Cooperativa agropecuária mais antiga do país tem dívida de R$ 1,4 bilhão e votará dissolução

Com 115 anos de história, Cotribá convocou associados para decidir seu futuro após recuperação judicial barrada; proposta prevê continuidade das operações durante a liquidação.

A crise financeira da Cotribá, considerada a cooperativa agropecuária mais antiga em atividade no Brasil, chegou a uma etapa decisiva. Com sede em Ibirubá, no Rio Grande do Sul, a instituição convocou seus associados para decidir sobre a dissolução voluntária e a abertura de um processo de liquidação, depois de ter o acesso à recuperação judicial barrado pela Justiça estadual. O passivo apresentado no pedido de abril somava aproximadamente R$ 1,427 bilhão, distribuído entre 20.614 credores.

A dimensão do caso ultrapassa o balanço da cooperativa. Para os produtores que dependem da estrutura para entregar grãos, comprar insumos e movimentar a produção, a incerteza financeira pode comprometer o planejamento da propriedade. A situação também abre uma discussão sobre a capacidade das organizações agrícolas de suportar perdas climáticas, oscilações de preços e dívidas acumuladas sem colocar em risco o patrimônio construído pelos associados. A convocação da assembleia da Cotribá já foi noticiada pelo Compre Rural.

Dissolução ainda depende da votação dos associados

A Cotribá ainda não teve sua dissolução aprovada. A assembleia está marcada para 20 de outubro de 2026, em Ibirubá. Portanto, a liquidação é uma proposta submetida aos cooperados, e não um procedimento já iniciado por decisão dessa reunião.

A trajetória recente inclui diferentes tentativas de reorganização. Em dezembro de 2025, o Compre Rural mostrou a proteção judicial obtida pela Cotribá contra cobranças. Em fevereiro de 2026, a cooperativa desistiu da tutela cautelar que antecedia a recuperação judicial, numa mudança de estratégia para enfrentar o endividamento. CompreRural

Um novo pedido foi apresentado em abril. Em setembro, porém, a 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu, por unanimidade, que a Cotribá não tinha legitimidade para utilizar a recuperação judicial, reformando o entendimento de primeira instância e revogando as medidas de proteção concedidas naquele processo. O fundamento foi a natureza jurídica da cooperativa como sociedade simples, enquanto a legislação recuperacional se dirige a empresários e sociedades empresárias.

Liquidação pode manter operações, mas exige viabilidade

A proposta levada aos associados prevê a possibilidade de continuidade das atividades durante a liquidação. Isso significa que a aprovação da dissolução não corresponderia necessariamente ao fechamento imediato de todas as unidades.

Ainda assim, a finalidade da liquidação é organizar o encerramento da sociedade: levantar ativos e obrigações, realizar o patrimônio e pagar credores. A manutenção de atividades depende de autorização e de condições econômicas para sustentá-las. A Lei nº 5.764/1971 estabelece o regime de dissolução e liquidação das cooperativas.

Segundo a pauta divulgada, os associados também deverão deliberar sobre a escolha de um liquidante e de um conselho fiscal. Entre os poderes propostos estão a renegociação de dívidas, a contratação de financiamentos, a venda de bens e operações com recebíveis do agronegócio. Autorizar essas medidas, entretanto, não garante a obtenção de crédito nem a aceitação de acordos pelos credores.

Outros episódios ajudam a entender os desafios desse caminho. O Compre Rural acompanhou o caso do frigorífico da Languiru que poderia ir a leilão durante a liquidação, mostrando como a venda de patrimônio pode entrar na estratégia de pagamento das obrigações.

Dívida bilionária envolve produtores, bancos e fornecedores

A relação apresentada em abril incluía produtores rurais, instituições financeiras, empresas de insumos e trabalhadores. O levantamento publicado pelo AgFeed identificou uma extensa rede de credores e operações de financiamento vinculadas à cooperativa. O valor de R$ 1,427 bilhão corresponde ao passivo declarado naquele momento e não deve ser tratado como um balanço atualizado de outubro.

Para o associado, é importante distinguir três situações: valores a receber por produtos comercializados, mercadorias mantidas em depósito e capital integralizado na cooperativa. Elas podem ter tratamentos diferentes conforme os contratos e a natureza das operações.

A existência de crédito a receber também não elimina automaticamente obrigações do produtor com a instituição, como compras de insumos a prazo. Essa sobreposição pode pressionar o caixa de propriedades que precisam financiar a próxima safra enquanto aguardam pagamentos.

O tema se conecta à cobertura do Compre Rural sobre o endividamento que aperta o agro e amplia as recuperações judiciais entre produtores e sobre o que o produtor precisa saber diante do avanço desses pedidos. comprerural.com

Como a pressão no campo chega à cooperativa

Ao apresentar o pedido judicial, a Cotribá atribuiu suas dificuldades à combinação de queda dos preços das commodities, aumento dos custos, inadimplência de produtores e eventos climáticos no Rio Grande do Sul. Essa é a explicação informada pela cooperativa, sem representar, por si só, uma avaliação independente de todas as causas da crise.

Do ponto de vista econômico, esses fatores podem se reforçar. Uma quebra de safra reduz a renda do associado e pode diminuir o volume recebido pelos armazéns. Com menor movimentação, a estrutura passa a distribuir seus custos fixos por menos toneladas. Se também houver atraso nos pagamentos dos produtores, a cooperativa recebe menos justamente quando precisa cumprir compromissos financeiros.

A exposição climática da economia rural gaúcha aparece em diferentes cadeias, como mostrou a reportagem sobre os temporais que agravaram as perdas dos produtores de leite no Rio Grande do Sul. Já na logística, o portal relatou a reestruturação de uma transportadora agrícola afetada pelas enchentes no Sul. São casos distintos, mas ajudam a mostrar como os impactos do clima podem alcançar toda a cadeia.

Governança precisa acompanhar o tamanho dos riscos

A análise do caso aponta uma questão central para o cooperativismo: ter patrimônio e movimentar grandes volumes não equivale a ter dinheiro disponível para pagar compromissos no vencimento.

Armazéns, instalações industriais e imóveis podem ter valor econômico relevante, mas sua conversão em caixa exige tempo, compradores e condições de negociação. Da mesma forma, um investimento produtivo pode aumentar a capacidade operacional e, simultaneamente, pressionar as finanças se o prazo da dívida for incompatível com o retorno esperado.

Para cooperativas expostas à mesma região, às mesmas culturas e aos mesmos eventos climáticos, a gestão precisa considerar perdas simultâneas entre associados. Como análise de gestão, cinco frentes merecem atenção:

  • Caixa e vencimentos: acompanhar entradas previstas e obrigações financeiras, inclusive em cenários de quebra de safra.
  • Concentração de risco: medir a exposição a culturas, regiões, clientes e fornecedores.
  • Investimentos: avaliar capacidade de pagamento antes de ampliar estruturas.
  • Fiscalização: garantir acesso dos conselhos a informações financeiras completas e compreensíveis.
  • Transparência: apresentar aos associados os riscos, as garantias comprometidas e os resultados de cada atividade.

Esses pontos não constituem uma conclusão de irregularidade na Cotribá. São critérios para avaliar a resistência financeira de organizações que administram recursos e negócios de milhares de produtores.

A discussão ganha relevância num ambiente em que o Compre Rural vem acompanhando o avanço das recuperações judiciais mesmo com safra recorde à vista e a expansão das dificuldades financeiras para usinas, revendas e transportadoras.

O que os associados precisam esclarecer na assembleia

A votação de 20 de outubro deverá definir o próximo caminho da Cotribá. Para os cooperados, a avaliação da proposta exige informações sobre o patrimônio disponível, o endividamento atualizado e a capacidade das operações de gerar caixa.

Entre as questões que precisam de resposta estão quais atividades poderão continuar, como serão tratados os valores devidos aos produtores, quais bens poderão ser vendidos e quais garantias seriam oferecidas em novas operações. Também importa conhecer os mecanismos de fiscalização e prestação de contas do eventual liquidante.

Preservar serviços essenciais pode envolver diferentes arranjos operacionais. Em outro contexto, o Compre Rural mostrou como a C.Vale arrendou uma unidade ligada à AgroGalaxy, mantendo uma estrutura de recebimento e processamento de grãos em funcionamento. Não há indicação, nas informações consultadas, de que uma solução semelhante esteja acertada para a Cotribá.

Para uma cooperativa fundada em 1911, a decisão envolve mais do que a continuidade de uma marca centenária. O desafio será demonstrar, com números e condições verificáveis, quanto das operações pode ser preservado e como o patrimônio disponível poderá atender aos credores e aos produtores associados.

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