Experimento britânico leva a agricultura vertical a uma profundidade inédita e testa se ambientes subterrâneos podem produzir hortaliças com eficiência e viabilidade comercial
Uma fazenda a mais de 1 km debaixo da terra está transformando uma mina britânica em laboratório para um modelo incomum de produção de alimentos. A 1,1 quilômetro da superfície, pesquisadores cultivam alface e pak choi em estruturas verticais para descobrir se ambientes subterrâneos podem oferecer uma alternativa comercial para a produção de hortaliças em condições controladas.
O experimento acontece no Boulby Underground Laboratory, em North Yorkshire, no Reino Unido, e reúne pesquisadores do Institute for Sustainable Food, da Universidade de Sheffield, e da Farm Urban, com apoio do Science and Technology Facilities Council (STFC).
Apesar do cenário lembrar uma instalação abandonada, Boulby fica dentro de uma mina de polialita e sal que continua em operação. A agricultura ocupa uma área experimental do complexo científico subterrâneo.
Fazenda a mais de 1 km debaixo da terra usa cultivo vertical
Sem luz natural ou solo agrícola convencional, as plantas crescem em um sistema de agricultura vertical com técnicas hidropônicas.
Nesse tipo de produção, água e nutrientes são fornecidos diretamente às plantas, enquanto a iluminação necessária para a fotossíntese é produzida artificialmente. O controle sobre o ambiente permite ajustar fatores que normalmente dependem das condições externas.
A escolha de Boulby tem relação justamente com essas características. O ambiente subterrâneo apresenta condições mais constantes do que as encontradas na superfície, enquanto a mina já possui infraestrutura de ventilação, energia e acesso desenvolvida para suas atividades científicas e industriais.
O interesse dos pesquisadores está em descobrir se aproveitar estruturas como essa pode tornar a agricultura vertical mais competitiva.
Alface e pak choi colocam o sistema à prova
Os primeiros cultivos escolhidos foram alface e pak choi, duas hortaliças compatíveis com sistemas verticais e capazes de completar seu desenvolvimento em períodos relativamente curtos.
As plantas já chegaram à fase de colheita, permitindo que a equipe passe da discussão teórica para a análise prática do desempenho do sistema.
Os testes iniciais também mostram que simplesmente levar uma fazenda para o subsolo não resolve todos os problemas. Há diferenças entre o desenvolvimento dos cultivos e ajustes técnicos ainda estão sendo realizados durante o experimento. Reportagem publicada pelo The Guardian em 22 de agosto mostrou que os resultados observados até agora são variados, com algumas plantas apresentando desempenho melhor que outras.
Esse ponto é importante porque o objetivo da pesquisa não é apenas provar que uma hortaliça consegue sobreviver no subterrâneo. A questão central é descobrir se ela pode ser produzida ali de maneira previsível e competitiva.
Fazenda a mais de 1 km debaixo da terra precisa vencer o custo da energia
Um dos principais obstáculos da agricultura vertical está no consumo elétrico.
Ao contrário de uma lavoura convencional, a produção em ambientes fechados precisa substituir parte dos recursos fornecidos gratuitamente pela natureza. Iluminação, circulação de ar e sistemas de controle ambiental passam a depender de equipamentos.
É justamente nesse aspecto que a mina britânica será avaliada.
O estudo vai acompanhar produtividade, consumo de energia e custos operacionais, formando uma base de dados capaz de indicar se a agricultura subterrânea pode sair do campo experimental e chegar a uma escala comercial.
A hipótese dos pesquisadores é que algumas características naturais do ambiente subterrâneo e o aproveitamento de infraestrutura existente possam compensar parte das despesas encontradas em fazendas verticais convencionais.
Não significa, porém, produção sem gasto energético. Como não existe incidência de sol naquela profundidade, a iluminação das plantas permanece artificial e continuará pesando na conta.
Mudanças climáticas ajudam a explicar o interesse pelo projeto
O experimento também surge em um momento em que produtores enfrentam maior pressão de eventos climáticos extremos.
No próprio Reino Unido, o verão de 2026 trouxe episódios de calor e seca que afetaram diferentes culturas. Hortaliças folhosas, incluindo alface, espinafre e pak choi, estiveram entre os produtos prejudicados pelas temperaturas elevadas.
A agricultura em ambiente controlado trabalha com uma lógica diferente. Como o cultivo fica isolado das condições externas, chuva excessiva, ondas de calor ou variações bruscas de temperatura deixam de agir diretamente sobre as plantas.
Isso não significa que o modelo possa substituir grandes áreas agrícolas.
Sistemas verticais são muito mais adequados a hortaliças, folhas e culturas de maior valor por área do que a commodities produzidas em milhões de hectares, como soja, milho ou trigo.
Por isso, a tecnologia tende a funcionar como complemento à agricultura tradicional, especialmente em regiões onde disponibilidade de terra, clima ou proximidade dos centros consumidores tornam outros modelos de produção mais difíceis.
Minas desativadas podem ganhar uma nova função
Embora Boulby continue em atividade, uma das possibilidades estudadas pelos cientistas está justamente no futuro de minas que já encerraram suas operações.
O Reino Unido possui diversas áreas ligadas à antiga mineração. Se a produção subterrânea apresentar resultados econômicos positivos, parte desses espaços poderia eventualmente ser reaproveitada para instalações agrícolas.
A Universidade de Sheffield vê nessa alternativa uma oportunidade não apenas para produzir alimentos, mas também para dar uma nova finalidade a infraestruturas existentes e estimular atividade econômica em antigas regiões mineradoras.
Ainda é cedo, contudo, para afirmar que minas serão convertidas em fazendas em larga escala.
A pesquisa em Boulby foi criada justamente porque ainda existem poucas evidências obtidas em condições reais sobre a viabilidade econômica desse tipo de produção.
Experimento pode definir os próximos passos da agricultura subterrânea
O projeto britânico terá 12 meses de acompanhamento, período em que os pesquisadores pretendem reunir informações suficientes para comparar produção, consumo e custos.
É esse conjunto de dados — e não apenas o fato curioso de encontrar verduras crescendo dentro de uma mina — que determinará a relevância da experiência para o setor agrícola.
Se os resultados mostrarem eficiência econômica, o modelo poderá abrir caminho para novos testes em outros ambientes subterrâneos. Caso os custos continuem elevados, a experiência também será valiosa ao revelar quais são os limites práticos da tecnologia.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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