Escalas mais apertadas, principalmente entre frigoríficos menores, aumentam a disputa por boiadas; em São Paulo, negócios já aparecem a R$ 360/@, enquanto referências do mercado avançam e reforçam um ambiente mais firme para a arroba
O mercado do boi gordo voltou a mostrar força no físico, com compradores encontrando maior dificuldade para preencher as escalas de abate e negócios ocorrendo acima das referências médias em algumas regiões. Em São Paulo, principal praça formadora de preços do país, já existem relatos de operações a R$ 360 por arroba, embora ainda sejam negócios pontuais.
A movimentação chama atenção porque não se resume a uma simples alteração diária das cotações. O que aparece por trás da reação é uma combinação importante para o pecuarista: menor disposição de venda, escalas mais apertadas em parte da indústria e necessidade de alguns frigoríficos melhorarem as ofertas para conseguir animais terminados. Safras & Mercado e Scot Consultoria identificaram avanço do mercado paulista, ainda que com diferenças entre suas metodologias e referências.
Negócios a R$ 360/@ começam a aparecer em São Paulo
Segundo Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, frigoríficos de maior porte ainda trabalham com escalas relativamente confortáveis, inclusive pela utilização de animais provenientes de parcerias e confinamentos próprios.
A situação, entretanto, é diferente para algumas indústrias menores.
“Por sua vez, os frigoríficos de menor porte ainda são obrigados a negociar de maneira mais contundente, diante de um quadro mais complicado na composição de suas escalas de abate”, afirmou Iglesias.
Nesse ambiente, já foram registrados negócios pontuais a R$ 360/@ no interior paulista, embora a consultoria ressalte que esses valores ainda não representam a média do estado. Segundo Iglesias, a referência predominante permanece entre R$ 350 e R$ 355/@.
Os preços levantados pela Safras & Mercado também indicaram valorização nas principais praças:
Praça Boi gordo Referência anterior São Paulo R$ 352,67/@ R$ 351,00 Goiás R$ 343,57/@ R$ 342,86 Minas Gerais R$ 337,35/@ R$ 337,12 Mato Grosso do Sul R$ 348,30/@ R$ 347,84 Mato Grosso R$ 331,42/@ R$ 331,08
Ou seja, o movimento não ficou restrito a São Paulo: todas as cinco praças apresentadas pela consultoria registraram avanço, ainda que de diferentes magnitudes.
Scot também aponta alta da arroba
A Scot Consultoria identificou movimento semelhante no mercado paulista. No levantamento referente à quarta-feira (16), o boi gordo sem padrão exportação avançou R$ 3/@, chegando a R$ 348/@, enquanto o chamado “boi-China” subiu R$ 2/@, para R$ 352/@, considerando valores brutos e a prazo.
A reação foi ainda mais intensa entre as fêmeas. A novilha gorda avançou R$ 5/@, alcançando R$ 345/@, enquanto a vaca permaneceu estável em R$ 325/@.
As diferenças entre as referências da Scot e da Safras são naturais, já que cada consultoria trabalha com metodologia, momento de coleta e composição própria das informações. O ponto relevante é que ambas captaram um mercado mais firme em São Paulo.
Pecuarista segura a boiada e indústria precisa negociar
Um dos fatores por trás dessa sustentação é a estratégia dos vendedores.
A Scot destaca que pecuaristas vêm segurando a oferta de boiadas gordas à espera de preços melhores, comportamento que reduz a disponibilidade imediata de animais e dificulta as compras quando frigoríficos precisam avançar suas escalas.
É justamente nesse ponto que o mercado começa a ficar mais interessante.
Enquanto grandes frigoríficos possuem maior capacidade de administrar suas programações por meio de confinamentos próprios, contratos ou parcerias, unidades menores ficam mais expostas ao mercado spot. Quando a oferta disponível diminui, essas empresas precisam competir com mais intensidade pelo gado, abrindo espaço para negócios acima da média.
Isso ajuda a explicar por que aparecem operações de R$ 360/@ mesmo com as referências médias ainda abaixo desse patamar.
Físico e futuro mostram descompasso
Outro ponto destacado por Fernando Henrique Iglesias é a diferença entre os preços praticados no mercado físico e aqueles negociados nos contratos futuros.
Segundo o analista, o spread entre os vencimentos de setembro e outubro superou R$ 20/@ durante o pregão analisado.
Esse distanciamento merece atenção porque mostra que o mercado ainda trabalha com expectativas diferentes para o curto prazo. Para o pecuarista, o comportamento das escalas e a capacidade de resistência dos vendedores serão fundamentais para determinar se os negócios próximos de R$ 360 deixam de ser exceção e começam a se transformar em uma referência mais disseminada.
China volta ao radar do mercado
No mercado externo, a Agrifatto aponta que a China começa a demonstrar maior interesse pela retomada das importações, mirando o abastecimento a partir de 2027, quando passa a vigorar oficialmente uma nova cota de importação brasileira dentro da medida de salvaguarda implementada por Pequim.
Para a pecuária brasileira, o comportamento das compras chinesas continua sendo uma variável importante na formação das expectativas, principalmente pela influência do país sobre o direcionamento da carne destinada à exportação.
No curto prazo, porém, é a disponibilidade de boiadas que está dando o tom ao físico.
Até onde a arroba pode avançar?
Os negócios de R$ 360/@ ainda precisam ser interpretados com cautela: são operações pontuais e não significam que toda a praça paulista esteja negociando nesse nível. Mas revelam algo importante — há compradores dispostos a pagar mais quando precisam completar rapidamente suas escalas.
Para que a valorização ganhe consistência, será necessário observar principalmente a evolução das escalas de abate, o volume de animais ofertados pelos pecuaristas, o ritmo dos confinamentos, o comportamento das exportações e a capacidade do atacado em absorver novos reajustes.
Por enquanto, o mercado envia um sinal favorável ao vendedor: a pressão compradora aumentou em determinadas regiões e a resistência do pecuarista começa a produzir negócios acima das referências médias. Se essa oferta permanecer controlada, a disputa por boiadas pode continuar sustentando a arroba nos próximos dias.
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