. Benefícios da co-inoculação da soja com Azospirillum brasilense e Bradyrhizobium spp.

Fonte: Barbosa et al. (2021).

O que são bioestimulantes?

São reguladores vegetais, compostos bioquímicos, extratos de algas, e microrganismos e suas misturas que, independentemente de seu teor de nutrientes, estimulam uma maior eficiência nutricional, tolerância a estresses ambientais e outras características desejáveis das culturas (Du Jardin, 2015). Estes resultados se devem à promoção do equilíbrio estrutural e hormonal das plantas, que favorece a expressão de seu potencial produtivo.

Por que utilizar bioestimulantes?

Os sistemas produtivos atuais se caracterizam pelo alto uso de insumos químicos, com o objetivo de melhorar a produtividade das culturas, sem considerar a complexidade da atividade biológica. De modo geral, este objetivo é atingido, mas ao não priorizar o equilíbrio solo-planta-animal tem-se, como consequência, o uso excessivo de agroquímicos, altos custos econômicos e ambientais, e impactos na saúde humana, na qualidade dos alimentos e na sustentabilidade dos sistemas.

Diferentemente do citado acima, o uso de bioestimulantes induz a melhoria do ambiente como um todo e cria oportunidades de redução do uso de adubos químicos e defensivos agrícolas, com benefícios até mesmo para estes produtos, devido ao aumento da eficiência, à possibilidade de aumento de seu tempo de vida, e incremento da oferta de alimentos mais saudáveis.

Estes mecanismos estão em íntima sintonia com as premissas da agricultura regenerativa: uma atividade produtiva que se baseia em estimular a expressão de mecanismos e processos naturais, e que se utiliza de insumos externos (quando necessário) e demais meios tecnológicos como ferramentas de otimização do uso dos recursos disponíveis.

Quais são os efeitos dos biostimuantes na produção leiteira?

Ao melhorar a eficiência de uso dos recursos ambientais e incentivar relações positivas entre os diferentes componentes dos ecossistemas produtivos, os bioestimulantes têm, entre outros, os seguintes efeitos:

1– aumento da produção vegetal / ha, por meio da aplicação isolada ou conjunta de bactérias fixadoras de N e vitaminas, por exemplo, como apresentado na Tabela 1.

Tabela 1. Teores de clorofilas a (CLA), b (CLB) e total (CLT), produção de massa verde (MV) e seca (MS) em plantas de braquiária (Urochloa decumbens) tratadas com A. brasilense e tiamina aos 50 dias de rebrote.

Melhorias da capacidade fotossintética, pelo aumento dos teores de clorofila, podem potencializar os efeitos da fixação simbiótica de N, resultando em aumentos importantes da produção de MS. Como consequência, é possível ter incrementos da capacidade de suporte da propriedade, devido à maior produção de forragens e grãos, sem incremento do custo / litro de leite produzido.

2- melhoria da qualidade dos volumosos produzidos, por meio do incremento de parâmetros como a degradabilidade de proteína bruta, pelo uso de biorreguladores associados à adubação foliar, conforme exemplificado na Figura 2.

Figura 2. Degradabilidade da proteína bruta do capim-elefante (Pennisetum purpureum cv. Napier), submetido a quatro tratamentos (Trat) com bioestimulantes, com corte aos 70 dias de rebrote.

Nesse caso, biorreguladores e nutrientes prolongam o estádio vegetativo das plantas, ampliando sua palatabilidade e digestibilidade, ao passo que inibidores de etileno se somam a este esforço ao retardar o início da senescência.

Outra combinação promissora é a aplicação conjunta de bioestimulantes, N e micronutrientes, que ao induzir a divisão e alongamento celular, pode resultar em incremento da massa seca de folhas em relação aos colmos, de forma concomitante ao aumento expressivo da produção de MS (Tabela 2).

Tabela 2. Produção de forragem (PF), folhas (PFL) e colmos (PC), e relação folha/colmo (F/C) de Urochloa híbrida cv. Mulato II (Convert HD364) em função de diferentes tratamentos.

A maior participação de folhas na composição da matéria seca melhora o valor nutritivo da forragem consumida. A alta relação folha/colmo facilita a apreensão da forragem pelo animal e resulta no aumento da ingestão de energia digestível, podendo ainda incrementar o teor de aminoácidos e o valor proteico das pastagens. Com isso, se observa redução da taxa de passagem, e melhoria do consumo voluntário e da produção/vaca/dia, sem aumento do uso de ração concentrada.

3- incremento da disponibilidade de nutrientes e da produção resultante, seja pela maior fixação de N atmosférico (Figura 3a) e/ou absorção de P e K, seja pelo melhor aproveitamento dos nutrientes nativos do solo, devido ao desenvolvimento mais importante do sistema radicular.

Figura 3. Massa seca (a) e acúmulo de N (b) da parte aérea em braquiária (Urochloa brizantha cv. Marandu) com e sem inoculação de A. brasilense.

Mesmo não observando-se acúmulo importante de N na parte aérea da planta no trabalho referido na Figura 3 (b), devido à dinâmica de acúmulo/utilização de N pelas plantas, o incremento observado indica a importante contribuição desses organismos na fixação de N atmosférico, mesmo em cultivos de gramíneas.

Como resultado, pode-se obter, inclusive em áreas com baixa disponibilidade de nutrientes no solo, maiores produções de pastos e grãos sem incremento da utilização de fertilizantes externos à propriedade (Figura 4), com consequente redução dos custos.

Figura 4. Respostas de milho à inoculação de A. brasilense.

Fonte: Barbosa et al. (2022).

O que o futuro nos reserva: oportunidades ou desafios?

Disponibilidade a cada dia maior de insumos bioativos, possibilidades de ganhos de produção forrageira e de grãos, melhoria da qualidade dos alimentos produzidos, e redução de custos são pontos de destaque no uso de bioestimulantes que apontam para benefícios mais amplos ao produtor que busca investir neste sentido.

Os maiores desafios para a adoção destas tecnologias são a mudança inerente de paradigma e o conhecimento necessário, uma vez que os custos relacionados são relativamente baixos em relação aos produtos convencionais. Mas, para onde vamos com tudo isso?

Diferentes evidências indicam perspectivas mais do que promissoras para os “biológicos”:

  • Demanda crescente por produtos diferenciados (orgânicos, ecológicos e regenerativos);
     
  • Adesão quase consensual de grandes empresas a princípios ESG (ambientais, sociais e de governança) e a compromissos ambientais, com ênfase para desmatamento zero e carbono neutro;
     
  • Uso generalizado de certificações para o acesso a mercados, juros mais baixos e bonificações.

Esse processo está em andamento e, por si só, representa grandes oportunidades, em um mundo que está mudando muito rápido, com forte apelo por práticas e produtos sustentáveis.

Sobre o Instituto de Agricultura Regenerativa

O Instituto de Agricultura Regenerativa é uma associação privada, sem fins lucrativos, engajada na consolidação de um novo paradigma: a produção de alimentos saudáveis, ricos em nutrientes e sem resíduos de substâncias tóxicas pode promover a restauração de processos e relações naturais, gerando benefícios socioeconômicos e ambientais. Como tal, seus efeitos se assemelham ao que ocorre em ambientes naturais, onde os diferentes indivíduos interagem, de forma sinérgica e complementar.]

Sem deixar de reconhecer a contribuição de práticas como o preparo mínimo do solo e o uso de culturas de cobertura em substituição aos agrotóxicos como contribuições efetivas da agricultura orgânica, a agricultura regenerativa dá um passo à frente: incorpora uma abordagem holística da produção agrícola, embasada em princípios de hierarquia ecológica e práticas conservacionistas. Com isso, regeneração, manutenção e aumento da resiliência da produção de alimentos se aliam à melhoria da qualidade de vida de produtores e consumidores de alimentos, tanto do meio rural como de grandes aglomerações urbanas.

Fonte: Instituto de Agricultura Regenerativa

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