Cientistas “turbinam” bactérias que trabalham nas lavouras e miram reduzir fertilizantes

Pesquisas da Embrapa editam microrganismos para aumentar a oferta de nitrogênio às plantas e abrir caminho para uma nova geração de bioinsumos no campo.

Uma das tecnologias que ajudaram o Brasil a construir uma agricultura competitiva pode estar entrando em uma nova etapa. Depois de décadas selecionando na natureza microrganismos capazes de beneficiar as plantas, pesquisadores brasileiros começaram a editar geneticamente algumas dessas bactérias para tentar fazê-las trabalhar de maneira ainda mais eficiente dentro das lavouras.

O foco inicial está em um processo estratégico para o agronegócio: a fixação biológica de nitrogênio (FBN). A ideia não é modificar a cultura agrícola, mas atuar sobre microrganismos capazes de capturar o nitrogênio atmosférico e disponibilizá-lo às plantas. Pesquisas conduzidas pela Embrapa e instituições parceiras já trabalham com bactérias associadas a braquiária, trigo, cana-de-açúcar e outras espécies, e três estirpes geneticamente editadas encontram-se em fase de caracterização em laboratório.

O avanço chama atenção também por outro número: segundo Alexandre Nepomuceno, pesquisador da Embrapa Soja e integrante da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), mais de 50% das submissões envolvendo edição gênica encaminhadas atualmente à comissão estão relacionadas a microrganismos.

É um sinal de que uma parte importante da próxima fronteira da biotecnologia agrícola brasileira pode estar acontecendo onde o produtor não consegue enxergar: no universo microscópico que vive associado às plantas e ao solo.

A ideia é fazer a bactéria entregar mais nitrogênio à planta

Para entender a importância da pesquisa, é preciso separar duas coisas.

Bactérias capazes de beneficiar culturas agrícolas não são novidade. O Brasil acumulou décadas de experiência com inoculantes e se tornou referência mundial no uso da fixação biológica de nitrogênio, sobretudo na soja.

A novidade está em interferir de maneira precisa no DNA desses microrganismos.

Uma das ferramentas utilizadas nesse campo é o sistema CRISPR, capaz de direcionar alterações a regiões específicas do material genético. Em vez de depender apenas da busca e seleção de bactérias naturalmente mais eficientes, torna-se possível investigar quais genes estão envolvidos em determinada característica e modificá-los de maneira direcionada.

No trabalho desenvolvido pela Embrapa Agrobiologia, o objetivo é alterar a forma como bactérias diazotróficas — aquelas capazes de fixar nitrogênio — fixam e assimilam esse nutriente.

O raciocínio é relativamente simples: não basta a bactéria capturar nitrogênio. Para a agricultura, interessa que uma parcela maior desse nutriente possa beneficiar a planta.

Por isso, uma das estratégias estudadas atua sobre os genes nifL e nifA, envolvidos na regulação da fixação biológica de nitrogênio. Outra frente busca reduzir a atividade da enzima glutamina sintetase, tentando aumentar o acúmulo e a liberação de amônia pelo microrganismo.

Na prática, os cientistas tentam alterar o metabolismo da bactéria para favorecer uma característica agronomicamente desejável.

Quais bactérias estão sendo estudadas

A Embrapa Agrobiologia trabalha atualmente com diferentes grupos de microrganismos associados a culturas importantes.

Entre eles estão Azospirillum argentinense, relacionado à braquiária; Azospirillum baldaniorum, associado ao trigo; Nitrospirillum viridazoti e Gluconacetobacter diazotrophicus, estudados principalmente em cana-de-açúcar e outras plantas; além de Azorhizophilus paspali, isolado de solo próximo às raízes da grama-batatais.

Segundo a Embrapa, três estirpes editadas — de Nitrospirillum viridazoti, Azospirillum argentinense e Azospirillum baldaniorum — já chegaram à fase de caracterização em laboratório.

Isso é importante, mas exige cautela na interpretação.

A existência dessas linhagens não significa que já exista um novo inoculante editado disponível ao produtor, tampouco que os ganhos observados em laboratório necessariamente serão reproduzidos em condições comerciais. O desempenho precisa avançar pelas etapas de avaliação científica, agronômica e regulatória antes de uma eventual utilização em larga escala.

Esse talvez seja justamente o ponto mais importante para separar o avanço científico de uma promessa comercial prematura.

Por que isso interessa tanto ao Brasil

Poucos países têm tanto a ganhar com esse tipo de tecnologia quanto o Brasil.

O País construiu uma agricultura tropical altamente produtiva, mas permanece bastante dependente do mercado internacional de fertilizantes. O próprio Plano Nacional de Fertilizantes reconhece que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no País são importados, deixando custos agrícolas expostos ao câmbio, à logística internacional e a crises geopolíticas.

É justamente nesse cenário que a biologia ganha importância econômica.

A fixação biológica de nitrogênio já demonstra isso em escala gigantesca na soja. Segundo dados apresentados pela Embrapa, a tecnologia proporcionou uma economia estimada em R$ 38 bilhões em importações de fertilizantes nitrogenados em 2021 e R$ 72 bilhões em 2022.

Na soja, a relação entre a planta e bactérias do gênero Bradyrhizobium consegue suprir praticamente toda a demanda de nitrogênio da cultura nas condições recomendadas de manejo, evitando uma adubação nitrogenada que seria economicamente pesada para dezenas de milhões de hectares.

Reproduzir integralmente esse modelo em milho, trigo, arroz, cana ou pastagens não é algo simples. São relações biológicas diferentes.

Mas mesmo uma substituição parcial do fertilizante nitrogenado nessas culturas poderia adquirir enorme relevância quando multiplicada pela área agrícola brasileira.

Milho pode ser um dos grandes campos dessa corrida tecnológica

Há um motivo especial para acompanhar o avanço da edição de bactérias em gramíneas.

O Brasil já possui experiência comercial com inoculantes contendo Azospirillum brasilense, utilizados há cerca de 15 anos. Artigo científico publicado em 2026 por pesquisadores da Embrapa Semiárido, Esalq/USP e Embrapa Milho e Sorgo aponta que esses inoculantes são aplicados em mais de um terço das lavouras brasileiras de milho.

Os autores defendem que ferramentas modernas de edição genômica podem abrir caminho para uma nova geração de bactérias diazotróficas, com maior capacidade de disponibilizar nitrogênio.

Isso muda a escala da discussão.

Não se trata de introduzir do zero um conceito desconhecido ao agricultor. Existe uma infraestrutura industrial, agronômica e comercial de inoculantes já estabelecida no País. O desafio passa a ser descobrir se microrganismos geneticamente aprimorados conseguem entregar um salto adicional de eficiência de forma consistente no campo.

A competição internacional já começou

O Brasil não está sozinho nessa corrida.

O mesmo artigo científico cita como referência a experiência da empresa norte-americana Pivot Bio, que desenvolveu microrganismos diazotróficos modificados para utilização agrícola. Segundo os pesquisadores, a companhia já submeteu ao Brasil inoculantes contendo suas linhagens remodeladas e recebeu avaliação positiva da CTNBio quanto à viabilidade regulatória.

Isso acrescenta uma dimensão estratégica ao tema.

O Brasil possui enorme biodiversidade microbiana, décadas de conhecimento científico em FBN, agricultura tropical em escala comercial e instituições especializadas em microbiologia agrícola. Transformar essa base científica em propriedade intelectual e produtos desenvolvidos no País pode determinar quem capturará parte do valor econômico dessa nova geração de bioinsumos.

Editado geneticamente significa transgênico?

Não necessariamente.

Esse é outro ponto que tende a gerar dúvidas conforme os produtos avançarem.

Desde 2018, a Resolução Normativa nº 16 da CTNBio estabelece critérios para avaliação das chamadas Técnicas Inovadoras de Melhoramento de Precisão (TIMP), categoria que inclui determinadas aplicações de edição gênica.

A avaliação é realizada caso a caso para determinar se o organismo resultante deve ou não ser enquadrado como OGM. Entre as possibilidades estão edições em que o produto final não mantém DNA ou RNA recombinante introduzido no processo.

Essa diferença regulatória pode ter consequência direta no custo e no tempo necessários para transformar uma descoberta científica em tecnologia comercial.

Segundo Alexandre Nepomuceno, enquanto o desenvolvimento e a desregulamentação de transgênicos tradicionalmente exigiram investimentos elevados, produtos editados classificados como convencionais podem enfrentar custos regulatórios significativamente menores.

Isso também abre espaço para universidades, instituições públicas, startups e empresas menores participarem de um mercado de biotecnologia que historicamente exigiu investimentos muito altos.

Bioinsumos deixaram de ser nicho

A pesquisa aparece justamente quando o mercado brasileiro de produtos biológicos ganha escala.

Dados apresentados em agosto de 2026 durante a reunião da Relare indicam que o setor brasileiro de bioinsumos movimentou aproximadamente R$ 7 bilhões em 2025 e poderá se aproximar de R$ 10 bilhões até 2030. Entre 2019 e 2024, a expansão teria alcançado 21%, ritmo quatro vezes superior à média global, segundo informações da Anpii-Bio divulgadas pela Embrapa.

O número de empresas produtoras também avançou: passou de 81 em 2019 para 209 em 2026.

Portanto, a edição genética dos microrganismos não surge isoladamente. Ela aparece no momento em que a agricultura brasileira começa a tratar a microbiologia menos como tecnologia complementar e mais como uma plataforma para nutrição, promoção de crescimento, controle biológico e maior eficiência no uso dos recursos.

O desafio verdadeiro estará fora do laboratório

Editar uma bactéria é apenas parte do problema.

Um microrganismo agrícola precisa sobreviver à produção industrial, formulação, armazenamento e aplicação. Depois disso, precisa competir com populações microbianas já presentes no solo, estabelecer relação eficiente com a planta e continuar funcionando sob diferenças de temperatura, umidade, fertilidade e manejo.

É por isso que o desempenho em laboratório não deve ser confundido com eficiência comprovada em milhões de hectares.

A própria Embrapa mantém outras unidades trabalhando para melhorar o comportamento desses organismos em condições reais, incluindo Embrapa Semiárido, Embrapa Milho e Sorgo e Embrapa Arroz e Feijão. Entre os objetivos estão não apenas nutrição vegetal, mas também controle biológico de pragas e doenças e maior tolerância a estresses climáticos.

O próximo salto, portanto, não será simplesmente conseguir editar o DNA.

Será provar que a alteração permanece vantajosa quando a bactéria sai da bancada e encontra seca, calor, diferentes solos, defensivos, fertilizantes, competição microbiana e todas as variáveis de uma lavoura comercial.

Uma nova geração de insumos pode começar no microscópio

O Brasil construiu um dos maiores casos mundiais de utilização agrícola de microrganismos sem precisar editar geneticamente as bactérias que sustentam a tecnologia. A fixação biológica de nitrogênio na soja é a demonstração mais clara de quanto uma interação microscópica pode representar em produtividade, custos e competitividade.

Agora, a ciência tenta avançar um passo.

Em vez de procurar somente a melhor bactéria disponível na natureza, os pesquisadores começam a investigar como aprimorar características específicas desses organismos com edição de precisão.

Ainda é cedo para calcular quanto fertilizante poderá ser substituído, qual será o ganho de produtividade ou quando uma nova geração desses produtos chegará às fazendas. As três estirpes divulgadas continuam em caracterização laboratorial, e não há resultado de campo ou prazo comercial anunciado.

Mas a direção da pesquisa é relevante: depois de melhorar sementes, máquinas, defensivos e sistemas de manejo, uma das próximas disputas por eficiência agrícola pode acontecer dentro das próprias bactérias que vivem e trabalham junto às lavouras brasileiras.

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