Tecnologia desenvolvida pelo grupo Beijing Dabeinong reúne três genes de resistência a insetos e dois ligados à tolerância a herbicidas; liberação pela CTNBio amplia a presença chinesa no mercado brasileiro de biotecnologia agrícola.
O Brasil abriu espaço para uma nova geração de soja geneticamente modificada desenvolvida por uma empresa chinesa. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou a liberação comercial da DBN9004 × DBN8002 × DBN8205, uma soja que reúne, em uma única plataforma genética, cinco genes associados à resistência a insetos e à tolerância aos herbicidas glifosato e glufosinato de amônio.
A tecnologia pertence à Beijing Dabeinong Biotechnology, braço de biotecnologia do grupo chinês Dabeinong, conhecido pela sigla DBN. Na prática, três eventos geneticamente modificados foram combinados para formar uma soja com uma espécie de “pacote múltiplo” de proteção. São os genes Cry1Ac, Cry2Ab2 e Vip3Aa, voltados principalmente ao controle de lagartas, além de cp4-epsps e pat, associados à tolerância aos herbicidas.
A decisão tem peso especial porque ocorre justamente no Brasil, maior produtor e exportador mundial de soja, onde a Conab projeta uma área próxima de 49,3 milhões de hectares na safra 2026/27, com produção estimada em 181,64 milhões de toneladas. Mais que uma nova opção genética, portanto, a aprovação coloca uma empresa chinesa diante de um dos maiores mercados de sementes e biotecnologia agrícola do planeta.
Cinco genes em uma única soja
O diferencial do novo material está no chamado empilhamento de eventos genéticos. Em vez de carregar apenas uma característica de interesse, a soja combina diferentes mecanismos de defesa e manejo.
O conjunto reúne:
- Cry1Ac – proteína Bt voltada ao controle de determinados insetos da ordem Lepidoptera;
- Cry2Ab2 – outro mecanismo de ação contra lagartas;
- Vip3Aa – proteína inseticida que amplia o espectro de controle sobre importantes lepidópteros;
- cp4-epsps – relacionado à tolerância ao herbicida glifosato;
- pat – associado à tolerância ao glufosinato de amônio.
Estudos científicos sobre o mesmo evento triplo descrevem a soja como resultado do cruzamento convencional entre três linhas geneticamente modificadas — DBN9004, DBN8002 e DBN8205 — reunindo as características em um único material.
É importante fazer uma distinção: a presença de cinco genes não significa resistência irrestrita a qualquer inseto ou herbicida. Cada gene tem uma função determinada, e o desempenho agronômico final depende da praga presente, da população de plantas daninhas, das condições de cultivo, do posicionamento das cultivares e do manejo adotado pelo produtor.
Pressão de lagartas ajuda a explicar estratégia para o Brasil
A lógica por trás da nova soja conversa diretamente com um dos principais desafios da agricultura tropical.
Segundo informações divulgadas pela desenvolvedora, a combinação genética busca ampliar o controle principalmente de lagartas que atacam lavouras em regiões de baixa latitude e elevada pressão de insetos, condição característica de boa parte do cinturão agrícola brasileiro. A empresa cita, entre os alvos, espécies do gênero Spodoptera e a lagarta Helicoverpa armigera.
Esse ponto ajuda a entender por que o Brasil é estratégico.
Ao contrário de ambientes onde o inverno interrompe grande parte do ciclo das pragas, o sistema brasileiro permite sucessivas culturas durante o ano. Soja, milho, algodão e outras espécies podem funcionar como uma sequência de hospedeiros para determinadas populações de insetos.
Isso eleva a importância de ferramentas capazes de trabalhar dentro de um manejo integrado de pragas, mas também aumenta a necessidade de preservar a vida útil das tecnologias.
Uma cultivar com três proteínas inseticidas pode ampliar as possibilidades de controle, porém não elimina a necessidade de áreas de refúgio, monitoramento de pragas e rotação de mecanismos de ação, medidas fundamentais para retardar a seleção de indivíduos resistentes.
Glifosato e glufosinato ampliam flexibilidade de manejo
Outra característica relevante é a possibilidade de trabalhar com dois herbicidas diferentes.
O gene cp4-epsps confere tolerância ao glifosato, enquanto o gene pat está relacionado à tolerância ao glufosinato.
Para o produtor, a combinação pode representar maior flexibilidade dentro dos programas de manejo de plantas daninhas.
Mas o benefício não deve ser interpretado como uma autorização para simplesmente aumentar a utilização de herbicidas.
O Brasil convive há anos com populações de plantas daninhas resistentes a determinados mecanismos de ação. Por isso, o valor agronômico de tecnologias com tolerâncias combinadas tende a estar justamente na possibilidade de integrá-las a programas mais amplos, incluindo rotação de princípios ativos, dessecação bem planejada, cobertura do solo e controle de escapes.
Sem essa estratégia, mesmo uma nova tecnologia pode sofrer aumento da pressão de resistência ao longo do tempo.
CTNBio avaliou biossegurança do evento
O pedido apresentado pela DBNBC Brazil envolveu a liberação comercial da soja, suas progênies, subcombinações e derivados.
A documentação entregue à CTNBio descreveu os genes envolvidos, as características agronômicas e as avaliações relacionadas à biossegurança.
O parecer favorável foi deliberado durante a 294ª Reunião Ordinária da CTNBio, realizada em 3 de setembro de 2026, e posteriormente publicado oficialmente. A autorização incluiu a liberação comercial e a isenção do monitoramento pós-liberação solicitada no processo.
A aprovação brasileira também se apoia em um histórico de análises anteriores dos eventos que formam o novo empilhamento.
A própria DBN informa que o evento DBN9004 foi aprovado no Brasil em 2023, o DBN8002 em 2024 e a combinação entre ambos em 2025. Agora, a incorporação do DBN8205 adiciona novas proteínas de resistência a insetos ao conjunto.
Estudos avaliaram segurança alimentar
Um trabalho científico publicado em 2025 na revista Food and Chemical Toxicology avaliou justamente a soja DBN9004 × DBN8002 × DBN8205.
No experimento, ratos Wistar receberam durante 90 dias dietas contendo diferentes concentrações da soja geneticamente modificada e de uma soja convencional utilizada como comparação.
Segundo os autores, não foram observadas diferenças significativas relacionadas ao tratamento em parâmetros como ganho de peso, consumo de alimento, análises sanguíneas, peso dos órgãos ou exames histopatológicos. O estudo concluiu que, nas condições avaliadas, não foram verificadas diferenças relevantes de segurança entre a soja GM e o material convencional comparador.
Esse tipo de avaliação integra o conjunto de evidências utilizado na análise de produtos geneticamente modificados, embora a autorização regulatória brasileira seja realizada de forma independente pela CTNBio.
Aprovação não significa sementes imediatamente disponíveis
Esse é um dos pontos mais importantes para compreender a decisão.
A liberação comercial pela CTNBio não significa necessariamente que o produtor brasileiro encontrará essa soja no mercado na próxima safra.
No comunicado divulgado ao mercado, a Dabeinong informou que, apesar da autorização brasileira para cultivo, a comercialização depende ainda de autorizações de importação em mercados consumidores da soja produzida no Brasil.
Essa exigência é estratégica.
Como grande parte da soja brasileira é exportada, empresas de sementes normalmente buscam sincronizar a aprovação de novos eventos no país produtor com autorizações nos principais destinos comerciais. Isso reduz o risco de problemas envolvendo cargas contendo eventos ainda não autorizados no mercado comprador.
Somente depois dessa chamada sincronização regulatória internacional, além do desenvolvimento das cultivares adaptadas às diferentes regiões brasileiras, multiplicação de sementes e estruturação comercial, a tecnologia poderá ganhar escala no campo.
China começa a disputar também a tecnologia da soja
Talvez esse seja o aspecto mais relevante da aprovação.
Durante décadas, a relação entre Brasil e China na soja foi marcada principalmente por uma divisão muito clara: o Brasil produz e exporta; a China compra e processa.
Agora, empresas chinesas começam a avançar também em uma etapa anterior e muito estratégica da cadeia: a tecnologia presente dentro da semente.
A Beijing Dabeinong Biotechnology foi criada em 2010 e vem construindo um portfólio próprio de eventos geneticamente modificados. Na China, materiais da companhia contendo resistência a insetos e tolerância a herbicidas já receberam autorizações regulatórias nos últimos anos.
A chegada desses eventos ao Brasil cria uma nova camada na relação agrícola entre os dois países.
O movimento não significa que empresas chinesas passarão automaticamente a dominar o mercado brasileiro de sementes. O setor depende de redes de melhoramento, germoplasma adaptado, licenciamento, multiplicação de sementes, canais de distribuição, assistência técnica e confiança do agricultor.
Mas a aprovação mostra que a competição tecnológica está se tornando mais global.
Mais competição pode mexer com o mercado de sementes
Hoje, o agricultor brasileiro já trabalha com diferentes plataformas de biotecnologia que combinam tolerância a herbicidas e proteção contra insetos.
A entrada de novos fornecedores pode aumentar a concorrência por licenciamento de eventos junto a obtentores de cultivares e empresas de sementes.
Isso pode gerar consequências que vão além da genética.
A disputa envolve royalties, acesso à tecnologia, combinações de germoplasma, diferenciação de cultivares e estratégias comerciais.
Em um setor no qual a semente representa parcela crescente do investimento tecnológico por hectare, mais opções podem aumentar o poder de escolha do produtor — desde que as novas plataformas apresentem desempenho agronômico consistente nas condições brasileiras.
O verdadeiro teste, portanto, não termina na aprovação regulatória.
Ele começa quando a genética chega às diferentes regiões produtoras e precisa demonstrar produtividade, estabilidade, sanidade e eficiência de manejo em ambientes que vão do Rio Grande do Sul ao Matopiba.
Uma aprovação pequena no papel e grande na geopolítica agrícola
A nova soja chinesa chega em um momento em que o Brasil entra em mais uma temporada de produção gigantesca.
Para 2026/27, a Conab projeta 49,3 milhões de hectares de soja e uma colheita próxima de 181,64 milhões de toneladas. Mesmo com avanço de área mais lento do que em anos anteriores, o país continua sendo o maior mercado potencial do mundo para tecnologias voltadas à cultura.
Por isso, a autorização da DBN deve ser observada sob duas perspectivas.
Agronomicamente, trata-se de uma nova plataforma que reúne três ferramentas contra insetos e tolerância a dois herbicidas.
Estratégica e comercialmente, porém, o movimento é mais amplo: uma companhia chinesa está avançando sobre o mercado de biotecnologia justamente no país que fornece a maior parcela da soja comprada pela China.
Ainda será necessário acompanhar quando essa tecnologia chegará efetivamente às sementes comerciais, quais empresas brasileiras poderão incorporá-la aos seus programas genéticos e qual será seu posicionamento de preço.
Mas uma coisa já mudou: a China, que há anos influencia o preço da soja brasileira pelo lado da demanda, começa a tentar ganhar espaço também dentro da tecnologia utilizada para produzi-la.
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