Comida Vegetal: o Brasil pode se tornar terreno fértil para as startups?

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Foto: Divulgação

Foodtechs brasileiras de proteínas plant based recebem aportes e aceleram em mercados internacionais e nacionais. Preço ainda é a grande barreira.

SÃO PAULO – Quanto mais você passar pelas gôndolas dos supermercados, maior será a chance de ver alimentos de proteína animal dividindo espaço com suas versões vegetais – e cada vez mais tecnológicas.

Startups que atuam com comida, ou foodtechs, estão de olho no mercado de proteínas alternativas. A primeira fronteira é criar essas proteínas a partir de plantas (plant based). O resultado é: comidas que parecem, cheiram e tem o gosto de carne de boi, carne de frango, carne de boi, leite, ovos ou chocolate – mas não são.

As foodtechs plant based aproveitam uma preocupação crescente com saúde e meio ambiente, olhando principalmente para as pessoas que aos poucos retiram a carne animal de sua alimentação diária. Muitas dessas startups já conquistaram um espaço relevante Estados Unidos e na Europa. Agora, começam a crescer no Brasil e na América Latina como um todo.

Foodtechs no mundo: amadurecimento e investimento

Diversas inovações estão tomando conta da alimentação. Enquanto algumas ainda estão em fase de descoberta, outras estão já em produção. A consultoria DigitalFoodLab elaborou uma curva de transformações trazidas pelas foodtechs e quanto elas já foram incorporadas em países como os Estados Unidos, que concentra um terço dos unicórnios em foodtech. Proteínas alternativas plant based estão entre as inovações em alimentação mais aceitas pelos consumidores, junto de segmentos como entrega de refeições prontas e itens de supermercado.

Estudo de tendências em foodtechs do DigitalFoodLab 2020 (Reprodução)

O que são essas proteínas alternativas plant based? O The Good Food Institute, um instituto especializado em tecnologia na alimentação, explica que tanto a carne animal quanto as plantas são feitas de proteína, gordura, vitaminas, minerais e água. As foodtechs plant based se aproveitam dessa similaridade bioquímica para reproduzir aparência, cheiro, sabor e cozimento da carne animal, ainda que plantas não contenham músculos. As startups procuram, processam e misturam vegetais com diversas estruturas moleculares para fabricar cada componente visto em uma carne, um laticínio ou um ovo.

Faz tempo que pratos com substitutos vegetarianos e veganos existem – basta pensar em hambúrgueres feitos com cogumelos ou sanduíches com falafel. Porém, as foodtechs plant based criadas nos últimos anos querem que essa transição para uma alimentação com menos produtos de origem animal seja fácil inclusive para os que não querem abrir mão de um filé ou um leite.

“A preocupação com o impacto da agricultura animal no meio ambiente e na saúde gerou um senso de urgência em desenvolver carnes plant based que apelem para o mercado como um todo, e não apenas para um nicho. Houve uma explosão de inovação na última década, e opções de carne plant based se tornaram o segmento que mais cresce dentro da alimentação dos flexitarianos [aqueles que decidem consumir carne menos vezes na semana]”, afirma um estudo feito em 2020 pelo GFI.

Apenas 5% dos consumidores de plant based se consideram veganos ou vegetarianos, segundo uma pesquisa com americanos feita pela empresa de tecnologia para alimentos Mattson em 2020. No limite, o mercado é composto pelos 7 bilhões de habitantes no planeta. A Euromonitor International estimou que apenas o mercado global de leite plant based faturou US$ 16,9 bilhões em 2020, enquanto o de carne plant based teve uma receita US$ 4,2 bilhões no mesmo ano.

Europa e Estados Unidos aparecem entre os maiores mercados nas duas categorias. Em terras americanas, apenas o segmento de produtos plant based faturou US$ 7 bilhões em 2020. O crescimento foi de 27% sobre 2019, ante 15% de crescimento visto no varejo alimentar americano como um todo. Portanto, o mercado plant based cresce a maiores taxas e se espalha pelas residências dos Estados Unidos.

Mesmo assim, os produtos plant based ainda representam uma fatia pequena em comparação aos seus concorrentes animais. O maior produto plant based é o leite vegetal: a categoria representa 35% do mercado americano de plant based e tem 15% de participação no mercado americano de leites. Outro exemplo relevante é a carne plant based. A categoria cresceu 45% entre 2019 e 2020, mas ainda tem apenas 1,4% do mercado americano de carnes. Outros produtos plant based são as variantes vegetais de frutos do mar, manteiga, queijo, iogurte, sorvete e ovos.

Investidores estão apostando no futuro do mercado. Startups que fazem versões vegetais de carne, laticínios e ovos receberam US$ 2,15 bilhões pelo mundo em 2020 — o triplo do capital levantado em 2019. Os maiores expoentes no ramo são as americanas Beyond Meat e Impossible Foods. A Beyond Meat é uma empresa de capital aberto, com valor de mercado de US$ 5,1 bilhões. Já a Imposible Foods procura uma avaliação de US$ 7 bilhões em uma nova rodada privada de captação.

Foodtechs brasileiras: expansão internacional e nacional

Essa promessa global começa a ser vista também na América Latina. É esperado que a curva de transformação proposta pelo DigitalFoodLab seja reproduzida na América Latina, ainda que com alguns anos de atraso, de acordo com o estudo Foodtech Landscape Latam 2021, produzido pela organização de fomento ao empreendedorismo Endeavor e pela gigante de alimentos e bebidas Pepsico.

“A região enfrentará uma escalada na demanda por comida nas próximas décadas, com uma população que chegará a 750 milhões em 2030. A habilidade de atender essa demanda de maneira eficiente e sustentável será fundamental”, afirma o estudo. Desenvolver inovações em produção alimentar pode beneficiar não apenas a América Latina: a região concentrará 38% das terras agrícolas e 25% das exportações de produtos de agricultura e de pescaria no mundo até 2028.

O estudo identificou mais de 300 foodtechs em países como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México. Os empreendimentos captaram US$ 1,7 bilhão com investidores nos últimos dez anos. O Brasil representa 123 dessas foodtechs e US$ 887 milhões dos aportes no período. 23 das 300 foodtechs estão no segmento de “novas comidas” – empreendimentos que compreendem tanto as proteínas plant based quanto as baseadas em carne cultivada em laboratório, insetos e fungos. Os maiores exemplos são Fazenda Futuro (Brasil, 2019), Heartbest Foods (México, 2017) e The Not Company (Chile, 2015).

A categoria recebe uma atenção dos investidores desproporcional ao número de startups: essas 23 foodtechs de “novas comidas” levantaram US$ 245 milhões com investidores em 2021 (até outubro), de um total de US$ 432 milhões recebidos pelas 300 foodtechs na América Latina. 65% das foodtechs de “novas comidas” afirmaram que já levantaram dinheiro com investidores.

Os objetivos com essas injeções de recursos são expandir internacionalmente, desenvolver novos produtos e escalar operações. Ao todo, 26% das foodtechs latino-americanas expandiram internacionalmente, segundo a Endeavor e a Pepsico. Mas essa média esconde os extremos: as startups chilenas e argentinas são mais propensas a se internacionalizar por conta de seus mercados internos pequenos, com 52% e 49% das foodtechs desses países respectivamente indo além de suas fronteiras originais. Enquanto isso, apenas 15% das foodtechs brasileiras e 21% das foodtechs mexicanas atuam em outros países. Os países mais populares para expansão são Estados Unidos, México e Brasil, por conta de seus tamanhos de mercado e demanda pelos produtos plant based.

Companhias que operam internacionalmente tendem a ter receitas maiores do que aquelas que ficam em seus países, de acordo com a pesquisa. “No Brasil, ainda estamos no começo de uma curva de crescimento no consumo dos produtos plant based. Mas o sabor desses produtos nacionais já evoluiu, indo apenas da soja para uma infinidade de ingredientes com propriedades análogas à carne animal.

As marcas brasileiras performam bem em testes cegos de sabor no mundo inteiro, sem muito uso de aditivos. Então existe potencial de escala global para foodtechs com mais investimento, que podem então competir com players globais. Mas existirão outras marcas que poderão faturar apenas aproveitando um crescente mercado brasileiro”, analisa Crica Wolthers, cofundador da plataforma de equity crowdfunding Vegan Business.

Um exemplo conhecido de foodtech plant based internacionalizada é a Fazenda Futuro. Além de um hambúrguer feito com plantas, o empreendimento brasileiro tem emulações de almôndegas, atum, carne moída, frango em pedaços e linguiça de pernil. Alguns ingredientes usados são beterraba, ervilha, gordura de coco, óleo de canola e soja. A Fazenda Futuro atua em 25 países atualmente.

Um aporte recebido no começo deste mês, de R$ 300 milhões, irá principalmente para o mercado americano. “Construímos uma marca apreciada no Brasil e em outros países em pouco mais de dois anos. O mundo sabe que o Brasil entende de carne, e agora podemos assumir a liderança nas carnes de planta”, afirmou Marcos Leta, fundador da Fazenda Futuro, em entrevista anterior ao Do Zero Ao Topo.

Com um real desvalorizado ante o dólar americano, as foodtechs plant based brasileiras conseguem competir bem quanto ao preço apresentado aos consumidores dos Estados Unidos. Ainda, conquistam uma fonte de receita em dólares. “Beyond Meat e Impossible Foods são marcas premium, com embalagens que custam de US$ 6 a US$ 8. Temos as marcas de supermercado no outro extremo, que custam entre US$ 3 e US$ 4,5. Nós entregamos um produto com qualidade premium, mas com um preço que fica entre as marcas de supermercado e as marcas premium por conta da nossa produção nacional. É assim no Canadá, onde estamos presentes na rede Whole Foods”, diz Leta.

A Fazenda Futuro espera terminar este ano com presença em 30 países. As vendas internacionais representaram metade do faturamento da startup ao longo de 2021, e o plano é que representem 90% do faturamento em 2025.

Marcos Leta, fundador da Fazenda Futuro (Divulgação)

A Next Gen Foods, criada por um brasileiro, foi além: é uma foodtech global desde o primeiro dia. O negócio está baseado em Singapura, produz sua versão de frango plant based na Europa e vende esse produto, chamado TiNDLE, para restaurantes em regiões como Singapura, Hong Kong, Macau, Emirados Árabes Unidos, Malásia e Holanda.

A empresa foi criada pelo alemão Timo Recker e pelo brasileiro Andre Menezes. Recker vem de uma família de fabricantes de carne de porco. Apesar de adorar carne, não se identificava com o ambiente de abatedouros. Já Menezes trabalhou na gigante de alimentos BRF e eventualmente foi expatriado para uma joint venture da empresa em Singapura. “Aprendi como o negócio de agropecuária é insustentável: não existem recursos suficientes para continuar crescendo nosso consumo, e o setor responde por uma boa parte do aquecimento global. Todo mundo gosta de carne, mas carne não é o futuro. Me apaixonei pelo setor plant based”, conta o brasileiro.

foodtech começou a operar em março de 2021 e atende cerca de 100 restaurantes. Segundo Menezes, os mercados prioritários para a Next Gen Foods serão Estados Unidos e Europa em 2022. Em 2023, Brasil e China. “O Brasil é um mercado atrativo tanto do ponto de vista de produção quanto de consumo. O brasileiro é aberto para inovação, adora boas comidas e boas experiências, e está se conscientizando sobre sustentabilidade”, diz Menezes.

Timo Recker e Andre Menezes, da Next Gen Foods (Divulgação)

Outras foodtechs plant based já estão apostando na curva de crescimento do plant based no país. Uma das pioneiras foi A Tal da Castanha. Felipe e Rodrigo Carvalho, que tinham uma empresa de castanha de caju há décadas na família, fundaram o negócio de leite de castanhas em 2015. “O mercado brasileiro de bebidas vegetais era praticamente leite de soja. Víamos um crescimento significativo nos mercados americano e europeu de produtos autênticos e clean label [rótulos sem nomes complicados], então decidimos trazer esse movimento para o Brasil”, explica Rodrigo.

A empresa de leite de castanhas foi evoluindo junto com o interesse dos brasileiros – segundo os sócios, o termo plant based ganhou força por aqui a partir de 2017. O primeiro produto era um leite de castanhas, com gosto de castanha de caju. Depois, os empreendedores criaram marcas como Jungle — de isotônicos vegetais — e Possible — finalmente, leites vegetais que tentam imitar sabor e textura do leite de origem animal. Em 2020, todos os negócios foram reunidos em uma holding chamada Positive Brands. A empresa comercializa 22 produtos por meio de 25 mil pontos de venda atualmente. Em 2020, faturou R$ 45 milhões. O plano é dobrar o valor em 2021 e chegar a R$ 135 milhões em 2022.

Felipe e Rodrigo Carvalho, da Positive Brands (Divulgação)

Juliana Salgado também procurou um nicho para chamar de seu. A nutricionista e vegana fundou a marca de doces plant based Super Vegan em 2018. “Decidi empreender com chocolates veganos pela falta de opções no mercado. O vegano geralmente come chocolates amargos porque não costumam levar leite, e sente falta de um chocolate doce. Outras marcas no mercado ou focavam muito no apelo saudável ou usavam muitos adoçantes. Decidimos olhar para diversidade de sabores e para como imitar sabor e textura do chocolate feito com ingredientes de origem animal”.

A Super Vegan recebeu R$ 370 mil em investimentos de anjos e do fundo britânico especializado Veg Capital. Atualmente, comercializa 11 sabores de chocolates em 82 pontos de venda. A marca faturou R$ 275 mil em 2020, e projeta um faturamento de R$ 1 milhão em 2021 (263% de crescimento). Para 2022, o plano é lançar chocolates recheados e faturar R$ 2,5 milhões (150%).

Juliana Salgado, da Super Vegan (Divulgação)

Paulo Ibri é outro exemplo de crescer por meio dos “oceanos azuis” do plant based. Ele criou a 100 Foods, que fabrica versões vegetais de barbecueketchup, maionese e mostarda, em 2019. O negócio surgiu a partir de experiências profissionais e pessoais. Trabalhou em multinacionais de alimentos e bebidas, como Redbull. Na pessoa física, tinha interesse por uma alimentação saudável, mas prática. “Até hoje é um mercado com pouca competição. Colocamos produtos 100% naturais, zero caloria, zero sódio, sem conservantes e aditivos e clean label”, diz Ibri.

A 100 Foods comercializa 11 tipos de produtos. O negócio cresceu 150% de 2019 para 2020. Neste ano, espera um crescimento de 80%. “Empresas e consumidores cortaram verbas, e o volume de compra no mercado de alimentos como um todo retraiu. Muitas portas se fecharam, especialmente para produtos novos. Daí a desaceleração, que deve ser resolvida no próximo ano.”

Paulo Ibri, da 100 Foods (Divulgação)

Potencial versus cultura, preço e escala

As motivações para consumir produtos plant based costumam ser saúde e sustentabilidade ambiental. Essas são respectivamente as preocupações de 56% e 16% dos americanos que consomem produtos à base de plantas, segundo um estudo da consultoria Mintel feito em 2020. Segundo um estudo do sistema de saúde sem fins lucrativos Mayo Clinic, elencado pela Endeavor e pela Pepsico, consumir carne vermelha aumenta o risco de doenças cardíacas, infarto e diabetes. As organizações também citaram um estudo da Universidade de Oxford, que afirma que a produção de carne também emite 250 vezes mais gases de efeito estufa por proteína do que a produção legumes como amendoim ou feijão.

Essa motivação que vem de anos se uniu à pandemia do novo coronavírus. “A pandemia levou ao isolamento social e ao aumento da demanda por serviços de entrega por restaurantes e supermercados. Ao mesmo tempo, colocou a saúde no centro do debate público: 74% dos consumidores mudaram seus hábitos alimentares por conta da Covid-19, segundo uma pesquisa da empresa mexicana Atlantia Search. Todos esses são fatores que deram uma importância maior para as foodtechs”, afirma Enrico Robles Del Río, diretor de inteligência da Endeavor México.

O mercado a transformar é grande no Brasil. O país é o terceiro maior mercado consumidor de carne, atrás apenas de Estados Unidos e China, segundo boletim deste ano da Embrapa. Existe um obstáculo cultural, portanto: as proteínas alternativas são um movimento recente no Brasil. Enquanto Beyond Meat e Impossible Foods surgiram em 2011, a Fazenda Futuro foi criada em 2019. Tanto é que a Fazenda Futuro começará a vender sua categoria de leite e derivados de leite vegetais internacionalmente, e só depois trará os produtos ao Brasil.

“Em alguns países, percebemos que existe a oportunidade de aumentar nossa presença de marca ampliando as categorias que oferecemos. Por enquanto, o grande volume de consumo de leite e derivados de leite plant based está fora do Brasil”, disse Leta. “Por aqui, estamos ainda numa fase de esforço comercial para continuar construindo nossa categoria de carnes a base de plantas.”

Mesmo assim, a transformação parece estar acontecendo. Uma pesquisa realizada pelo The Good Food Institute em maio de 2020 mostrou que 49% dos brasileiros reduziram seu consumo de carne nos 12 meses anteriores, ante 29% no estudo anterior do GFI (2018). Boa parte da substituição feita por esses consumidores foi feita com vegetais comuns (47%), mas carnes vegetais tiveram uma participação relevante (12%).

A pesquisa de Endeavor e Pepsico ressaltam que não basta propósito: os produtos devem competir em preço, sabor e conveniência para os consumidores decidirem colocá-los na cesta do supermercado. Com um poder de compra deteriorado no Brasil, fica difícil convencer o consumidor nacional. “O tamanho de um mercado para produtos baseados em plantas depende não só do tamanho da população e de seus hábitos de consumo, mas também de seu poder aquisitivo. O que está freando a penetração de produtos baseados em plantas no mercado latino-americano é principalmente o preço ao consumidor”, destaca Robles Del Río.

Todas as foodtechs ouvidas pelo Do Zero Ao Topo reafirmaram que o preço é a grande questão. “O mercado está se desenvolvendo e as pessoas estão procurando mais substitutos. Mas temos desafios de acessibilidade tanto em preço quanto em espaço nos supermercados”, diz Juliana, da Super Vegan. “Políticas de incentivos fiscais para produtos mais saudáveis e que geram menos impactos ao ambiente deveriam ser pauta, para aumentar o acesso da população aos produtos plant based. O preço ainda é um grande impeditivo para o desenvolvimento da categoria”, afirma Rodrigo, da Positive Brands.

Por que as proteínas plant based são tão caras? Em primeiro lugar, o investimento necessário para pesquisa e desenvolvimento é alto. Assim, as foodtechs plant based precisam colocar um preço maior para garantir uma margem que viabilize suas operações, segundo Robles del Río. Parte desses recursos para P&D poderia vir de captações com investidores. “Foodtechs latino-americanas estão inovando tanto em suas tecnologias quanto em seus modelos de negócio para terem diferenciais claro. Mas, para alcançarem níveis mundiais de competitividade, precisam de mais investimento e investimento focado regionalmente.”

O dinamarquês Crica Wolthers, o americano Grant Lingel e a brasileira Nádia Gonçalves olharam para essa lacuna para fundar a plataforma de equity crowdfunding Vegan Business. A plataforma recebeu aprovação regulatória em outubro deste ano. Até o momento, recebeu 800 cadastros de investidores interessados. “Esses cadastros demonstram o apetite em encontrar um caminho alternativo para alocação de recursos. São pessoas que têm um viés de propósito, mas que também buscam aliar esse propósito a um retorno financeiro. Elas não veem opções no mercado acionário brasileiro, mas também não tem conexões dentro do mundo das startups. Queremos facilitar esse acesso pelo equity crowdfunding”, diz Wolthers.

A proposta é criar um ecossistema de capital e apoio a negócios plant based em estágio inicial. Eles já devem ter produto validado, algum faturamento e plano de crescimento em um mercado com potencial de escala. O Vegan Business mediará sua primeira captação de investimentos em janeiro de 2022, no valor de R$ 300 mil. O Vegan Business tem 37 empresas na agenda de conversas.

A expectativa é realizar oito rodadas em 2022, chegando a um total captado entre R$ 2,4 milhões e R$ 3,2 milhões. Em 2023, a projeção é atingir 12 rodadas e R$ 12 milhões levantados. “Existe muito talento no país. São pessoas construindo coisas incríveis e com propósito para o mercado plant based. Como investidor anjo, recebia contatos de empreendedores desse tipo. Mas eles não tinham conhecimento sobre como preparar apresentações para chegar aos investidores. Então fazemos também um trabalho de preparação para levantar capital”, completa Wolthers.

Não é apenas a necessidade de grandes investimentos em pesquisa e desenvolvimento que fazem os preços dos produtos plant based serem proibitivos. Existe também um dilema da escala: as pessoas não compram produtos plant based porque são caros. Mas eles poderiam ser mais baratos se mais gente o comprasse. Uma produção maior gera economia por unidade produzida.

Preços maiores pela falta de escala são vistos assim que foodtechs começam a procurar matéria-prima. Startups que fogem da soja como substituto podem encontrar uma oferta muito limitada e com uma colheita pouco eficiente. Assim, o custo de produção para cada litro ou quilo de proteína plant based se torna proibitivo.

Paulo Ibri, da 100 Foods, conhece muito bem essa dificuldade em encontrar proteínas “diferentes”. Neste ano, a startup que nasceu com produtos como ketchup e maionese lançou sua linha de substitutos de carne animal, que cria emulações de frangos empanados e de hambúrgueres bovinos com base na ervilha amarela. “Já tínhamos essa vertical na esteira de desenvolvimento desde a fundação da empresa. Optamos pela ervilha amarela porque é uma boa substituta da fibra animal, e a soja é muito ligada aos transgênicos.

Garantir uma soja não transgênica teria um impacto grande no nosso custo de mercadoria. Ao mesmo tempo, temos de importar essa ervilha da Europa e isso também prejudica as margens”, diz. A 100 Foods já está trabalhando em uma fonte proteica nacional. A foodtech está captando uma rodada de investimentos e vai lançar seis novos produtos em 2022. O plano é crescer 500% no próximo ano.

Segundo o estudo da Endeavor e da Pepsico, o futuro será usar engenharia genética para cruzar diversas plantas com alto teor proteico para serem usadas nas comidas plant based – inclusive plantas que precisam de menos recursos, como fungos e microalgas. A adoção de agricultura em espaços fechados e na vertical são outras formas de dar mais controle sobre a produção. Sem o efeito de clima e pragas, as colheitas se tornam mais consistentes para o uso como matéria-prima.

Até os consumidores se convencerem, o investimento acontecer e as inovações para escala funcionarem, o plano das foodtechs brasileiras é dar um passo de cada vez e reduzir preços aos poucos. “Nenhuma varejista vai decidir reduzir sua margem porque somos uma startup ou porque temos produtos mais saudáveis. Então, o jogo funciona pela escala para reduzir custos. Mas a escala de todos os players plant based é pequena. Por isso, temos de crescer ainda mais no nosso nicho para, finalmente, o plant based ter poder de barganha, reduzir preços e só então democratizar”, resume Ibri.

Fonte: Infomoney

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