Bioinsumos à base de bactérias avançam 391% e movimentam mais de US$ 400 milhões no Brasil

Área potencial tratada com produtos à base dessas bactérias chegou a 37,2 milhões de hectares em 2025; levantamento identificou 297 produtos comerciais e 126 cepas no mercado brasileiro

Produtos de controle biológico formulados com bactérias do gênero Bacillus ampliaram fortemente sua presença na agricultura brasileira nos últimos cinco anos. A área potencial tratada passou de 7,57 milhões de hectares em 2020 para 37,19 milhões em 2025, crescimento de aproximadamente 391%. No mesmo período, o faturamento avançou de US$ 114,31 milhões para US$ 403,17 milhões, alta de 252%. Os dados são de estudo realizado por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Kynetec Brasil e publicado no Brazilian Journal of Microbiology.

Em 2025, os produtos contendo Bacillus responderam por 43% da área potencial tratada com agentes de controle biológico e por aproximadamente 47% do faturamento desse segmento. O levantamento mostra que essas bactérias ganharam espaço em diferentes estratégias de proteção de cultivos, desde tratamento de sementes e aplicações no solo até uso no sulco de plantio e pulverizações foliares. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Área potencial tratada com Bacillus quase quintuplicou

A expansão foi contínua ao longo do período analisado. A PAT dos produtos à base de Bacillus alcançou 7,57 milhões de hectares em 2020, 9,59 milhões em 2021, 14,10 milhões em 2022, 18,09 milhões em 2023, 25,99 milhões em 2024 e 37,19 milhões em 2025.

Somente entre 2024 e 2025, o indicador aumentou aproximadamente 35%. No conjunto de produtos contendo agentes biológicos de controle, a PAT cresceu de 65,72 milhões para 86,93 milhões de hectares no mesmo intervalo, avanço de cerca de 32%.

A expressão “área potencial tratada” exige atenção. Ela não equivale à área agrícola física do País. O indicador considera os tratamentos fitossanitários realizados nas culturas, de modo que um mesmo hectare pode participar mais de uma vez da contabilização quando recebe diferentes aplicações ao longo do ciclo produtivo. O próprio estudo informa que a área agrícola considerada em 2025 era de cerca de 96,1 milhões de hectares, enquanto a PAT total de produtos de proteção de cultivos superava 2,48 bilhões de hectares.

Essa diferença é importante para evitar a interpretação de que existam 37,2 milhões de hectares exclusivos cultivados com produtos à base de Bacillus. O dado mede a intensidade e a abrangência do uso dessas tecnologias dentro do manejo agrícola.

Faturamento passou de US$ 114 milhões para US$ 403 milhões

A evolução comercial acompanhou o aumento das aplicações. O faturamento dos produtos contendo Bacillus saiu de US$ 114,31 milhões em 2020 para US$ 118,30 milhões em 2021, US$ 186,72 milhões em 2022, US$ 290,12 milhões em 2023, US$ 362,02 milhões em 2024 e US$ 403,17 milhões em 2025.

Isso representa crescimento acumulado de aproximadamente 252% em cinco anos.

No mesmo levantamento, todo o mercado de produtos contendo agentes de controle biológico movimentou US$ 855,68 milhões em 2025. Dessa forma, os produtos com Bacillus responderam por aproximadamente 47% das vendas mensuradas pelo estudo.

Outra pesquisa da Kynetec ajuda a dimensionar o avanço comercial dos produtos biológicos no País. Na safra 2024/25, o mercado brasileiro de biodefensivos atingiu R$ 4,35 bilhões, com destaque para bionematicidas, bioinseticidas e biofungicidas. As metodologias dos levantamentos não são idênticas, portanto os valores não devem ser somados ou comparados diretamente.

Quase 300 produtos já utilizam essas bactérias

Foto: Lilian Alves/Embrapa

O estudo identificou 297 produtos comerciais contendo Bacillus registrados e comercializados no Brasil até 2025, reunindo 126 cepas. Ao todo, 42 empresas possuíam registros de produtos enquadrados no levantamento.

Entre as espécies com maior diversidade de cepas estavam Bacillus subtilis, com 31; Bacillus amyloliquefaciens, com 27; Bacillus velezensis, com 25; além de B. licheniformis e B. pumilus, ambas com dez.

Em área potencial tratada, B. amyloliquefaciens ocupava a principal posição em 2025, com aproximadamente 13,87 milhões de hectares. Em seguida apareciam B. subtilis, com 3,35 milhões; B. pumilus, com 2,86 milhões; Cytobacillus firmus, com 1,62 milhão; B. velezensis, com 1,59 milhão; e B. methylotrophicus, também próximo de 1,59 milhão.

O Bacillus thuringiensis, utilizado principalmente no controle de insetos e também presente em produtos com finalidade nematicida, chegou a 4,20 milhões de hectares de PAT em 2025.

Bacillus amyloliquefaciens lidera também em faturamento

A importância de B. amyloliquefaciens aparece igualmente nos números financeiros. Produtos contendo essa espécie movimentaram US$ 172,01 milhões em 2025, valor superior ao registrado individualmente pelas demais espécies detalhadas no estudo.

B. subtilis respondeu por US$ 36,27 milhões, enquanto B. pumilus movimentou US$ 25,80 milhões. B. velezensis chegou a US$ 15,85 milhões e B. methylotrophicus, a US$ 13,49 milhões.

Já os produtos contendo B. thuringiensis movimentaram aproximadamente US$ 37,43 milhões naquele ano.

No Brasil, bactérias desse grupo também vêm sendo pesquisadas e empregadas em outras funções agrícolas. Estudos anteriores avaliaram, por exemplo, o uso de Bacillus subtilis e Bacillus licheniformis tanto no controle de nematoides quanto na promoção do desenvolvimento das plantas, tema abordado em pesquisa sobre bioinsumos e crescimento do tomateiro.

Por que Bacillus ganhou espaço no manejo agrícola?

Uma das características que favorecem o uso agrícola dessas bactérias é a capacidade de várias espécies de produzir endósporos, estruturas resistentes que auxiliam o microrganismo a permanecer viável diante de condições ambientais desfavoráveis. Essa característica também contribui para o desenvolvimento de formulações comerciais mais estáveis.

A atuação contra organismos prejudiciais às plantas não depende de um único mecanismo. As cepas podem produzir compostos antimicrobianos, competir por espaço e nutrientes, interferir na comunicação entre determinados microrganismos e estimular respostas de defesa das próprias plantas.

Algumas cepas também apresentam características relacionadas à promoção do crescimento vegetal, incluindo efeitos sobre raízes e disponibilidade de nutrientes. Isso não significa, porém, que todas as espécies ou formulações tenham o mesmo comportamento agronômico.

Os produtos identificados pelo estudo possuem recomendações diferentes e podem ser utilizados em tratamento de sementes, aplicação foliar, aplicação no solo e sulco de plantio.

Nematoides estão entre os principais alvos

Entre os problemas fitossanitários para os quais existem produtos à base de Bacillus estão os nematoides-das-galhas, nematoides-das-lesões e nematoides-de-cisto, além de doenças como antracnose, mofo-branco, mofo-cinzento, mancha-alvo, tombamento e oídio.

O protagonismo dos nematoides também aparece em levantamentos comerciais do setor. Na safra 2024/25, os bionematicidas representaram 44% das vendas de biodefensivos avaliadas pela Kynetec, e produtos relacionados a Bacillus spp. tiveram participação relevante nessa categoria.

A oferta de tecnologias também vem se diversificando. O mercado brasileiro já possui, por exemplo, produtos registrados que combinam ação bionematicida e bioestimulante, evidenciando como cepas bacterianas passaram a ser exploradas em diferentes estratégias de manejo.

Consórcios de microrganismos também avançam

O levantamento identificou crescimento de formulações que utilizam mais de uma espécie de Bacillus ou combinam essas bactérias com fungos empregados no controle biológico.

Em 2025, produtos formados por consórcios exclusivamente de espécies de Bacillus alcançaram 5,56 milhões de hectares de área potencial tratada. A combinação de B. pumilus, B. subtilis e B. velezensis respondeu sozinha por cerca de 3,03 milhões de hectares.

Também foram identificadas combinações com fungos dos gêneros Trichoderma e Paecilomyces. Esse movimento indica uma ampliação do número de formulações que procuram reunir diferentes agentes biológicos em um mesmo produto.

Levantamento ouviu mais de 15 mil produtores e gestores por safra

Os dados de mercado foram obtidos por meio de entrevistas estruturadas realizadas presencialmente com produtores rurais e gestores de propriedades em importantes regiões agrícolas do Brasil. A amostragem leva em consideração culturas, regiões e diferentes perfis de propriedades.

Na temporada 2024/25 foram realizadas 15.708 entrevistas. Nas cinco safras anteriores, o levantamento registrou 15.404, 15.063, 14.839, 15.834 e 15.903 entrevistas, respectivamente.

Entre os participantes das pesquisas, a proporção que declarou utilizar agentes de controle biológico no manejo de pragas e doenças passou de 30% na safra 2019/20 para 52% em 2024/25. Esse percentual se refere à amostra pesquisada e não deve ser interpretado automaticamente como a proporção de todos os produtores rurais brasileiros.

Crescimento amplia opções, mas exige posicionamento correto no campo

O avanço de 7,57 milhões para 37,19 milhões de hectares de PAT mostra que as tecnologias baseadas em Bacillus assumiram dimensão comercial relevante dentro do controle biológico brasileiro.

Para o produtor, porém, a expansão do número de produtos também exige maior atenção à escolha da tecnologia. Cepas diferentes não são equivalentes, e desempenho, finalidade e recomendação dependem do microrganismo presente na formulação, do alvo, da cultura, da dose e da forma de aplicação.

Os próprios 297 produtos encontrados no estudo reúnem dezenas de cepas, espécies e combinações distintas. Por isso, a existência de Bacillus na composição não deve ser utilizada isoladamente como critério para definir um manejo.

Os números indicam que essa tecnologia deixou de representar apenas uma alternativa de nicho e passou a ocupar parcela importante do mercado de controle biológico. A tendência agora é de maior diversidade de cepas, combinações entre microrganismos e desenvolvimento de produtos direcionados a problemas específicos das lavouras, ao mesmo tempo em que o posicionamento agronômico continuará determinante para transformar expansão comercial em resultado efetivo no campo.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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