Crédito rural da soja: 82,6% bate com cultivo no campo, mas R$ 2,2 bilhões exigem atenção

Estudo da Serasa Experian cruzou operações de financiamento com imagens de satélite e encontrou divergências superiores a 10% da área contratada em 17,4% dos casos; empresa ressalta que os dados não comprovam irregularidade, mas ajudam bancos a direcionar fiscalizações.

O uso de imagens de satélite para acompanhar o destino do crédito rural começa a ganhar espaço como ferramenta de controle no agronegócio brasileiro. Um levantamento da Serasa Experian mostra que, na safra 2025/26, 82,6% das operações de crédito destinadas à soja apresentaram aderência entre a cultura financiada e aquilo que efetivamente foi identificado no campo.

O chamado “Mapa da Soja” analisou 42.691 operações e aproximadamente 1,97 milhão de hectares financiados, cruzando informações do crédito rural com dados obtidos por sensoriamento remoto. O índice de aderência avançou 6,6 pontos percentuais em relação à safra 2022/23, quando estava em 76%.

Apesar da elevada correspondência, uma parcela das operações chamou a atenção. Em 17,4% dos financiamentos analisados, a diferença entre a área financiada e aquela efetivamente identificada com soja foi superior a 10%.

R$ 2,2 bilhões associados a operações com maior divergência

O peso financeiro dessas operações ajuda a dimensionar a importância do monitoramento.

Segundo o levantamento, os financiamentos em que a divergência superou 10% da área contratada estavam associados a mais de R$ 2,2 bilhões em crédito rural, o equivalente a aproximadamente 25% de todo o volume financeiro analisado.

Isso, porém, não significa que R$ 2,2 bilhões tenham sido desviados ou utilizados irregularmente.

A própria Serasa Experian destaca que o sensoriamento remoto funciona como uma ferramenta de triagem. Uma diferença entre a área financiada e a cultura detectada pelo satélite pode ter diferentes explicações e precisa ser investigada antes de qualquer conclusão.

Entre as operações com divergência acima de 10%, 10,6% apresentaram diferenças entre 10% e 50% da área contratada; 3,7%, entre 50% e 90%; e 3,1%, entre 90% e 100%.

Em um dos exemplos encontrados, foram financiados 76,54 hectares para custeio de soja, mas nenhuma área com a cultura foi identificada nas imagens. Em outro caso, um financiamento destinado a 37 hectares apresentou soja em apenas 10,42 hectares, diferença de 71,8%.

Mesmo nesses casos, o resultado deve ser interpretado como sinal para uma verificação mais aprofundada, e não como comprovação automática de fraude.

Satélites mudam a fiscalização do crédito rural

A tecnologia utilizada no estudo permite que instituições financeiras deixem de depender exclusivamente de análises por amostragem.

Os modelos cruzam informações territoriais com séries temporais de imagens dos satélites Sentinel-2, capazes de ajudar na identificação das culturas presentes nas áreas financiadas.

O “Mapa da Soja” combina ainda informações públicas do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) com mapas de cultivo desenvolvidos pela Serasa Experian.

Na prática, bancos e agentes financeiros podem utilizar os indicadores para localizar previamente contratos que apresentem maior divergência e, a partir daí, concentrar as análises documentais, cadastrais, contratuais ou agronômicas.

Isso pode tornar a fiscalização mais direcionada e menos dependente de verificações generalizadas em toda a carteira de crédito.

Quase 98% da soja foi plantada dentro da janela recomendada

O levantamento analisou também quando as lavouras foram implantadas.

Nesse recorte, foram monitorados 1,53 milhão de talhões, cobrindo 46,9 milhões de hectares de soja. O resultado apontou que 97,8% da área identificada foi plantada dentro das janelas recomendadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC).

Do total, 84,9% estava enquadrado na faixa de risco agroclimático de 20%, enquanto 10,7% estava na faixa de 30% e 2,2% na de 40%.

Outros 2,2% apresentaram diferença estimada entre a data de plantio identificada pelo sistema e a janela parametrizada para aquela região.

O dado é relevante porque acrescenta uma nova camada à análise do financiamento: além de verificar se a cultura financiada realmente foi implantada, a tecnologia consegue auxiliar na avaliação de quando o plantio aconteceu e qual era o nível de exposição climática daquela lavoura.

O que muda para o produtor rural

Para o produtor que utiliza crédito oficial, a tendência aponta para um ambiente de monitoramento cada vez mais digitalizado.

Imagens de satélite, informações geoespaciais, cadastros rurais e bancos de dados financeiros começam a ser cruzados em escala capaz de identificar inconsistências sem a necessidade de uma vistoria presencial inicial.

Isso aumenta a importância de manter informações sobre área financiada, localização dos talhões, cultura implantada e documentação da operação corretamente atualizadas.

Ao mesmo tempo, o próprio levantamento mostra que diferenças detectadas pelos sistemas não devem ser tratadas automaticamente como irregularidade. Limitações de escala cartográfica, delimitação de glebas e outros fatores podem gerar divergências que precisam ser avaliadas individualmente.

A tendência, portanto, não é apenas de maior fiscalização, mas de uma fiscalização mais automatizada e baseada em dados, especialmente diante do avanço das exigências regulatórias sobre a aplicação dos recursos do crédito agrícola.

No caso da soja, o primeiro grande retrato produzido pela Serasa Experian mostra duas realidades simultâneas: a ampla maioria das operações analisadas estava aderente ao cultivo financiado, mas uma parcela relevante do dinheiro concedido apareceu associada a áreas que merecem uma análise adicional.

E, com os satélites passando a integrar de forma crescente a gestão do crédito rural, inconsistências que antes poderiam levar meses para serem percebidas podem começar a aparecer praticamente na tela do banco.

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