Originária da Noruega, a Western Fjord pesa cerca de 400 quilos quando adulta e se destaca pelo aproveitamento das pastagens, facilidade de manejo e preservação de uma genética bovina centenária.
Uma raça bovina que atravessou séculos nas regiões montanhosas da Noruega está chamando atenção por uma característica cada vez mais valorizada na pecuária: a capacidade de produzir utilizando menos recursos alimentares. Conhecida como Western Fjord, a pequena raça ganhou destaque em uma publicação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que apresentou a experiência de um criador que acredita estar diante da chamada “vaca do futuro”.
O protagonista da história é Ingve Berntsen, produtor rural da região de Jæren, no sudoeste norueguês. Após enfrentar dificuldades para alimentar animais de maior porte, ele decidiu concentrar sua criação na raça tradicional. A mudança permitiu reduzir despesas com alimentação, embora tenha exigido uma estratégia comercial diferente para compensar a menor quantidade de carne produzida.
Como surgiu a Western Fjord?
A Western Fjord, chamada originalmente de Vestlandsk fjordfe, desenvolveu-se na costa oeste da Noruega, entre as regiões de Hordaland e Møre. Seus antepassados eram criados em propriedades com áreas limitadas de pastagem, onde o inverno rigoroso exigia animais capazes de sobreviver com alimentação restrita.
Essa trajetória contribuiu para a formação de bovinos menores e adaptados às condições locais.
De acordo com o Instituto Norueguês de Pesquisa em Bioeconomia (NIBIO), as fêmeas adultas pesam aproximadamente 400 quilos, enquanto vacas da raça Norwegian Red chegam a cerca de 550 quilos.
A aparência também é bastante variada. Existem animais pretos, castanhos, vermelhos, brancos e malhados, tanto com chifres quanto naturalmente mochos, ou seja, sem chifres. Nibio
O porte compacto lembra outras raças bovinas pequenas, embora a Western Fjord tenha características genéticas e produtivas próprias.
Por que um produtor abandonou o gado de grande porte?
A decisão de Ingve Berntsen começou a tomar forma em 2014, quando ele adquiriu 21 exemplares da Western Fjord. Na época, sua propriedade também trabalhava com bovinos Hereford.
O problema apareceu alguns anos depois.
Em 2017, chuvas frequentes prejudicaram a produção de forragens destinadas à alimentação do rebanho. No ano seguinte, uma seca agravou a situação e reduziu ainda mais a disponibilidade de alimento.
Como os animais maiores demandavam mais comida, o produtor optou por vender os Hereford e manter apenas a raça norueguesa.
A mudança não teve como objetivo aumentar a produção de carne por animal, mas adaptar o rebanho à capacidade alimentar da propriedade.
Segundo Berntsen, a Western Fjord também apresenta facilidade de parto e consegue percorrer áreas de vegetação natural com menor desgaste do terreno devido ao peso reduzido. São observações de sua experiência, não garantias de desempenho em qualquer criação. FAOHome
Uma vaca menor pode ser mais rentável?
O tamanho reduzido influencia diretamente a quantidade de carne produzida. Por isso, a Western Fjord não compete necessariamente com raças especializadas quando a comparação considera apenas o peso dos animais destinados ao abate.
A estratégia adotada por Berntsen envolve três fatores: aproveitar as pastagens disponíveis, diminuir a dependência de concentrados e comercializar a carne diretamente aos consumidores.
Esse modelo reduz determinados gastos, mas também apresenta desafios. O próprio criador reconhece que a venda direta exige bastante trabalho e que os subsídios noruegueses destinados à conservação de raças tradicionais contribuem para a rentabilidade.
A proposta se aproxima de sistemas que valorizam a produção de carne a pasto, nos quais a alimentação e a origem do produto podem fazer parte da estratégia comercial.
Pesquisa registrou ganho superior a 800 gramas por dia
Apesar das dimensões menores, a Western Fjord apresenta resultados interessantes em condições específicas de criação.
Uma avaliação divulgada pelo NIBIO em 2019 acompanhou bovinos mantidos na ilha de Handnesøya, no norte da Noruega.
Segundo a pesquisadora Grete Jørgensen, os machos castrados avaliados registraram ganho médio superior a 800 gramas por dia durante o período de pastejo.
O resultado mostrou que os animais conseguiam apresentar bom desenvolvimento utilizando pastagens. Entretanto, a pesquisadora esclareceu que isso não significava alcançar a mesma quantidade de carne produzida por raças maiores.
O trabalho também chamou atenção para a capacidade desses bovinos de aproveitar diferentes tipos de vegetação, uma característica relevante em áreas onde o terreno dificulta a criação intensiva. Nibio
Raça quase desapareceu, mas população voltou a crescer
A expansão das raças comerciais ao longo do século XX reduziu significativamente a presença de bovinos tradicionais na Noruega.
Com a Western Fjord, a recuperação passou a depender de criadores interessados em preservar a genética local e de programas especializados de acompanhamento dos rebanhos.
Os números mostram uma evolução expressiva: segundo o Centro Norueguês de Recursos Genéticos, o país registrava 426 fêmeas reprodutoras em 2011 e passou para 1.541 em 2025. Nibio
A conservação dessas populações também encontra paralelos na pecuária brasileira, onde diferentes raças bovinas nativas carregam características desenvolvidas ao longo de gerações.
A experiência norueguesa não indica que bovinos menores sejam necessariamente superiores aos animais comerciais. Ela mostra, porém, que características como adaptação alimentar, porte e compatibilidade com o ambiente podem ter valor econômico.
Para os pecuaristas, a principal reflexão está na relação entre genética e sistema produtivo: nem sempre o animal que alcança o maior peso é aquele que oferece a melhor combinação entre despesas, produtividade e retorno financeiro.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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