Estudo do Insper identifica atuação criminosa em terras, insumos, pecuária, transporte e estruturas financeiras; casos recentes mostram que o problema já ultrapassa o furto convencional no campo
A criminalidade rural brasileira está ganhando uma dimensão mais complexa do que o furto de gado, máquinas ou cargas. Um estudo do Insper Agro Global mapeia como grupos organizados podem explorar diferentes etapas do agronegócio, passando por terras, sementes, fertilizantes, defensivos, pecuária, equipamentos, transporte, agroindústria e estruturas financeiras usadas para ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro.
O levantamento não apresenta uma cifra única para o tamanho desse mercado ilegal. Pelo contrário: os pesquisadores alertam que a subnotificação, a fragmentação das estatísticas e a sobreposição de diferentes crimes dificultam qualquer cálculo consolidado. O que o trabalho procura demonstrar é que ocorrências antes observadas separadamente podem integrar estruturas criminosas mais amplas e economicamente organizadas. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Do furto isolado a estruturas que percorrem a cadeia do agro
O estudo considera que houve uma transformação na criminalidade rural ao longo da última década. O campo continua registrando crimes patrimoniais tradicionais, mas investigações passaram a revelar esquemas capazes de combinar receptação, fraude documental, empresas de fachada, circulação de mercadorias, lavagem de dinheiro e logística interestadual ou internacional.
Essa diferença é fundamental. Um caminhão roubado ou uma carga desviada pode representar um episódio isolado. Quando há pessoas responsáveis por identificar a mercadoria, outras encarregadas do transporte, empresas capazes de emitir documentação ou receber pagamentos e canais para revender o produto, a estrutura passa a operar em outra escala.
Um exemplo recente ajuda a mostrar essa complexidade. Em Mato Grosso, a Polícia Civil investigou dez carregamentos irregulares de soja retirados de uma propriedade rural entre janeiro e agosto de 2026. A apuração alcançou funcionários, terceiros e veículos utilizados na operação.
O caso não comprova, por si só, ligação com as facções analisadas pelo Insper. Ele demonstra, entretanto, como crimes envolvendo produtos agrícolas podem depender de conhecimento operacional, transporte e mecanismos internos capazes de contornar controles de uma propriedade.
Defensivos e fertilizantes viram ativos valiosos para mercados clandestinos
Os insumos aparecem entre os pontos mais vulneráveis identificados pelo estudo. No caso dos defensivos, o working paper reúne ocorrências de contrabando, falsificação, adulteração, furto e roubo de cargas, práticas favorecidas pelo alto valor comercial e pela possibilidade de revenda.
As operações realizadas neste ano oferecem evidências concretas do problema.
Em março, o Ministério da Agricultura e Pecuária apreendeu aproximadamente 28 toneladas de defensivos agrícolas com indícios de irregularidades em um galpão clandestino de Patos de Minas, em Minas Gerais. A ação fazia parte da Operação Dólos e tinha como foco o combate à falsificação e à comercialização irregular desses produtos.
Cinco meses depois, outra investigação avançou sobre o mercado de fertilizantes. Em agosto, uma operação conjunta em Mato Grosso encontrou cerca de 217 toneladas de produtos adulterados, avaliados em aproximadamente R$ 645 mil. O estabelecimento fiscalizado não possuía registro no Mapa, e as autoridades identificaram problemas de rotulagem e rastreabilidade, além de indícios de manipulação com componentes não autorizados.
A Polícia Federal informou ainda que a investigação apurava adulteração de cargas de fertilizantes, furto de grãos e possível vinculação dos investigados a um grupo criminoso atuante em Mato Grosso. Por se tratar de investigação, essa vinculação não deve ser apresentada como condenação ou fato definitivo.
Para o agricultor, o impacto não se limita à perda financeira. Um fertilizante adulterado pode entregar concentração de nutrientes diferente da declarada, enquanto um defensivo clandestino pode não possuir composição, origem ou rastreabilidade compatíveis com aquilo informado na embalagem.
Pirataria de sementes gera perdas bilionárias, mas números não devem ser somados
Outra frente relevante é a comercialização irregular de sementes.
Estudo da CropLife Brasil em parceria com a Céleres estimou em cerca de R$ 10 bilhões por ano as perdas associadas à pirataria de sementes de soja. O levantamento calculou que materiais piratas ocupavam aproximadamente 11% da área cultivada com soja no país.
Parte desse impacto recai diretamente sobre produtores, mas o cálculo também considera perdas para a indústria de sementes, processamento e exportações. Por isso, os R$ 10 bilhões não representam dinheiro necessariamente roubado de fazendas nem podem ser simplesmente somados a outras estimativas de mercados ilegais para criar um “prejuízo total do crime no agro”.
Essa distinção é especialmente importante porque o working paper do Insper reúne estatísticas produzidas por instituições e períodos diferentes. Elas ajudam a dimensionar partes do problema, mas não constituem uma conta consolidada da atuação do crime organizado no agronegócio. O próprio documento reconhece essa limitação metodológica.
Fazendas, gado e empresas também podem entrar na rota do dinheiro
O estudo chama atenção ainda para uma dimensão menos visível: o uso de atividades econômicas legítimas para movimentar ou ocultar recursos.
A pecuária aparece como um dos exemplos. O documento descreve situações em que registros de animais, operações comerciais ou movimentações de rebanho podem ser usados para conferir aparência lícita a recursos cuja origem é investigada como ilegal.
É um cenário diferente de afirmar que a pecuária, de forma geral, esteja contaminada por esse tipo de prática. A preocupação está justamente na capacidade de uma organização criminosa utilizar empresas, propriedades ou operações regulares como fachada dentro de uma cadeia produtiva muito maior e legítima.
Investigações oficiais recentes mostram como estruturas empresariais podem fazer parte de esquemas complexos.
Em setembro, a Receita Federal informou que a Operação Crédito Oculto investigava uma estrutura utilizada para esconder os reais controladores de uma empresa sucroalcooleira no interior de São Paulo e para viabilizar outra operação envolvendo uma distribuidora de combustíveis.
Segundo a Receita, uma empresa financeira envolvida nas operações movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. As autoridades afirmam ter encontrado indícios de ocultação patrimonial, dissimulação da origem dos recursos e lavagem de capitais. São indícios sob investigação, e não uma condenação definitiva dos envolvidos.
Logística transforma o campo em ponto estratégico
Uma das principais conclusões do Insper é que a dimensão territorial do agronegócio cria vulnerabilidades específicas.
Produção agrícola, armazenagem e transporte estão espalhados por milhares de quilômetros. Grãos, fertilizantes, defensivos, máquinas e animais percorrem rodovias, propriedades, armazéns, portos e regiões de fronteira. Esse fluxo econômico pode ser explorado por organizações que já possuem experiência em logística clandestina.
O estudo destaca especialmente regiões de fronteira e áreas de baixa densidade populacional, onde fiscalização e resposta policial podem enfrentar dificuldades adicionais. Também aponta que estruturas utilizadas para uma atividade ilegal podem ser reaproveitadas para outra, formando redes mais amplas.
Isso não significa que todo crime de carga seja cometido por uma grande facção. Há quadrilhas locais e operações independentes. O ponto central é que alguns esquemas passam a mostrar divisão de tarefas, capacidade financeira e conexões suficientes para funcionar como verdadeiras cadeias de negócios clandestinas.
Por que a discussão chegou às exportações brasileiras
A repercussão mais recente do estudo acrescentou outro componente ao debate: a reputação internacional das cadeias produtivas.
Em entrevista publicada em 14 de outubro, Alberto Pfeifer afirmou que uma eventual associação comprovada entre produtos, empresas ou estruturas logísticas brasileiras e organizações criminosas pode gerar questionamentos de compradores, autoridades e instituições financeiras estrangeiras. O pesquisador trata esse cenário como risco futuro, e não como uma barreira comercial atualmente aplicada ao agro brasileiro.
A preocupação ganhou um elemento concreto neste ano. Em junho, o Office of Foreign Assets Control, do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, atualizou seus registros para incluir PCC e Comando Vermelho com a marcação FTO — Foreign Terrorist Organization — além de outras designações norte-americanas aplicáveis às duas organizações.
Essa classificação é uma medida dos Estados Unidos e não altera automaticamente a classificação jurídica dessas organizações no Brasil.
Também não significa que soja, carne, milho ou qualquer outra commodity brasileira estejam sob sanção simplesmente por serem produzidas em áreas onde essas facções atuam.
O risco apontado é mais específico: uma empresa, operação comercial ou ativo que tenha ligação comprovada com pessoas ou organizações sancionadas pode enfrentar consequências de compliance ou financeiras no sistema norte-americano. A possibilidade de isso alcançar determinados negócios do agro dependeria de cada caso concreto.
Portanto, afirmar que “o crime organizado já está derrubando as exportações brasileiras” seria incorreto. O que existe é um alerta sobre um risco que pode crescer se estruturas criminosas conseguirem se infiltrar em empresas ou etapas relevantes das cadeias exportadoras.
Rastreabilidade passa a ser questão também de segurança econômica
O Insper argumenta que o enfrentamento desse tipo de criminalidade exige uma resposta diferente daquela utilizada apenas contra furtos isolados.
Entre as propostas aparecem maior integração entre órgãos públicos, compartilhamento de inteligência, acompanhamento dos fluxos financeiros e aperfeiçoamento da rastreabilidade das operações. O estudo também defende uma abordagem capaz de seguir o caminho do dinheiro e identificar os beneficiários econômicos das estruturas investigadas.
Para produtores e empresas, controles relativamente básicos continuam sendo relevantes: verificar a origem de insumos, manter documentação fiscal, conhecer fornecedores e compradores e desconfiar de produtos vendidos muito abaixo do preço praticado por canais regulares.
Em propriedades maiores, cooperativas, cerealistas, frigoríficos e tradings, a discussão vai além. Sistemas de controle de acesso, pesagem, estoque, documentação, movimentação de veículos e homologação de fornecedores podem ajudar não apenas a reduzir perdas, mas também a registrar informações necessárias para identificar fraudes.
Quanto mais a cadeia brasileira avança em rastreabilidade, maior também a capacidade de separar quem opera legalmente daqueles que utilizam o agro como fachada ou instrumento para atividades ilícitas.
O problema é maior que o crime dentro da porteira
O estudo do Insper não permite afirmar quanto o crime organizado movimenta anualmente dentro do agronegócio. Também não comprova que todas as modalidades analisadas sejam controladas pelas mesmas organizações.
O que a pesquisa, as operações oficiais e investigações recentes revelam é uma mudança na natureza do risco.
O campo pode ser alvo de furto, mas também pode servir de rota. Um defensivo pode ser roubado, falsificado e posteriormente revendido. Uma carga pode desaparecer mediante fraude operacional. Uma empresa formal pode ser investigada por ocultar os verdadeiros beneficiários de recursos.
É essa combinação que transforma a segurança rural em um tema econômico mais amplo.
Para um agronegócio que depende de financiamento, compradores internacionais, certificações e cadeias logísticas extensas, proteger a legalidade e a rastreabilidade da produção passa a ser também uma forma de proteger competitividade, patrimônio e reputação comercial.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.