Bolsonaro na Índia para vender etanol, que pode virar commodity e mexer...

Bolsonaro na Índia para vender etanol, que pode virar commodity e mexer com preço do açúcar

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Foto Divulgação. Fonte: Brasilagro

O presidente Jair Bolsonaro embarca esta semana para uma viagem de quatro dias à Índia onde deve assinar uma dúzia de acordos comerciais que promovam o agronegócio brasileiro.

A viagem de Bolsonaro à Índia ocorre após um pedido do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, que esteve em Brasília em novembro, na cúpula dos Brics – bloco formando por Brasil, Rússia, Índia China e África do Sul.

“Existe um interesse grande do governo indiano em uma aproximação maior com o Brasil. Há muitos territórios inexplorados”, diz Amit Kumar Mishra, cônsul da Índia em São Paulo.

Hoje, o setor agropecuário brasileiro fornece alimentos para cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo. Em 2019, o setor exportou US$ 96,8 bilhões – o equivalente a 43,2% do total produzido. A Ásia foi o principal destino, com 49%.

Ao fim de 13 meses de governo, só a equipe internacional da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, terá visitado 32 países nos 5 continentes. No período, foram abertos 26 novos mercados para produtos brasileiros – de arroz para o México a lácteos para a China.

Segundo país mais populoso do mundo – e com data marcada para ser o primeiro -, a Índia quer aumentar para 10% a quantidade de etanol em sua gasolina até 2022. Hoje, a mistura não chega a 7% e o país de 1,3 bilhão de habitantes quer aproveitar o conhecimento brasileiro para cumprir a missão.

Índia quer mais etanol

O governo indiano subsidia parte da produção de açúcar, a maior do mundo na última safra, principalmente de pequenos agricultores que dependem do produto para sobreviver. Os incentivos ligados ao transporte variam de cerca de mil rupias (US$ 14,6) por tonelada a 3 mil rupias (US$ 42,2) por tonelada. O governo também paga diretamente aos produtores de cana-de-açúcar 138 rupias (US$ 1,9) por tonelada.

Isso acaba distorcendo preços internacionais. Portanto, direcionar parte da cana para produzir etanol poderia reduzir esse volume e a oferta global de açúcar, aumentando os preços e atendendo a interesses brasileiros e indianos.

“Para o Brasil, os benefícios de um aumento da quantidade de etanol seriam regular os preços internacionais do açúcar e uma maior procura pelo biocombustível”, diz Amaury Pekelman, presidente da União Nacional da Bioenergia (Udop). “Além disso, o etanol é um aliado na mitigação da emissão dos gases de efeito estufa na atmosfera, o que melhoraria a qualidade do ar das metrópoles indianas.”

“Queremos transformar o etanol em uma commodity mundial e despertar o interesse em parceiros importantes que vejam esse produto como uma alternativa viável”, afirma o diplomata Flávio Bettarello, secretário adjunto de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Dalci Pagolin, adido agrícola na Índia, concorda que há benefícios aos dois parceiros. “Hoje o mercado de etanol está muito concentrado em EUA e Brasil, seria muito importante que fosse para outros países.”

O Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O produto brasileiro, à base de cana, é mais eficiente e ecológico do que o americano, feito de milho. O uso do etanol como combustível em larga escala, no entanto, ainda ocorre basicamente nesses dois países, o que limita sua transformação em uma commodity comercializada internacionalmente.

Política externa

Apesar dos pontos concorrentes, que podem criar mais rivalidades do que parcerias, Brasil e Índia têm um caminho aberto para explorar áreas complementares. Os setores de tecnologia e de medicamentos, nos quais os indianos têm grande conhecimento e um forte parque industrial, e o etanol, em que o Brasil é referência, são pontos de partida.

Outro fator comum importante que une os dois países é a liderança nacionalista de Bolsonaro e Modi. Ambos lideram grupos políticos conservadores, de tons populistas e com fortes elementos econômicos de caráter liberal – embora o premiê indiano seja mais pragmático em política externa e consiga manter boas relações com países que vivem às turras, como EUA e Irã.

Enquanto Modi defende a diplomacia multilateral, Bolsonaro cultiva certo desprezo pelo multilateralismo. Ainda assim, Brasil e Índia compartilham uma reivindicação histórica: uma vaga de membro permanente na eventual ampliação do Conselho de Segurança da ONU – embora o chanceler Ernesto Araújo tenha dito algumas vezes que a vaga “não é mais uma prioridade” do governo brasileiro.

Brasil forma time de adidos agrícolas

Para abrir as portas do mundo para os produtos nacionais, o Brasil conta com um grupo de 24 adidos agrícolas, cargo criado em 2009 para internacionalizar o campo brasileiro.

Quando o agrônomo Dalci Bagolin desembarcou em Nova Délhi, em janeiro de 2018, seus desafios não eram pequenos: desbravar um país com cultura diferente, lidar com um idioma desconhecido – o inglês não é falado por todo mundo na Índia – e identificar oportunidades para a agropecuária do Brasil no segundo maior mercado do mundo.

A missão de Dalci não é fácil. A Índia tem um histórico protecionista, desenvolvimentista e de muitas restrições cambiais, como o Brasil. Além disso, o agronegócio indiano é a imagem refletida do brasileiro. O país produz café, açúcar, aço, cimento e carne, que enfrentam dificuldades de escoamento em razão de uma infraestrutura precária – um panorama bastante familiar.

O desafio de Dalci, portanto, é encontrar interesses comuns entre os dois países. Já adaptado à Índia, ele tem dormido pouco na semana que antecede a chegada da missão presidencial brasileira, que ficará na Índia entre os dias 23 e 27. “Durmo todo dia depois das 2 horas da manhã”, conta.

Gestão de crises

Outra função importante dos adidos agrícolas – que se estende à diplomacia brasileira, em geral – é vender uma imagem positiva em momentos difíceis. A missão, neste caso, é contornar momentos de crise, como no caso dos incêndios da Amazônia, no ano passado, ou apagar o incêndio causado por declarações incômodas de lideranças políticas dentro do governo brasileiro.

“É preciso estar preparado para enfrentar uma quantidade muito diferente de desafios, que mudam conforme o país”, explicou a coordenadora dos adidos, Andressa Beig. Por isso, o cargo é visto hoje como imprescindível por diversos empresários do setor.

O cargo de adido agrícola foi criado pelo Ministério da Agricultura em 2009, durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, e mostra a importância que o agronegócio vem ganhando na diplomacia brasileira. O setor responde por cerca de um quarto do PIB do Brasil e está encarregado de manter a balança comercial superavitária.

Além dos adidos agrícolas, o Itamaraty tem outros 120 postos de representação no exterior na área de promoção comercial – o agronegócio é apenas um deles. Ainda que o Ministério da Agricultura apoie o setor há algum tempo, a criação do Departamento de Promoção do Agronegócio (DPA), em 2019, permitiu unir discussões de promoção e política comercial.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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