Cana-de-açúcar como volumoso para o gado

Cana-de-açúcar como volumoso para o gado

Foto: Blog da Capil

A cana-de-açúcar é considerada a opção forrageira de melhor desempenho bioeconômico para ser utilizada na alimentação de bovinos de corte e leite.

Mesmo que a cana apresente inúmeras vantagens como volumoso, há muitas recomendações para que esta não seja utilizada como alimento para animais de bom potencial genético, por apresentar baixo teor proteico e de minerais e fibra de baixíssima qualidade. Apesar de as considerações sobre suas limitações nutricionais serem verdadeiras, precisam ser consideradas sob uma nova ótica.

Apresenta elevada produtividade de massa por área, o que representa a principal vantagem de sua utilização.

Na comparação da cana com outras forrageiras, o que primeiro precisa ser esclarecido é a necessidade de ajuste das dietas, para que haja uma comparação justa e adequada. Os estudos que apenas trocaram o volumoso de forma imprópria, não apresentaram validação teórica e nem prática.

A escolha de uma variedade com qualidade adequada pode ser adotada durante todo o período de entressafra das pastagens.

As variedades podem ser classificadas em precoce, média e tardia (de acordo com a época de maturação), e como os produtores geralmente não levam em consideração esse conceito na hora da colheita, esse se torna um ponto crítico na redução do desempenho do animal, já que quando a cana está imatura, ela apresenta baixa concentração de açucares solúveis e alta concentração de fibra.

Alguns esforços têm sido realizados no sentido de desenvolver variedades de cana-de-açúcar com maior digestibilidade da fração fibrosa.

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Foto: Secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado de São Paulo

Exemplo disso é a variedade IAC-86-2480, considerada uma variedade específica para alimentação animal, devido à alta digestibilidade da fração fibrosa em relação às outras cultivares existentes.

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A variedade de cana IAC86-2480 apresenta as seguintes características

  • Altos teores de açúcares;
  • Baixa FDN;
  • Boa conversão alimentar;
  • Boa produtividade agrícola;
  • Longevidade de socas;
  • Porte ereto;
  • Despalha espontânea;
  • Uniformidade de altura e diâmetro de colmos;
  • Maior rendimento de corte.

O teor de proteína é considerado um dos maiores limitantes para a utilização da cana como alimento volumoso para ruminantes.

Um grande problema se nota quando a cana é reservada à alimentação animal, isso quer dizer que seu potencial produtivo é subutilizado, devido à falta de atenção nos cuidados básicos com cultura. Pode-se afirmar que muitas falhas na utilização dessa forrageira para alimentação animal são causadas pelo não atendimento mínimo das exigências da cultura e não nos aspectos nutricionais.

Para contornar a necessidade do corte diário, foi proposta a utilização de compostos alcalinos como controladores da ação de micro-organismos no processo de deterioração da cana-de-açúcar após a picagem da forragem, pois além da conservação do material, o uso de agentes alcalinos (cal virgem e cal hidratada) atua sobre as ligações covalentes do tipo éster entre a lignina e a parede celular, quebrando-as e aumentando a solubilidade da fração fibrosa.

Mas ainda que haja uma vantagem operacional da não realização de cortes diários devemos considerar o custo da mão-de-obra para a mistura do agente alcalino com a cana-de-açúcar, o que seria inviável em rebanhos de médio e grande porte.

Há de se considerar que o uso desse volumoso na alimentação de vacas de média a alta produção deve ser realizado com cuidado, pois o aumento da participação da cana na dieta implica redução de consumo.

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Foto: IEPEC

Cana-de-açúcar mais uréia, tecnologia de baixo custo e alta sustentabilidade

Artigo da Iepec explica como utilizar cana-de-açúcar com uréia, segue um resumodo conteúdo.

A utilização da cana mais uréia apresenta vantagens, pois a produção da cana é alta e possui baixo custo operacional, sendo uma tecnologia que pode ser adotada por grandes e pequenos produtores. Em canaviais bem conduzidos, a massa de forragem disponível varia entre 85 e 100 toneladas de massa verde/ha e a cana possui elevado teor de carboidratos não estruturais que são fontes de energia prontamente disponível, contudo, possui baixo teor de proteína e minerais.

O baixo teor de proteína é corrigido com a adição de uma fonte de nitrogênio não protéico (NÑP), como a uréia. Já a composição mineral deve ser corrigida com o fornecimento de sal mineral de boa qualidade, com teores adequados dos elementos. O fornecimento do sal mineral é de extrema importância quando se utiliza esta dieta, pois como dito anteriormente a cana é pobre em minerais essenciais.

A proporção entre uréia (mistura uréia + fonte enxofre) e a cana deve ser feita corretamente. Na primeira semana, recomenda-se para cada 100 kg de cana usar 0,5 kg da mistura diluída em 4L de água, regar a cana com a mistura diluída e homogeneizar. A partir da segunda semana a quantidade de uréia é dobrada, passando para 1%, ou seja, para 100 kg de cana colocar 1 kg da mistura (uréia + fonte enxofre) diluída em 4L de água. Não é recomendado utilizar mais que 4L de água, pois o excesso de água pode levar a intoxicação devido à rápida ingestão da uréia.

Dicas importantes para o sucesso da utilização de cana mais uréia:

  • A cana utilizada deve ser uma variedade industrial, com alto teor de açúcar e menor teor de fibra;
  • O cocho deve ter espaço suficiente para todos os animais;
  • O cocho deve ter saída de água, pois a chuva dilui a uréia podendo ocorrer ingestão rápida de uréia e intoxicação;
  • Deve-se deixar a disposição dos animais um sal mineral de boa qualidade;
  • A cana deve ser picada no momento de fornecer aos animais, em torno de 0,5 cm;
  • Picadeiras devem estar com as facas afiadas, evitando esmagamento e perda do caldo da cana;
  • Fazer o período de adaptação corretamente;
  • Utilizar a proporção recomendada entre uréia e cana de açúcar.
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Foto: Canal Rural

Resultados de cana de alta digestibilidade em gado de corte

Em estudo da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, em Pirassununga, animais que receberam, durante 105 dias, dieta composta por concentrado mais volumoso exclusivo de cana de alta digestibilidade, apresentaram inúmeros benefícios como maior ganho de peso total e diário, e melhor acabamento e rendimento de carcaça.

Geralmente os frigoríficos pedem um mínimo de 3 milímetros (mm) de gordura de acabamento de carcaça, pois protege durante o processo de resfriamento industrial. Em todos os grupos a camada de gordura ficou acima de 3 mm, sendo de 4,6 mm no grupo alimentado com cana de alta digestibilidade.

Já o rendimento da carcaça, que na média nacional é de 52%, nos grupos alimentados com cana de alta digestibilidade foi de 52,4% e de 51,7% no grupo alimentado com a cana de baixa digestibilidade.

O ganho de peso diário médio ficou em 1,6 kg no grupo de alta digestibilidade, chegando a 1,7 kg no grupo alimentado com 80% de concentrado. “A média nacional geral de animais terminados a pasto fica ente 0,1 kg e 0,3 kg, podendo chegar a valores negativos. Para animais terminados em confinamento é de 1,4 kg por dia.”

Outra vantagem foi quanto a receita obtida com a venda dos bovinos excluindo-se o custo da alimentação. Nos grupos alimentados com cana de alta digestibilidade esse valor foi de R$124,6 reais por animal, atingindo R$133,1 no grupo alimentado com a cana de alta digestibilidade e 80% de concentrado. Nos outros dois grupos a média foi de R$111,3.